
A Hora Mais Sombria

Srie A Mediadora - vol .4

Meg Cabot




Captulo 1

   Vero. Estao de dias longos e lentos e noites curtas e quentes.
   L no Brooklyn, onde passei meus primeiro quinze, os veres - quando no significavam colnia de frias - significavam ficar na entrada do prdio com minha melhor
amiga, Gina, e os irmos dela, esperando o caminho de sorvete passar. Quando no estava quente demais, brincvamos de um jogo chamado Guerra, fazendo times com
a garotada do bairro e atirando uns nos outros com armas imaginrias.
   Quando ficamos mais velhas, claro, paramos de brincar de Guerra. Alm disso, Gina e eu comeamos a dispensar o sorvete.
   No que isso importasse. Nenhum dos caras da vizinhana, aqueles com quem costumvamos brincar, queria nada conosco.Bem, pelo menos comigo.Acho que no achariam
ruim refazer a amizade com Gina, mas quando finalmente notaram como ela havia se transformado numa gata, Gina estava com a mira apontada para bem mais alto do que
os caras do bairro.
   No sei o que esperava do meu dcimo sexto vero, o primeiro desde que me mudei para a Califrnia para morar com mame e seu novo marido... e, ah, , os filhos
dele.Acho que imaginei os mesmos dias longos e lentos.S que, na minha mente, seriam passados na praia, e no na portaria de um prdio.
   Quanto quelas noites curtas e quentes, bem, tambm tinha planos para elas. S precisava de um namorado.
   Mas, por acaso, nem a praia nem o namorado se materializaram, este ltimo porque... sabe o cara de quem eu gostava?Bem, no estava nem um pouco interessado. Pelo
menos era o que dava para ver. E a praia porque...
   Bem, porque fui obrigada a pegar um emprego.
   Isso mesmo: um emprego.
   Fiquei horrorizada quando uma noite, durante o jantar, mais ou menos no inicio de maio, meu padrasto, Andy, perguntou se eu tinha me inscrito para algum trabalho
de vero. Respondi tipo: "Que papo  esse?".
   Mas logo ficou claro que, como muitos outros sacrifcios que eu deveria fazer desde que mame conheceu Andy Ackerman - apresentador de um popular programa de
trabalhos manuais na TV a cabo, californiano nativo e pai de trs filhos -, se apaixonou e se casou com ele, meu longo e preguioso vero na praia com os amigos
no aconteceria.
   No lar dos Ackerman, como logo ficou claro, voc tinha duas alternativas sobre como passar as frias de vero: com um emprego ou aulas particulares. S Mestre,
meu meio-irmo mais novo - conhecido por todo mundo, menos por mim, como David -, estava livre das duas coisas, j que era novo demais para trabalhar e tirava notas
to boas que fora aceito numa colnia de frias de informtica para o ms inteiro, onde presumivelmente estava aprendendo coisas que iriam torn-lo o prximo Bill
Gates - s espero que sem o penteado ruim e os suteres cafonas.
   Meu meio-irmo do meio, Dunga (tambm conhecido como Brad), no teve tanta sorte. Dunga tinha conseguido levar bomba em ingls e espanhol - um feito espantoso,
na minha opinio, j que o ingls era sua lngua natal.Portanto, estava sendo forado pelo pai a ter aulas particulares cinco dias por semana... quando no estava
sendo usado como mo-de-obra escrava no projeto que Andy havia comeado a fazer enquanto seu programa de TV estava parado durante o vero: detonar grande parte do
deque dos fundos da casa e instalar uma minipiscina de gua quente.
   Dadas as alternativas - emprego ou escola no vero -, optei por procurar trabalho.
   Consegui um emprego no mesmo lugar onde meu meio-irmo mais velho, Soneca, trabalha todo vero. Na verdade ele me recomendou algo que, na poca, simultaneamente
me tocou e me espantou. S mais tarde descobri que ele havia recebido um pequeno bnus por cada pessoa que recomendou e foi contratada.
   Tanto faz. O negocio  o seguinte: agora Soneca - Jake, como  conhecido pelos amigos e pelo restante da famlia - e eu somos orgulhos empregados do Pebble Beach
Hotel and Golf Resort Soneca como salva-vidas e eu como...
   Bem, perdi meu vero para virar bab do hotel.
   Certo. Agora pode parar de rir.
   At eu admito que no  o tipo de emprego que j pensei que serviria para mim, desde que no tenho muita pacincia e certamente no gosto muito que cuspam no 
meu cabelo.Mas deixe-me dizer que pagam dez dlares por hora, e isso, no inclui as gorjetas.
   E deixe-me dizer tambm: sabe as pessoas que ficam no Pebble Beach Hotel na Golf Resort?,  o tipo de gente que costuma dar gorjetas. Generosamente.
   Devo dizer que o dinheiro ajudou um bocado a curar meu orgulho ferido. Se tenho de passar o vero ralando feito uma idiota, ganhar cem pratas por dia - e freqentemente 
mais - compensa bastante. Porque quando o vero terminar devo ter, sem questionamento, o guarda-roupa de outono mais incrvel dentre todo mundo do segundo grau da 
Academia Catlica Junipero Serra.
   Ento pense nisso, Kelly Prescott, enquanto passa seu vero estirada junto  piscina do seu pai. J tenho quatro pares de sapatos Jimmy Choo, pagos com o meu 
dinheiro.
   O que acha disso, srta. Carto AmEx do Papai?
   O nico problema verdadeiro com meu emprego de vero - alm de crianas choronas e dos pais igualmente chores, mais cheios da grana, claro -  o fato de que 
devo estar aqui todo dia s oito da manh.
   Isso mesmo. Oito da matina. Nada de dormir at tarde para a velha Suze neste vero.
   Devo dizer que acho isso meio excessivo. E acredite, reclamei. Mas a regncia do Pebble Beach Hotel e Golf Resort se manteve teimosamente inabalvel para no 
oferecer os servios de bab antes das nove.
   E  assim que toda manh (no consigo dormir nem nos domingos, graas  insistncia do meu padrasto de que todos devemos nos reunir  mesa para a elaborada mistura 
de caf-da-manh com almoo que ele prepara; o sujeito parece pensar que ns somos os Camden, os Walton ou sei l o que) acordo antes das sete...
   O que, como fiquei surpresa em descobrir, tem l suas vantagens.
   Ainda que eu no coloque na lista ver Dunga sem camisa, suando feito um porco e tomando suco de laranja direto na caixa.
   H um bocado de garotas que freqentam minha escola que, eu sei, pagariam para ver Dunga - e Soneca tambm, por sinal - sem camisa, suado ou no. Kelly Prescott, 
por exemplo. E sua melhor amiga e ex-paixo de Dunga, Debbie Mancuso. Eu prpria no entendo a atrao, mas s posso supor que essas garotas no ficaram perto dos 
meus meios-irmos depois de uma refeio em que os feijes tenham aparecido de algum modo no cardpio.
   Mesmo assim, qualquer um que quisesse ver Dunga em sua imitao de modelo de calendrio poderia fazer isso facilmente de graa, s passando por nossa casa em 
qualquer manh de meio de semana. Porque  no nosso quintal dos fundos que Dunga tem estado, aproximadamente desde as seis da manh at sair para a aula particular 
s dez, nu da cintura para cima e realizando um rigoroso trabalho manual sob os olhos de guia do pai.
   Nesta manh especfica - a manh em que eu o peguei, de novo, bebendo diretamente da caixa de suco, hbito do qual mame e eu temos tentado, com pouco sucesso, 
curar todo o cl Ackerman -, aparentemente Dunga estivera cavando, j que deixou uma trilha de lama sobre o que j fora um balco imaculado (sei disse: ontem  noite 
foi minha vez de limpar).
   - Ah - falei ao entrar na cozinha. - Que imagem mais linda!
   Dunga baixou a caixa de suco de laranja e me olhou.
   - Voc no tem de estar em algum lugar? - perguntou ele enxugando a boca com as costas da mo.
   - Claro. Mas esperava que, antes de sair, pudesse curtir um belo copo de suco reforado com clcio. Agora vejo que no ser possvel.
    Dunga sacudiu a caixa.
   - Ainda tem um pouco.
   - Misturado com seu cuspe? - contive um tremor. - Acho que no.
   Dunga abriu a boca para dizer alguma coisa - presumivelmente a sugesto de sempre, de que eu v lamber um prego -, mas a voz do pai gritou de fora da porta de 
vidro que d para o deque.
   - Brad - gritou Andy. - Chega de descansar. Volte aqui e me ajude a baixar isto.
   - Dunga bateu com a caixa de suco no balco. Mas antes que ele pudesse sair da cozinha eu o impedi com um educado: 
   - Com licena?
   Como ele no usava camisa, pude ver os msculos no pescoo e nos ombros de Dunga se retesando enquanto eu falava.
   - Certo - disse ele girando e voltando  caixa de suco. - Vou guardar. Minha nossa, voc vive pegando no meu p por causar dessas mer...
   - Eu no me importo com isso - interrompi apontando para a caixa, se bem que ela devia estar deixando o balco grudento. - Quero saber o que  aquilo.
   Dunga olhou para onde eu tinha apontado. Piscou para o objeto oblongo incrustado de terra.
   - No sei - disse ele. - Achei enterrado no quintal enquanto estava arrancando uma das colunas.
   Levantei com cuidado o que parecia ser uma caixa de metal, com cerca de 15 centmetros de comprimento e uns cinco de largura, muito enferrujada e coberta de lama.Mas 
havia alguns lugares onde a lama tinha sado, e dava para ver algumas palavras pintadas na caixa.As poucas que pude identificar eram aroma e qualidade garantida.Quando 
sacudi a caixa, ela fez barulho.Havia algo dentro.
   - O que tem nela? - perguntei.  
   Dunga deu os ombros.
   - Como  que eu vou saber? Est fechada pela ferrugem. Eu ia pegar...
   No descobri o que Dunga iria fazer com a caixa, j que nesse momento seu irmo mais velho, Soneca, entrou na cozinha, pegou a caixa de suco de laranja, abriu 
e engoliu o resto. Quando terminou, amassou a caixa, jogou no compactador de lixo de depois, aparentemente notando minha expresso pasma, perguntou:
   - O qu?
   No sei o que as garotas vem neles. Srio. Parecem animais. No daqueles fofinhos.
   Enquanto isso, l fora, Andy estava chamando Dunga de novo, com voz imperiosa.
   Dunga murmurou baixinho algumas palavras extremamente pitorescas e depois gritou:
   - J estou indo. - E saiu irritado.
   J eram 7h45, por isso eu e Soneca tnhamos mesmo de "ligar os motores", como ele dizia, para chegar a tempo ao hotel. Mas ainda que meu irmo mais velho tenha 
a tendncia de passar pela vida como sonmbulo, no h nada sonambulstico em seu modo de dirigir. Marquei o carto de ponto cinco minutos antes da hora.
   O Pebble Beach Hotel and Golf Resort se orgulha da eficincia. E de fato tudo funciona muito bem. Como bab contratada,  minha responsabilidade, depois de marcar 
o ponto, perguntar quem so meus encarregados no dia.  ento que descubro se estarei levando papinha de cenoura ou molho de hambrguer do cabelo depois do trabalho. 
Em geral prefiro os hambrgueres, mas h algo a ser dito sobre papinhas de cenoura: em geral as pessoas que comem isso no podem dar respostas mal-educadas  gente.
   Mas quando ouvi com quem ia trabalhar naquele dia especifico, fiquei desapontada, mesmo sendo um comedor de hambrguer.
   - Suzannah Simon - gritou Caitlin. - Voc vai ficar com Jack Slater.
   - Pelo amor de Deus - falei a Caitlin, que era minha supervisora. - Eu fiquei com o Jack Slater ontem. E anteontem.
   Caitlin s tem dois anos a mais do que eu, mas me trata como se eu tivesse 12. De fato tenho certeza de que o nico motivo pelo qual me tolera  o Soneca.  to 
cada por ele quanto todas as outras garotas deste planeta... menos eu, claro.
   - Os pais de Jack requisitaram voc, Suze - informou Caitlin sem nem mesmo erguer o olhar da prancheta.
   - Voc no podia ter dito que eu j tinha sido escolhida?
   Nesse ponto Caitlin levantou a cabea e me espiou com os olhos frios, com lentes de contato azuis.
   - Suze, eles gostam de voc.
   Mexi nas alas do mai. Eu estava usando o mai azul-marinho regulamentar, por baixo da camiseta regata azul-marinho regulamentar e do short cqui. Com pregas, 
imagine s. Horroroso.
   Eu falei do uniforme, no falei?Quero dizer, a parte em que tenho de usar uniforme no trabalho?No brinca. Todo dia. Uniforme!
   Se eu soubesse, no teria me candidatado ao emprego.
   -  - respondi. - Sei que eles gostam de mim.
   O sentimento no  recproco.  No que eu no goste do Jack, se bem que ele  de longe o menininho mais choro que j conheci. Puxa, d para ver por qu -  s 
olhar os pais, dois mdicos obcecados pela carreira, que acham que largar o filho com uma bab  de hotel durante dias sem fim enquanto vo velejar e jogar golfe 
 um timo programa em famlia.
   Na verdade  com o irmo mais velho de Jack que tenho problema. Bem, no necessariamente problema...
    mais tipo: evito passar por ele quando estou usando meu incrivelmente antichique short cqui do uniforme do Pebble Beach Hotel and Golf Resort.
   . O pregueado.
   S que, claro, toda vez que topo com o cara, desde que chegou com a famlia ao hotel na semana passada, estou usando essa roupa estpida.
   No que eu me importe particularmente com o que Paul Slater acha de mim. Quero dizer, meu corao (para inventar uma frase original) pertence a outro.
    uma pena que esse outro no demonstre qualquer sinal de querer. Meu corao, claro.
   Mesmo assim, Paul - esse  o nome dele; o irmo mais velho de Jack, quero dizer: Paul Slater -  bem incrvel.Quero dizer, no que no seja um gato. Ah, no, 
Paul  um gato e divertido. Toda vez que pego ou deixo Jack na sute da famlia, e seu irmo, Paul, por acaso est, ele sempre diz alguma coisa irreverente sobro 
o hotel, sobre os pais ou sobre ele mesmo. No uma coisa maldosa nem nada. S divertida.
   E acho que ele  inteligente, porque sempre que no est no campo de golfe com o pai ou jogando tnis com a me, est lendo na beira da piscina. E no um livro 
tpico de piscina. Nada de Clancy, Crichton ou King. Ah, no. Estamos falando de coisas escritas por caras como Nietzsche ou Kierkegaard.
   Srio. Quase faz a gente pensar que ele no  da Califrnia.
   E claro que, por acaso, no : os Slater so de Seattle.
   Ento veja s, no  s porque Jack Slater  o garoto mais choro que j conheci: tambm h o fato de seu irmo gato me ver de novo usando um short que me faz 
parecer mais ou menos do tamanho do Canad.
   Mas Caitlin estava totalmente desinteressada por meus sentimentos.
   - Suze - disse ela, olhando de novo para a prancheta. - Ningum gosta do Jack. Mas o fato  que o Dr. e a  Sra. Slater gostam de voc. Por isso vai passar o dia 
com Jack. Capice?
   Suspirei fundo, mas o que poderia fazer? Fora o meu orgulho, meu bronzeado era a nica coisa que iria realmente sofrer por passar mais um dia com Jack. O garoto 
no gosta de nadar, de andar de bicicleta, patins, de jogar frisbee nem nada que tenha a ver com o ar livre. Sua idia de diverso  ficar dentro do quarto assistindo 
a desenho animado.
   No estou brincando. Sem qualquer dvida ele  o moleque mais chato que j conheci. Acho difcil acreditar que ele e Paul venham do mesmo caldeiro de genes.
   - Alm disso - acrescentou Caitlin enquanto eu estava ali parada, fumegando -, hoje Jack faz oito anos.
   Encaro-a.
   -  aniversrio dele?  o aniversrio de Jack e os pais vo deix-lo com uma bab o dia inteiro?
   Caitlin me lanou um olhar severo.
   - Os Slater disseram que vo voltar a tempo de lev-lo para jantar no Grill.
   O Grill. Uau.  O Grill  o restaurante mais chique do hotel, talvez de toda a pennsula. A coisa mais barata que servem l deve custar uns 15 dlares e  salada 
da casa. O Grill  o lugar menos divertido para levar um garoto que faz oito anos. Puxa, nem mesmo Jack, a criana mais chata do mundo, poderia se divertir ali.
   No entendo. Realmente. Puxa, o que h de errado com esse pessoal? E como, vendo-se o modo como tratam o filho mais novo, o outro conseguiu sair to...
   Bem, gato?
   Pelo menos essa palavra que saltou na minha mente quando Paul abriu a porta da sute da famlia em resposta  minha batida, depois ficou ali rindo para mim, com 
uma das mos no bolso da cala creme, o outra segurando um livro de algum chamado Martin Heidegger.
   , sabe qual o ltimo livro que eu li? Deve ter sido O cozinho Clifford. Isso mesmo. E, certo, eu estava lendo para uma criana de cinco anos, mas mesmo assim. 
Heidegger. Nossa!
   - E a? Quem ligou para o servio de quarto e pediu a garota bonita? - perguntou Paul.
   Bom, certo, essa no foi engraada. Na verdade, pensando bem, foi meio assdio sexual. Mas o fato de o cara ter minha idade, mais de um metro e oitenta e pele 
bronzeada, com cabelos castanhos encaracolados e olhos azuis como o oceano logo alm do campo de golfe do Pebble Beach, fez a coisa no ser to ruim.
   No to ruim. O que  que eu estou falando?! O cara poderia me assediar sexualmente quando quisesse. Pelo menos algum estava a fim.
   Sorte minha ele no ser o cara que eu queria.
   No admiti isso em voz alta, claro. O que falei foi: 
   - Ha, ha. Estou aqui por causa do Jack.
   Paul se encolheu.
   - Ah - falou balanando a cabea num desapontamento fingido -, o baixinho  que tem sorte.
   Ele manteve a porta aberta para mim e eu entrei na sala chique da sute. Jack estava onde costumava ficar, esparramado no cho diante da TV. No notou minha presena, 
como era seu costume.
   Sua me, por outro lado, me reconheceu:
   - Ah, oi, Suzan. Rick, Paul e eu vamos ficar no campo de golfe a manh inteira. Depois vamos almoar no Grotto, e mais tarde temos compromisso com os personal 
trainers. Ento, se voc puder ficar at a hora de voltarmos, mais ou menos s sete, agradeceramos. Certifique-se de que Jack tome banho antes de pr a roupa para 
o jantar. Deixei um terno para ele.  o aniversrio dele, voc sabe. Bom, tchauzinho, vocs dois. Divirta-se Jack.
    Como  que ele no iria se divertir? - perguntou Paul, com um olhar significativo na minha direo.
   E ento os Slater saram.
   Jack ficou onde estava - diante da TV, sem falar comigo, nem mesmo olhando para mim. Como isso era comportamento tpico, no me alarmei.
   Atravessei a sala - passando por cima do Jack - e fui abrir a porta dupla que dava num terrao virado para o mar. Rick e Nancy Slater estavam pagando seiscentos 
dlares por noite pela vista, que era a baa de Monterey luzindo em turquesa sob o cu azul sem nuvens. Da sute dava para ver a fatia amarela de praia sobre a qual, 
se no fosse meu padrasto bem-intencionado mas equivocado, eu estaria curtinho meu vero.
   No  justo. No mesmo.
   - Certo garoto - falei depois de captar a vista por um ou dois minutos e ouvir o pulsar calmante das ondas. - V colocar um calo de banho. Vamos para a piscina. 
O dia est lindo demais para ficar aqui dentro.
   Como sempre, foi como se eu tivesse beliscado Jack, em vez de sugerir um dia divertido na piscina.
   - Mas por qu? - gemeu ele. - Voc sabe que eu no sei nadar.
   - Exatamente por isso. Voc est fazendo oito anos. Um garoto de oito anos que no sabe nadar no passa de um otrio. Voc no quer ser um otrio, no ?
   Jack opinou que preferia ser um otrio a sair da sute, fato que eu conhecia muito bem.
   - Jack - falei caindo numa poltrona perto dele. - Qual  o seu problema?
   Em vez de responder, Jack rolou de barriga para baixo e fez uma careta para o tapete. Mas eu no ia deix-lo em paz. Sabia do que estava falando, o negcio de 
ser otrio. Ser diferente no sistema educacional pblico - ou mesmo particular - dos Estados Unidos no  legal. No podia imaginar como Paul tinha deixado isso 
acontecer - seu irmozinho virar um chorozinho em quem a gente quase tinha vontade de dar um tapa. Mas sabia muito bem que Rick e Nancy no faziam nada para consertar 
isso. Estava por minha conta salvar Jack Slater de virar o saco de pancadas de sua escola.
   No pergunte por que eu me importava. Talvez porque, de um modo estranho, Jack me lembrasse o pequeno Mestre, meu meio-irmo mais novo, o que est na colnia 
de frias de informtica. Apesar de ser um careta no sentido mais puro da palavra, Mestre  uma das minhas pessoas prediletas. At mesmo tenho me esforado para 
cham-lo pelo nome, David... pelo menos na frente dele.
   Mas Mestre  - praticamente - capaz de se virar com seu comportamento bizarro porque tem memria fotogrfica e capacidade computacional de processar informaes. 
Jack, pelo que dava para ver, no possua essas habilidades. De fato sentia que ele era meio burrinho. De modo que no tinha desculpa para as excentricidades.
   - Qual ? - perguntei. - Voc no quer aprender a nadar nem jogar frisbbe, como uma pessoa normal?
   - Voc no entende - respondeu Jack para o tapete, de modo pouco claro. - Eu no sou normal. Sou... diferente dos outros.
   - Claro que  - falei revirando os olhos. - Todos ns somos especiais e nicos, como flocos de neve. Mas h o diferente e h o esquisito. E voc, Jack, vai ficar 
esquisito, se no tomar cuidado.
   - Eu... eu j sou esquisito.
   Mas o garoto no quis ser mais especifico, e no posso dizer que pressionei muito, tentando descobrir o que ele queria dizer. No que tenha imaginado que ele 
gostasse de afogar gatinhos nas horas livres, ou algo assim. S achei que queria dizer esquisito no sentido geral. Bom, de vez em quando todo mundo se sentia esquisito. 
Talvez Jack se sentisse esquisito com um pouco freqncia, mas afinal, tendo Rick e Nancy como pais, quem no se sentiria? Provavelmente viviam lhe perguntando por 
que no podia ser mais parecido com o irmo mais velho, Paul. Isso bastaria para deixar qualquer criana meio insegura. Quero dizer, qual ! Heidegger? Nas frias 
de vero?
   Sou muito mais O cozinho Clifford.
   Falei a Jack que tanta preocupao iria deix-lo velho antes da hora. Depois ordenei que fosse vestir o calo de banho.
   Ele foi, mas no exatamente com pressa, e quando finalmente samos e estvamos na caminho de tijolos para a piscina, j eram dez horas. O sol batia forte, mas 
o calor ainda no estava desconfortvel. Na verdade quase nunca faz um calor desconfortvel em Carmel, mesmo no meio de julho. L no Brooklyn a gente praticamente 
no pode sair de casa em julho, de to abafado. Mas em Carmel quase no h umidade, e sempre sopra uma brisa fresca do Pacifico.
   Tempo perfeito para namorar. Se por acaso eu tivesse. Quero dizer, um namorado. O que, claro, no tenho. E provavelmente nunca terei - pelo menos o que eu quero 
- se as coisas continuarem como esto.
   De qualquer modo, Jack e eu amos pelo caminho de tijolos para a piscina quando um dos jardineiros saiu de trs de um enorme arbusto de forstia e me cumprimentou 
com a cabea.
   Isso no seria estranho - na verdade fiquei amiga de todo o pessoal do paisagismo, graas aos muitos frisbees que perdi enquanto brincava com as crianas sob 
meus cuidados -, a no ser pelo fato de que esse jardineiro em particular, Jorge, que deveria se aposentar no fim do vero, em vez disso sofreu um araque cardaco 
alguns dias antes e, bem...
   Morreu.
   No entanto, ali estava o Jorge, com seu macaco bege, segurando uma tesoura de poda e balanando a cabea para mim, como tinha feito na ltima vez em que o vi, 
neste mesmo caminho, h alguns dias.
   Eu no estava muito preocupada com a reao de Jack diante de um defunto que aparecesse e balanasse a cabea para a gente, j que, na maior parte das vezes, 
sou a nica pessoa que conheo que pode ver. Quero dizer, os mortos. Por isso estava totalmente despreparada para o que aconteceu em seguida...
   Jack soltou a mo da minha e, com um grito estrangulado, correu para a piscina.
   Isso era estranho. Mas, afinal de contas, Jack era estranho. Revirei os olhos para Jorge e corri atrs do garoto, j que, afinal de contas, estou sendo paga para 
cuidar dos vivos. Todo o negcio de ajudar os mortos tem de ficar em segundo plano enquanto estou no Pebble Beach Hotel and Golf Resort. Os fantasmas simplesmente 
precisam esperar. Quero dizer, no  como se eles estivessem me pagando. Ha! Bem que eu queria.
   Encontrei Jack encolhido numa espreguiadeira, soluando em sua toalha. Felizmente ainda era bastante cedo e no havia muita gente na piscina. Caso contrrio 
talvez eu tivesse de dar alguma explicao.
   Mas a nica outra pessoa ali era Soneca, l no alto em sua cadeira de salva-vidas. E pelo modo como Soneca apoiava a bochecha na mo, ficou bem claro que seus 
olhos, por trs das lentes do Ray-Ban, estavam fechados.
   - Jack - falei, sentando-me na espreguiadeira ao lado. - Jack, qual  o problema?
   - Eu... eu j disse - soluou Jack em sua toalha branca e fofa. - Suze... eu no sou como as outras pessoas. Sou como voc disse. Sou... esquisito.
   Eu no sabia do que ele estava falando. Presumi que s estvamos continuando a conversa do quarto.
   - Jack. Voc no  mais esquisito do que qualquer pessoa.
   - No - soluou ele. - Eu sou. Voc no entende? - Ento ele ergueu a cabea, me olhou direto nos olhos e sibilou. - Suze, voc no sabe por que no gosto de 
sair?
   Balancei a cabea. No tinha sacado. Mesmo ento, eu no tinha sacado.
   - Porque quando saio - sussurrou Jack -, eu vejo gente morta.


    Captulo 2
   
   Juro que foi isso que ele disse.
   Igualzinho ao garoto daquele filme, com as mesmas lgrimas nos olhos, o mesmo medo na voz.
   E eu tive mais ou menos a mesma reao de quando vi o filme. Falei por dentro: Panaca choro. 
   Mas por fora s disse:
   - E da?
   No queria parecer insensvel. S fiquei surpresa demais, Quero dizer, em todos os meus 16 anos s conheci mais uma pessoa com a mesma capacidade que tenho - 
a capacidade de ver e falar com os mortos -, e essa pessoa  um padre de sessenta e tanto anos que por acaso  o diretor da escola que freqento atualmente. Sem 
dvida nunca esperei encontrar um colega mediador no Pebble Beach Hotel and Golf Resort.
   Mas mesmo assim Jack se ofendeu com o meu "E da?".
   - E da? - Jack se empertigou. Era um garotinho magricelo, com o peito fundo e cabelos castanhos encaracolados, com os do irmo. S que Jack no tinha a forma 
lindamente musculosa do irmo, por isso o cabelo encaracolado, que parecia sublime em Paul, dava a Jack a aparncia infeliz de um cotonete ambulante.
   No sei. Talvez por isso Rick e Nancy no quisessem andar por a com ele. A aparncia de Jack  meio estranha, e parece que ele tem conversas freqentes com os 
mortos. Deus sabe que isso nunca fez de mim a miss popularidade.
   Quero dizer, o negcio de falar com os mortos. No tenho aparncia estranha. Na verdade, quando no estou com o short do uniforme, os pees de obra costumam me 
elogiar pela aparncia.
   - Voc no ouviu o que eu disse? - Jack estava deprimido, dava para ver. Eu era provavelmente a primeira pessoa com quem ele falava sobre seu problema especial 
e que no parecia nem um pouco impressionada.
   Coitadinho. Ele no fazia idia de com quem estava lidando.
   - Eu vejo gente morta - disse ele esfregando os olhos com os punhos. - Eles aparecem e comeam a falar comigo. E esto mortos.
   Inclinei-me para frente, pousando os cotovelos nos joelhos.
    - Jack.
    Voc no acredita. - Seu queixo comeou a tremer. - Ningum acredita. Mas  verdade!
   Jack enterrou o rosto de novo na toalha. Olhei na direo de Soneca. Ainda no havia sinal de que ele tivesse achando estranho o comportamento de Jack. O garoto 
murmurava sobre todas as pessoas que no acreditavam nele no decorrer dos anos, uma lista que parecia incluir no apenas os pais, mas todo um bando de especialistas 
mdicos aos quais Rick e Nancy o tinham arrastado. Esperando curar o filho mais novo daquela iluso: de que podia falar com os mortos.
   Coitadinho. No tinha percebido, como eu percebi muito cedo, que o que ele e eu podemos fazer... bem, que a gente no deve falar nisso.
   Suspirei. Verdade, aparentemente seria demais pedir que eu tivesse um vero normal. Quero dizer, um vero sem nenhum incidente paranormal.
   Mas afinal de contas nunca tive um assim na vida. Por que o dcimo sexto seria diferente?
   Pus a mo num dos ombros magros e trmulos de Jack.
   - Jack. Voc viu aquele jardineiro agora mesmo, no foi? O que estava com a tesoura de poda?
   - Voc... voc tambm viu?
   - Vi. Era o Jorge. Ele trabalhava aqui. Morreu h alguns dias, de ataque cardaco.
   - Mas como voc... - Jack balanou a cabea atrs e para frente, devagar. - Quero dizer, ele... ele  um fantasma.
   - Bem, . Provavelmente precisa que a gente faa alguma coisa por ele. Bateu as botas meio de repente, e pode haver coisas, voc sabe, que deixou inacabadas. 
Veio falas conosco porque precisa de ajuda.
   - ... - Jack me encarou. -  por isso que eles me procuram? Porque querem ajuda?
   - Bem, . O que mais iriam querer?
   No sei. - O lbio inferior de Jack comeou a tremer de novo. - Para me matar.
   No pude deixar de sorrir um pouquinho. 
   - No, Jack. No  por isso que os fantasmas procuram voc. - Pelo menos no por enquanto. O garoto era novo demais para ter feito o tipo de inimigos homicidas 
que eu tinha. - Eles o procuram porque voc  um mediador, como eu.
   Lagrimas tremeram nas pontas dos grandes clios de Jack, enquanto ele me olhava.
   - Um... o qu?
   "Ah, pelo amor de Deus", pensei. "Por que eu?" Quero dizer, verdade. Como se minha vida j no fosse complicada demais. Agora tenho de bancar Obi Wan Kenobi para 
o garoto ser um Anakin Skywalker? No  nem um pouco justo. Quando  que eu vou ter a chance de fazer coisas que as adolescentes normais gostam de fazer, tipo ir 
a festas, ficar na praia e... bem...
   O que mais?
   Ah, sim, namorar. Namorar com o garoto de quem eu gosto seria legal.
   Mas eu namoro? Ah, no. O que eu tenho, em vez disso?
   Fantasmas. Principalmente fantasmas procurando ajuda para limpar a sujeira que fizeram quando estavam vivos, mas algumas vezes fantasmas cuja nica diverso  
fazer sujeiras ainda maiores com a vida das pessoas que deixaram para trs. E isso freqentemente inclui a minha.
   E pergunto: ser que tenho um cartaz na testa dizendo: servio de arrumadeira? Por que sou eu que tenho de limpar a sujeira dos outros?
   Porque tive o azar de nascer mediadora.
   Devo dizer que me acho mais adequada para o servio do que o coitado do Jack. Puxa, eu vi meu primeiro fantasma quando tinha dois anos e posso garantir que a 
reao inicial no foi medo. No que, com dois anos, eu pudesse ajudar a pobre alma sofredora que me procurou. Mas tambm no gritei nem sa correndo aterrorizada.
   S mais tarde, quando meu pai - que faleceu quando eu tinha seis anos - voltou e explicou, comecei a entender completamente o que eu era, e por que podia ver 
os mortos, mas os outros - como minha me, por exemplo - no podiam.
   Mas uma coisa eu soube desde muito cedo: dizer a algum que podia ver gente que eles no podiam? , no  uma idia fantstica. Pelo menos seu eu no quisesse 
ir para o nono andar de Bellevue, que  onde eles enfiam todos os pirados de Nova York.
   S que Jack parece no ter tido o mesmo sentimento instintivo de autopreservao com o qual eu aparentemente nasci. Abria o bico sobre o negcio de fantasma para 
qualquer um que quisesse ouvir, com o resultado inevitvel de que os coitados dos pais no queriam ter nada a ver com ele. Aposto que as crianas da idade dele, 
deduzindo que ele mentia para atrair a ateno, achavam a mesma coisa. De certa forma, o prprio garotinho havia provocado todos os seus sofrimentos atuais.
   Por outro lado, se voc me perguntar, quem quer que esteja l em cima entregando crachs de mediador precisa se esforar mais para garantir que quem receba o 
emprego esteja mentalmente  altura do desafio. Eu reclamo um bocado porque isso provocou uma cibra significa na minha vida social, mas no tem nada nesse negcio 
de mediador que eu no me sinta perfeitamente capaz de fazer...
   Bem, a no ser uma coisa.
   Mas venho me esforando um bocado para no pensar nisso.
   Ou melhor, nele.
   - Um mediador - expliquei a Jack -  algum que ajuda as pessoas que morreram a ir em frente, para a prxima vida. 
   Ou para onde quer que as pessoas tenham de ir quando chutam o balde. Mas eu no queria entrar numa discusso metafsica com esse garoto. Quero dizer, afinal de 
contas, ele tem s oito anos.
   - Quer dizer que eu devo ajud-los a ir para o cu?
   - Bem, , acho que sim.
   Se houver um cu.
   - Mas... - Jack balanou a cabea. - Eu no sei nada sobre o cu.
   - No precisa saber. - Tentei pensar num modo de explicar, depois decidi que mostrar era melhor do que dizer. Pelo menos  isso que o Sr. Walden, que foi meu 
professor de ingls e histria da civilizao no ano passado, sempre dizia.
   - Olha - falei pegando Jack pela mo. - Venha. Fique observando, para ver como a coisa funciona.
   Mas Jack pisou no freio imediatamente.
   - No - ofegou ele, com os olhos azuis, to parecidos com o do irmo, loucos de medo. - No, no quero.
   Puxei-o de p. Ei, eu nunca disse que fui feita para esse servio de bab, lembra?
   - Venha - falei de novo. - Jorge no vai machucar voc. Ele  legal. Vamos ver o que ele quer.
   Praticamente precisei carreg-lo, mas finalmente consegui levar Jack ao lugar onde tnhamos visto Jorge. Um instante depois o jardineiro- ou devo dizer, seu esprito 
- reapareceu, e depois de muitos cumprimentos de cabea e sorrisos educados, partimos para os negcios. Foi meio difcil, considerando que o ingls de Jorge era 
to bom quanto meu espanhol - ou seja, nem um pouco bom -, mas no fim pude deduzir o que impedia Jorge de ir desta vida para a prxima, qualquer que ela seja: sua 
irm tinha se apropriado de um rosrio deixado pela me dele para a primeira neta, filha de Jorge.
   - Ento - expliquei a Jack, enquanto o guiava ao saguo do hotel -, o que temos de fazer  conseguir que a irm de Jorge devolva o rosrio a Teresa, a filha dele. 
Seno o Jorge vai ficar por a enchendo nosso saco. Ah, e ele no conseguir encontrar o descanso eterno. Sacou?
   Jack ficou quieto. S foi andando atrs de mim, atordoado. Tinha permanecido num silncio de morte durante minha conversa com Jorge, e agora parecia que algum 
o havia acertado duzentas vezes um basto na cabea.
   - Venha c. - Guiei Jack at uma elegante cabine telefnica de mogno, com porta de vidro deslizante. Depois de ns dois nos enfiarmos dentro, fechei a porta, 
peguei o telefone e pus uma moeda de 25 centavos na fenda. - Olhe e aprenda, gafanhoto.
   O que se seguiu foi um exemplo bastante tpico do que fao quase diariamente. Liguei para informaes, consegui o telefone da figura culpada e liguei para ela. 
Quando a mulher atendeu e eu me certifiquei de que ela falava ingls o bastante para me entender, informei os fatos sem qualquer enfeite. Quando a gente est lidando 
com os mortos, no h necessidade de nenhum tipo de exagero. O fato de algum que morreu ter contatado voc, com detalhes que apenas o falecido saberia, geralmente 
basta. No fim da conversa, a obviamente abalada Marisol garantiu que o rosrio seria entregue, naquele dia, nas mos de Teresa.
   Fim de conversa. Agradeci  irm de Jorge e desliguei.
   - Agora - expliquei a Jack -, se Marisol no fizer isso, teremos notcias de Jorge outra vez, e teremos de partir para alguma coisa um pouquinho mais persuasiva 
do que um mero telefonema. Mas ela pareceu bem apavorada.  arrepiante quando um estranho liga para a pessoa e diz que falou com o irmo morto dela, dizendo que 
ele est furioso com ela. Aposto que a mulher vai fazer o que eu pedi.
   Jack me encarou.
   -  s isso?  s isso que ele queria que voc fizesse? Pedir  irm para devolver o colar?
   - O rosrio - corrigi. - E sim, era isso.
   No achei importante acrescentar que esse caso tinha sido particularmente simples. Em geral os problemas associados a pessoas que vm do outro lado da sepultura 
so um pouco mais complicados e exigem muito mais do que um simples telefonema. De fato, freqentemente acontecem brigas de socos. Eu havia me recuperado h pouco 
tempo de algumas costelas quebradas por um grupo de fantasmas que no tinham apreciado nem um pouco minhas tentativas de ajud-los a ir para a outra vida, e na verdade 
acabaram me mandando para o hospital.
    Mas Jack tinha muito tempo para aprender que nem todos os defuntos eram como Jorge. Alm disso, era o aniversrio dele. Eu no queria pirar o moleque de vez.
   Em vez disso abri a porta da cabine telefnica de novo e falei:
   - Vamos nadar.
   Jack ficou to pasmo com a coisa toda que nem protestou. Ainda tinhas perguntas, claro... perguntas que respondi com o mximo de pacincia e detalhes que pude. 
Entre uma resposta e outra, ensinei um pouco de nado livre.
   E no quero contar vantagem nem nada, mas devo dizer que, graas s minhas instrues cuidadosas e minha influncia calmante, no fim do dia Jack Slater estava 
agindo - e at nadando - como um garoto normal de oito anos.
   Sem brincadeira. O pirralho tinha ficado completamente leve. Estava at rindo. Era como se, ao mostrar que ele no tinha o que temer dos fantasmas que o vinham 
incomodando durante toda a vida, eu tivesse retirado seu medo de... bem, de tudo. No se passou muito tempo at ele estar correndo em volta da piscina, pulando e 
espirrando gua e irritando as mulheres dos mdicos que tentavam se bronzear nas espreguiadeiras prximas. Como qualquer outro garoto de oito anos.
   At conversou com um grupo de outras crianas cuidadas por uma das outras babs. E quando uma das crianas jogou gua na cara de Jack, em vez de irromper em prantos, 
como teria feito na vspera, ele jogou gua na cara do garoto, fazendo Kim, minha colega bab, que estava na gua ao meu lado, perguntar:
   - Meu Deus, Suze, o que voc fez com Jack Slater? Ele est agindo quase como se fosse... normal.
   Tentei no deixar o orgulho aparecer.
   - Ah, voc sabe - falei dando os ombros. - S o ensinei a nadar. Acho que isso lhe deu um pouco de confiana.
   Kim ficou olhando quando Jack e outro garoto, s para serem irritantes, mergulharam espirrando gua num grupo de menininhas que gritaram e tentaram acertar os 
garotos com seus flutuadores de espuma.
   - Bom - disse Kim. - Vou dizer uma coisa. Nem acredito que  o mesmo garoto.
   Nem a famlia de Jack, pelo que ficou aparente. Eu estava ensinando-o a nadar de costas quando ouvi algum dar um assobio, grave e longo, do outro lado da piscina. 
Jack e eu olhamos para cima e vimos Paul ali parado, todo tipo Pete Sampras, vestido de branco com uma raquete de tnis.
   - Olha s isso - disse Paul, atarantado. - Meu irmo numa piscina. E curtindo, veja s. Ser que o inferno se congelou, ou algo assim?
   - Paul - gritou Jack. - Olha para mim! Olha para mim!
   E em seguida Jack estava disparando pela gua em direo ao irmo. Eu no chaMaria o que o Jack estava fazendo exatamente de nado crawl, mas era uma imitao 
bastante passvel, mesmo aos olhos de um irmo mais velho. E, mesmo no sendo bonito, no havia como negar que o garoto se mantinha  tona. Isso a gente precisava 
admitir.
   E Paul admitiu. Agachou-se e, quando a cabea de Jack apareceu logo abaixo dele, estendeu a mo e a empurrou para dentro d'gua outra vez. Voc sabe, brincando.
   - Parabns, campeo - disse Paul quando Jack voltou  superfcie. - Nunca pensei que veria voc sem medo de molhar a cara.
   Sorrindo de orelha a orelha, Jack falou:
   - Olha eu nadando de volta! - E comeou a espadanar pela gua at o outro lado da piscina. De novo no foi bonito, mas foi eficaz.
   Mas em vez de olhar o irmo nadando, Paul se virou para mim, que estava de p com a gua azul na altura do peito.
   - Certo, Annie Sullivan - disse ele. - O que voc fez com Helen*? 
   [* Referncia  pea O milagre de Anne Sullivan, muito popular nos Eua. (N. do T.)].
   Dei de ombros. Jack no havia mencionado os sentimentos do irmo com relao ao negcio de "eu vejo gente morta", por isso eu no sabia se Paul tinha conhecimentos 
da capacidade de Jack ou se, como os pais, achava que tudo estava na cabea do garoto. Um dos pontos que eu havia enfatizado para Jack era que quanto menos pessoas 
- particularmente adultas - soubessem, melhor. Tinha esquecido de perguntar se Paul sabia.
   Ou, mais importante, se acreditava.
   - S o ensinei a nadar - falei, tirando parte do cabelo molhado de cima do rosto.
   No vou mentir nem nada dizendo que fiquei sem graa com um gato como Paul me vendo de mai. Fico muito melhor no mai azul-marinho que o hotel nos obriga a usar 
do que naquele short medonho.
   Alm disso meu rmel  totalmente  prova d'gua. Puxa, no sou idiota.
    - H seis anos meus pais vm tentando fazer esse garoto nadar - disse Paul. - E voc consegue num dia s?
   Sorri para ele.
   - Sou extremamente persuasiva.
   , certo, eu estava paquerando. Pode me processar. Uma garota precisa de alguma diverso.
   - Voc  simplesmente milagrosa. Venha jantar conosco esta noite.
   De repente eu no sentia mais vontade de paquerar.
   - Ah, no, obrigada.
   - Venha - insistiu ele.
   Devo dizer que ele parecia excepcionalmente bem com camisa e short brancos. Destacavam o bronzeado da pele, assim como o sol do fim de tarde destacava alguns 
fios de ouro nos cachos castanho-escuros.
   E no era s o bronzeado que Paul tinha e o outro gato da minha vida no tinha: por acaso Paul tambm tinha o corao batendo.
   - Por que no? - Paul estava ajoelhado perto da piscina, com o antebrao moreno pousado num joelho igualmente moreno. - Meus pais vo adorar. E est claro que 
meu irmo no consegue viver sem voc. E vamos ao Grill. Voc no pode recusar um convite para o Grill.
   - Desculpe. Realmente no posso aceitar.  a poltica do hotel. Os funcionrios no devem se misturar com os hspedes.
   - Quem disse alguma coisa sobre se misturar? Estou falando de comer. De dar uma festa de aniversrio ao garoto.
   - No posso mesmo - falei, dando-lhe meu melhor sorriso. - Tenho de ir. Desculpe.
   E nadei at onde Jack estava lutando para subir numa pilha de flutuadores que tinha recolhido, e fingi estar ocupada demais ajudando-o para ouvir Paul me chamar.
   Olha, sei o que voc est pensando. Est pensando que eu recusei porque a coisa seria muito tipo Dirty Dancing, certo? Namoro de vero no hotel, s que com os 
papis invertidos: voc sabe, a pobre garota trabalhadora e o rico filho de mdico, ningum encosta Baby no canto, bl, bl, bl. Esse tipo de coisa.
   Mas no . No  mesmo. Para comear, eu nem sou tecnicamente pobre. Quero dizer, estou ganhando dez pratas por hora aqui, alm das gorjetas. E mame  ncora 
de TV, e meu padrasto tem seu prprio programa.
   Tudo bem, claro,  s um noticirio local, e o programa de Andy  na TV a cabo, mas qual ! A gente tem uma casa nas colinas de Carmel.
   E tudo bem, claro, a casa  um hotel de 150 anos reformado. Mas cada um de ns tem seu prprio quarto, e h trs carros estacionados na porta, e todos com os 
quatro pneus no lugar. No somos exatamente candidatos ao bolsa-famlia.
   E tambm no  a outra coisa que mencionei, sobre haver uma poltica contra os funcionrios se misturando com os hspedes. Essa poltica no existe.
   Como Kim se sentiu obrigada a me dizer alguns minutos depois.
   - Qual  a sua, Simon? O cara est a fim, e voc deu uma de peloto de fuzilamento com ele. Nunca vi algum levar um fora to depressa.
   Ocupei-me tentando pegar uma formiga que estava se afogando na superfcie da gua.
   -  que eu estou... bem... ocupada esta noite.
   - Nem vem com essa, Suze. - Ainda que eu no conhecesse Kim antes de comearmos a trabalhar juntas (ela estuda na Carmel Valley High, a escola pblica que mame
est convencida de que  cheia de viciados em drogas e membros de gangues), ns ficamos bem prximas, devido  insatisfao mtua por sermos obrigadas a acordar
to cedo para o trabalho. - Voc no vai fazer nada esta noite. Ento por que o tiroteio?
   Finalmente capturei a formiga. Mantendo-a na mo em concha, fui para a beira da piscina.
   - No sei - disse enquanto ia. - Ele parece maneiro e coisa e tal. O negcio... - sacudi a mo do lado de fora da piscina, libertando a formiga -  que eu gosto
de outro.
   Kim levantou as sobrancelhas. Uma delas tinha um piercing de ouro. Caitlin a obriga a tirar antes do trabalho.
   - Diga - ordenou Kim.
   Olhei involuntariamente para Soneca, cochilando em sua cadeira de salva-vidas. Kim soltou um gritinho.
   - Aaargh! Ele? Mas ele  seu...
   Revirei os olhos.
   - No, no  ele. Meu Deus. S que... olha, eu gosto de outro, certo? Mas  tipo... segredo.
   Kim respirou fundo.
   - Uuu! Esse  o melhor tipo. Ele estuda na Academia? - Quando balancei a cabea ela tentou: - Ento na escola Robert Louis Stevenson?
   De novo balancei a cabea.
   Kim franziu o nariz.
   - Ele no estuda na CVHS, no ?
   Suspirei.
   - Ele no est no segundo grau, certo, Kim? Eu preferiria...
   - Ah, meu Deus. Um cara de faculdade? Sua doida. Mame me mataria se soubesse que eu saio com um cara de faculdade...
   - Ele tambm no est na faculdade, certo? - Dava para sentir as bochechas esquentando. - Olha, o negcio  complicado. E no quero falar nisso.
   Kim estava pasma.
   - Bem, tudo bem. Meu Deus. Desculpe.
   Mas ela no podia deixar o assunto de lado.
   - Ele  mais velho certo? - perguntou menos de um minuto depois. - Tipo bem velho? Tudo bem, voc sabe. Eu j sa com um cara mais velho, tipo quando tinha uns
14 anos. Ele tinha 18. Minha me no sabe. Por isso posso entender completamente.
   - De algum modo, realmente no acho que voc possa.
   Ela franziu o nariz de novo.
   - Meu Deus. Quantos anos ele tem?
   Pensei em contar. Pensei em dizer: Ah, no sei. Mais ou menos um sculo e meio.
   Mas no contei. Em vez disso falei ao Jack que estava na hora de ir para dentro, tomar um banho antes do jantar.
   - Meu Deus - ouvi Kim dizendo enquanto eu sa. - To velho assim, ?
   . Infelizmente. To velho assim.



    Captulo 3

   Nem sei realmente como isso aconteceu. Eu estava sendo bem cuidadosa, sabe? Quero dizer, cuidadosa para no me apaixonar por Jesse.
   E vinha fazendo um trabalho muito bom. Puxa, eu estava saindo, conhecendo gente nova e fazendo coisas novas, como ensina a revista Cosmo. Certamente no estava 
sentada num canto pensando nele nem nada.
   E,  claro, a maioria dos caras que eu conheci desde que me mudei para a Califrnia acabou sendo perseguida por assassinos psicopatas ou sendo eles mesmos assassinos 
psicopatas. Mas essa no  de fato uma desculpa muito boa para me apaixonar por um fantasma. No mesmo.
   Mas foi o que aconteceu.
   E tambm posso dizer o momento exato em que soube que tudo aconteceu. Quero dizer, minha batalha para no me apaixonar por ele. Foi enquanto eu estava no hospital, 
me recuperando daquela surra braba que mencionei antes - a que recebi por cortesia de quatro alunos da RLS que tinham sido assassinados uma semana antes da escola 
fechar para o vero.
   De qualquer modo, Jesse apareceu no meu quarto de hospital (Por que no? Ele  um fantasma. Pode se materializar onde quiser.) para desejar melhoras, tudo muito 
sincero e coisa e tal, e enquanto estava ali, por acaso, num determinado ponto, ele tocou meu rosto com a mo.
   Foi s isso. S tocou meu rosto, que, acredito, era a nica parte minha que no estava preta e azul na ocasio.
   Grande coisa, certo? Ento ele tocou meu rosto. Isso no  motivo para desmaiar.
   Mas desmaiei.
   Ah, no literalmente. No foi como se algum precisasse balanar sais aromticos embaixo do meu nariz nem nada, pelo amor de Deus. Mas depois disso j era. Me 
acabei. Fiquei caidinha.
   Tenho orgulho de dizer que fiz um bom trabalho em esconder isso. Tenho certeza de que ele no faz idia. Ainda o trato como se ele fosse... bem, uma formiga que 
tivesse cado na minha piscina. Voc sabe, irritante, mas que no vale a pena matar.
   E no contei a ningum. Como  que posso? Ningum - a no ser o padre Dominic, da Academia, e meu irmo mais novo, Mestre - sequer tem idia de que Jesse existe. 
Quero dizer, qual ! O fantasma de um cara que morreu h 150 anos mora no meu quarto? Se eu contasse a algum, iriam me levar para o hospcio mais depressa do que 
voc consegue dizer Ecos do alm.
   Mas a coisa existe. S que no contei a ningum no significa que no exista, o tempo todo, espreitando na minha mente, como uma daquelas msicas sertanejas que 
voc no consegue tirar do pensamento.
   E preciso dizer, isso faz com que a idia de sai com outros caras parea... bem, uma enorme perda de tempo.
    Por isso no pulei de felicidade diante da chance de sair com Paul Slater (se bem que, se voc me perguntar, jantar com ele e o irmozinho no qualifica exatamente 
como sair). Em vez disso fui para casa e jantei com meus pais e irmos. Bem, pelo menos meio-irmos.
   O jantar na residncia Ackerman sempre foi um negcio importante... at que Andy comeou a trabalhar na instalao da minipiscina de gua quente. Desde ento 
ele afrouxou consideravelmente no departamento culinrio, vou lhe contar. E como minha me no  exatamente o que se pode chamar de cozinheira, ultimamente temos 
jantado um bocado de comida para viagem. Achei que tnhamos chegado ao fundo do poo na vspera, quando pedimos pizza do Pennsula, o lugar onde Soneca trabalha 
 noite fazendo entregas.
   Mas no sabia como a coisa poderia ficar ruim at que entrei naquela noite e vi um balde vermelho e branco pousado no meio da mesa.
   - Nem comece - disse minha me quando me notou.
   S balancei a cabea.
   - Acho que, se a gente tirar a pele, frango frito no  to ruim.
   - Me d - interveio Dunga, jogando pur de batata meio coagulado em seu prato. - Eu como sua pele.
   Mal pude controlar o reflexo de vmito depois dessa oferta, mas consegui, e estava lendo a literatura nutricional que veio com nossa refeio - "O Coronel jamais 
se esqueceu dos aromas deliciosos que costumavam sair da cozinha de sua me na fazenda, quando era garoto" - quando me lembrei da lata cujo contedo tambm tinha 
sido anunciado como tendo um aroma delicioso.
   - Ei. O que havia na lata que vocs acharam? - perguntei. Dunga fez uma careta.
   - Nada. Um punhado de cartas velhas.
   Andy olhou triste para o filho. A verdade  que acho que at meu padrasto comeou a perceber o que eu sei desde que o conheci: que seu filho do meio  de uma 
estupidez cavalar.
   - No  apenas um punhado de cartas, Brad - disse Andy. - Elas so bem antigas, datadas mais ou menos da poca em que esta casa foi construda, 1850. Esto em 
pssimas condies, se despedaando. Pensei em lev-las  sociedade histrica. Talvez eles queiram, apesar do estado. Ou... - Andy olhou para mim - pensei que o 
padre Dominic poderia se interessar. Voc sabe como ele  fantico por histria.
   O padre Dominic  fantico por histria, certo, mas s porque, como eu, sendo mediador ele tem a tendncia a encontrar pessoas que viveram acontecimentos histricos 
como lamo e a expedio Lewis e Clark. Sabe, pessoas que levam a expresso "estive l, fiz coisas" a um nvel totalmente novo.
   - Vou ligar para ele - falei, enquanto deixava um pedao de frango cair por acidente no colo, onde foi instantaneamente sugado pelo enorme co dos Ackerman, Max, 
quem mantm posio atenta ao meu lado durante todas as refeies.
   S quando Dunga riu eu percebi que tinha dito a coisa errada. Jamais tendo sido uma adolescente normal, algumas vezes acho difcil imitar uma. E adolescentes 
normais, pelo que eu sei, nunca ligam regularmente para o diretor da escola.
   Dei um olhar furioso para Dunga, do outro lado da mesa.
   - Eu ia ligar para ele de qualquer modo - falei. - Para descobrir o que devo fazer com dinheiro que sobrou do passeio da nossa turma ao Six Flags.
   - Vou aceitar isso - brincou Soneca. Por que ser que minha me teve de casar com algum de uma famlia de comediantes?
   - Posse ver? - perguntei, ignorando meus dois meios-irmos.
   - Ver o qu, querida? - perguntou Andy.
   Por um momento esqueci do que estvamos falando. Querida? Andy me chamou de querida. O que est acontecendo aqui? Ser que estvamos- estremeo ao pensar - criando 
laos? Com licena, eu j tenho um pai, mesmo que esteja morto. Ele ainda me visita com freqncia demais.
   - Acho que ela quis dizer as cartas - disse minha me, aparentemente nem notando como seu marido tinha acabado de me chamar.
   - Ah, claro - respondeu Andy. - Esto no nosso quarto.
   "Nosso quarto"  o quarto onde minha me e Andy dormem. Tento nunca entrar l, porque, bem, francamente, a coisa toda me causa repulsa. Claro, acho bom que minha 
me esteja finalmente feliz, depois de 10 anos chorando a morte do meu pai. Mas ser que isso significa que eu queira v-la na cama com o novo marido, assistindo 
The West Wing? No, obrigada.
   Mesmo assim, depois do jantar me esforcei e entrei l. Mame estava diante da penteadeira, tirando a maquiagem. Ela precisa dormir bem cedo, para estar a postos 
no noticirio da manh.
   - Ah, oi, meu doce - disse mame de um jeito atordoado, tipo "estou ocupada". - Acho que elas esto ali.
   Olhei para onde ela apontou, em cima da penteadeira de Andy, e vi, junto com outras coisas de homem, como dinheiro trocado, fsforos e recibos, a caixa de metal 
encontrada por Dunga.
   De qualquer modo, Andy tinha tentado limpar a caixa e fez um bom trabalho. Quase dava para ler tudo que havia escrito nela.
   O que era meio infeliz, porque o que estava escrito era muito politicamente incorreto. Experimente os novos charutos Peles-vermelhas! , insistia o texto. Havia 
at mesmo a imagem de um nativo orgulhoso segurando um punhado de charutos onde deveriam estar seu arco e as flechas. O aroma delicioso vai tentar at mesmo o fumante 
mais exigente. Como acontece com todos os nossos produtos, a qualidade  garantida.
   Era isso. Nenhum alerta do Ministrio da Sade falando que o fumo mata. Nada sobre a perda de peso dos fetos. Mesmo assim era estranho como os anncios antes 
da existncia da TV - antes mesmo do rdio - eram basicamente a mesma coisa de hoje. S que, voc sabe, agora sabemos que dar o nome de uma raa de pessoas a um 
produto provavelmente iria ofend-las.
   Abri a caixa e vi as cartas. Andy estava certo sobre o mau estado. To amarelas que mal dava para separar as folhas sem que os pedaos se partissem. Dava para 
ver que tinham sido amarradas com uma fita de seda que podia ter sido de outra cor, mas agora era de um marrom feio.
   Havia um mao de cartas, talvez cinco ou seis. No posso dizer o que pensei que veria, quando peguei a primeira. Mas acho que parte de mim sabia o tempo todo 
o que iria encontrar.
   Mesmo assim, enquanto desdobrava cuidadosamente a primeira e lia as palavras Caro Hector, ainda me sentia como se algum tivesse vindo por trs e me chutado.
   Precisei me sentar. Afundei numa das poltronas que mame e Andy deixam diante da lareira do quarto, os olhos ainda grudados  pgina amarelada.
   Jesse. Aquelas cartas eram para Jesse.
   - Suze? - Mame me olhou com curiosidade. Estava passando creme no rosto. - Voc est bem?
   - tima - falei numa voz estrangulada. - Ser que eu posso... ser sentar aqui e ler as cartas um minuto?
   Mame comeou a passar creme nas mos.
   - Claro. Tem certeza de que est bem? Parece meio... plida.
   - Estou tima - menti. - tima.
   Caro Hector - dizia a primeira carta. A letra era linda - cheia de volutas e antiga, o tipo de letra que a irm Ernestine, da escola, usava. Dava para ler com 
bastante facilidade, apesar de a carta ser datada de 8 de maio de 1850.
   1850! O ano em que nossa casa foi construda, o primeiro ano em que funcionou como penso para viajantes na rea da pennsula de Monterey. O ano - eu sabia porque 
Mestre e eu pesquisamos - em que Jesse, ou Hector (que  o nome de verdade dele; d para imaginar? Quero dizer, Hector), desapareceu misteriosamente.
   Ainda que por acaso eu saiba que no houve nada de misterioso nisso. Ele foi assassinado nesta casa... de fato, no meu quarto no segundo andar. Motivo pelo qual, 
no sculo e meio que se passou, ele ficou aqui, esperando...
   Esperando o qu?
   Esperando voc, disse uma pequena voz na minha cabea. Uma mediadora, para achar estas cartas e vingar a morte dele, para que ele possa ir aonde quer que deva 
ir em seguida.
   A idia me aterrorizou. Verdade. Fez minhas mos suarem, mesmo estando frio no quarto de mame e Andy, com o ar-condicionado no mximo. Minha nuca comeou a ficar 
arrepiada e spera.
   Obriguei-me a olhar de novo para a carta. Se Jesse tinha de ir em frente, bem, eu simplesmente iria ajud-lo. Esse  o meu servio, afinal de contas.
   S que no conseguia deixar de pensar no padre Dom, um colega mediador. H alguns meses ele havia admitido que um dia teve o infortnio de se apaixonar por um 
fantasma, quando tinha minha idade. As coisas no deram certo - como  que poderiam? - e ele virou padre.
   Sacou? Padre. T legal? Para ver como a coisa foi ruim. Para ver o tamanho da perda a superar. Ele virou padre.
   Francamente, no me imagino virando freira. Para comear, nem sou catlica. E depois, no fico muito bem com o cabelo puxado para trs. Verdade. Por isso sempre 
evitei rabo-de-cavalo e faixas de cabelo.
   Pra com isso, falei comigo mesma. Pra com isso comea a ler.
   Li.
   A carta era de algum chamada Maria. No sei muito sobre a vida de Jesse antes de morrer - o sujeito no adora exatamente discutir o assunto -, mas sei que Maria 
de Silva era o nome da garota com quem Jesse ia se casar quando desapareceu. Prima dele. Eu tinha visto o retrato dela num livro. Era uma tremenda gata, voc sabe, 
para uma garota de saia-balo que viveu antes da cirurgia plstica ser inventada. Ou o rmel  prova da gua.
   E, pelo texto, dava para ver que ela tambm sabia. Quero dizer, que era uma gata. A carta falava das festas que havia freqentado, e quem disso o qu sobre seu 
novo toucado. Seu toucado, imagina s. Juro por Deus, era como ler uma carta de Kelly Prescott, s que tinha um monte de acols e homessas, e no mencionava Ricky 
Martin. Alm disso, havia um monte de coisas escritas com erros. Maria podia ser um pitu, mas ficou bem claro, depois de ler suas cartas, que no havia tirado notas 
muito boas em gramtica no velho educandrio.
   O que me espantou, enquanto lia, foi que a garota que escreveu aquelas cartas no parecia a mesma que, eu tinha bastante certeza, havia ordenado a morte do noivo. 
Porque por acaso eu tinha ficado sabendo que Maria no queria se casar com Jesse. O pai dela tinha arrumado o casamento. Maria pretendia se casar com outro, um cara 
chamado Diego, traficante de escravos. Um charme de pessoa. De fato eu suspeitava de que Diego tinha matado Jesse.
   No, claro, que Jesse mencionasse alguma coisa sobre isso - ou, por sinal, que mencionasse qualquer coisa sobre seu passado. Ele mantm, e sempre manteve, a boca 
totalmente fechada sobre o assunto de sua morte. O que acho que posso entender: ser assassinado deve ser meio traumatizante.
   Mas devo dizer que  meio difcil entender por que ele ainda est aqui depois de tanto tempo se no quer colaborar com a conversa. Tive de descobrir tudo isso 
num livro sobre a histria do condado de Salinas, que Mestre descobriu na biblioteca local.
   Por isso acho que se pode dizer que li as cartas de Maria com certo sentimento de premonio. Quero dizer, eu estava praticamente convencida de que descobriria 
nelas alguma prova de que Jesse tinha sido assassinado... e quem tinha feito isso.
   Mas a ltima carta era to superficial quanto as outras quatro. No havia nada, absolutamente nada indicando qualquer ato ruim da parte de Maria... a no ser, 
talvez, uma total incapacidade de escrever certo a palavra compromisso. E, verdade, que tipo de crime  esse?
   Dobrei as cartas cuidadosamente outra vez e as enfiei de novo na lata, percebendo que minha nuca, alm das mos, no estavam mais suando. Ser que me sentia aliviada 
por no haver nada incriminador ali, nada que ajudasse a resolver o mistrio de Jesse?
   Acho que sim.  egosmo da minha parte, sei, mas  a verdade. S sei agora o que Maria de Silva tinha usado numa festa na casa do embaixador espanhol. Grande 
coisa. Por que algum guardaria cartas to incuas assim numa lata de charutos e as enterraria? No fazia sentido.
   - Interessantes, no so? - perguntou mame quando me levantei.
   Pulei quase um quilmetro. Tinha esquecido que ela estava ali. Agora estava na cama, lendo um livro sobre como administrar o tempo de modo mais eficiente.
   -  - falei, guardando as cartas de novo na penteadeira de Andy. - Realmente interessantes. Fico felicssima em saber o que o filho do embaixador disse ao ver 
Maria de Silva em seu novo vestido de baile, de gaze.
   Mame me olhou com curiosidade atravs dos culos de leitura.
   - Ah, ela mencionou o sobrenome em algum lugar? Porque Andy e eu estvamos imaginando qual seria. No vimos. De Silva, foi o que voc disse?
   Pisquei.
   - Ah. No. Bem, ela no disse. Mas Mestre, e eu... quero dizer, David me contou sobre esta famlia, de Silva, que morou em Salinas mais ou menos nessa poca, 
e eles tinham uma filha  chamada Maria, e eu simplesmente... - Minha voz ficou no ar quando Andy entrava no quarto.
   - Oi, Suze - disse ele, parecendo meio surpreso em me ver em seu quarto, j que eu nunca punha os ps l dentro. - Viu as cartas? Bacanas, no?
   Bacanas. Ah, meu Deus. Bacanas.
   - . Preciso ir. Boa noite.
   No consegui sair suficientemente rpido. No sei como os filhos cujos pais se casam mltiplas vezes lidam com isso. Quero dizer, minha me s se casou de novo 
uma vez, e com um homem perfeitamente legal. Mas, mesmo assim,  esquisito demais.
   Mas se eu tinha achado que poderia ir para o meu quarto e ficar sozinha e pensar nas coisas, errei. Jesse estava sentado no parapeito da janela.
   Sentado ali, como sempre: totalmente gostoso, com a camisa aberta no colarinho e as calas pretas, de toureiro, que ele costuma usar - bem, no  que se possa 
trocar de roupa na outra vida -, com os cabelos curtos e escuros encaracolados na nuca e os olhos negros, lquidos e brilhantes por baixo das sobrancelhas igualmente 
negras, uma das quais com uma cicatriz minscula.
   Uma cicatriz que, mais vezes do que gosto de admitir, eu sonhava em acompanhar com as pontas dos dedos.
   Ele ergueu os olhos quando entrei - estava com Spike, meu gato, no colo - e disse:
   - Este livro  muito difcil de entender. - Estava lendo um exemplar de First Blood, de David Morrell, no qual foi baseado o filme Rambo.
   Pisquei tentando acordar do estupor atordoado em que a viso dele sempre me deixava por cerca de um minuto.
   - Se Sylvester Stallone entendeu - falei -, achei que voc entenderia.
   Jesse ignorou isso. Falou: 
   - Marx previu que as contradies e as fraquezas dentro da estrutura capitalista provocariam crises econmicas cada vez mais srias e o aprofundamento da pobreza 
da classe operria que acabaria se revoltando e toMaria o controle dos meios de produo... exatamente o que aconteceu no Vietn. O que induziu o governo americano 
a achar que tinha o direito de se envolver na luta do povo daquele pas em desenvolvimento em busca da solidariedade econmica?
   Meus ombros se afrouxaram. Verdade, ser demais pedir que eu possa voltar para casa depois de um longo dia de trabalho e relaxar? Ah, no. Tenho de chegar em 
casa e ler um punhado de cartas escritas ao amor de minha vida pela noiva dele que, se estou correta, mandou mat-lo h 150 anos.
   Ento, como se no fosse ruim o bastante, ele quer que eu explique a Guerra do Vietn.
   Realmente preciso comear a esconder os livros didticos. O negcio  que ele os l e consegue reter o que dizem, e depois aplica s outras coisas que encontra 
pela casa.
   No sei por que no pode simplesmente assistir  TV, como uma pessoa normal.
   Fui at a cama e desmoronei, de cara. Devo mencionar que ainda estava usando o horrvel short do hotel. Mas no consegui me obrigar a me importar com o que Jesse 
acharia do tamanho da minha bunda naquele momento especfico.
   Acho que a coisa deve ter ficado evidente. Quero dizer, no minha bunda, mas minha infelicidade geral com o modo como o vero estava passando.
   - Voc est bem? - perguntou Jesse.
  - Estou - falei para os travesseiros.
  Depois de um minuto Jesse insistiu:
   - Bom, voc no parece bem. Tem certeza de que no h nada errado?
   "Sim, h algo errado", quis gritar para ele. Acabo de passar vinte minutos lendo um punhado de cartas particulares de sua ex-noiva, e ser que devo acrescentar 
que ela pareceu uma criatura fantasticamente chata? Como voc pode ter sido estpido a ponto de concordar em se casar com ela? Com ela e seu estpido toucado.
   Mas o negcio  que eu no queria que Jesse ficasse sabendo que eu tinha lido sua correspondncia. Quero dizer, ns somos basicamente colegas de quarto e coisa 
e tal, e h certas coisas que no se faz. Por exemplo, Jesse sempre tem a delicadeza de no ficar por perto quando estou trocando de roupa, tomando banho e coisas 
do tipo. E eu tenho todo o cuidado de colocar a areia para Spike que, diferentemente de um gato normal, prefere a companhia dos fantasmas  humana. S me tolera 
porque eu lhe dou comida.
   Claro, no passado Jesse no teve escrpulos em se materializar no banco de trs de carros em que por acaso eu estava namorando algum.
   Mas sei que Jesse nunca leria minha correspondncia, coisa que tenho apenas em pequena quantidade, principalmente na forma de cartas de minha melhor amiga, Gina, 
l do Brooklyn. E preciso admitir que me sinto culpada por ter lido a dele, mesmo que as cartas tenham mais de 150 anos e certamente no falem nada a meu respeito.
   O que me surpreendeu foi que Jesse (que, afinal de contas,  um fantasma e pode ir a qualquer lugar sem ser visto - a no ser por mim e pelo padre Dom, claro, 
e agora, acho, por Jack) no soubesse das cartas. Verdade, ele parecia no fazer idia de que elas tinham sido descobertas e que, h alguns instantes, eu estivera 
l embaixo, lendo-as.
   Mas, afinal de contas, First Blood  bem interessante. Acho.
   Por isso, em vez de dizer o que estava realmente errado comigo - voc sabe, qualquer coisa sobre o negcio de estou apaixonada por voc, s que onde isso vai 
dar? Porque voc nem est vivo e eu sou a nica que pode v-lo, e alm disso est claro que voc no sente a mesma coisa por mim. Sente? Bem, sente? -, eu simplesmente 
falei:
   - Bom, eu conheci outro mediador hoje, e acho que isso me deixou meio estranha.
   Jesse ficou muito interessado e disse que eu devia ligar para o padre Dom, dando a notcia. O que eu queria fazer, claro, era ligar para o padre Dom e contar 
sobre as cartas. Mas no podia fazer isso com Jesse no quarto, porque, claro, ele saberia que eu tinha xeretado suas coisas pessoais, o que, dado todo o seu sigilo 
sobro o modo como tinha morrido, duvidei de que ele apreciaria.
   Por isso falei:
   - Boa idia. - E pequei o telefone e liguei para o padre D.
   S que o padre D. no atendeu. E sim uma mulher. A princpio pirei, achando que o padre Dominic estava ficando com algum. Mas ento me lembrei de que ele mora 
numa residncia eclesistica, com um bocado de outras pessoas. Por isso perguntei:
   - O padre Dominic est? - esperando que fosse apenas uma novia ou algo assim, e que ela iria cham-lo sem fazer comentrio.
   Mas no era uma novia. Era a irm Ernestine, subdiretora da escola e que, claro, reconheceu minha voz.
   - Suzannah Simon - disse ela. - Por que est ligando para a casa do padre Dominic a esta hora? Voc sabe que horas so, mocinha? Quase dez! 
   - Eu sei. S que...
   - Alm disso, o padre Dominic no est - continuou a ela. - Foi para um retiro.
   - Retiro? - ecoei, visualizando o padre Dominic diante de uma fogueira de acampamento com um punhado de outros padres, cantando cantigas de escoteiro e possivelmente 
usando sandlias.
   Ento lembrei que o padre Dominic tinha dito que iria para um retiro com os diretores das escolas catlicas. At me deu o nmero de l, para o caso de haver alguma 
emergncia fantasmagrica e que eu precisasse fazer contato. Mas no achei que a descoberta de um novo mediador fosse emergncia... ainda que, sem dvida, o padre 
Dom acharia. Por isso apenas agradeci  irm Ernestine, pedi desculpas por t-la incomodado e desliguei.
   - O que  um retiro? - perguntou Jesse?
   Ento expliquei, mas o tempo todo estava ali sentada, pensando na vez em que ele tinha tocado em meu rosto no hospital e imaginando se teria sido apenas porque 
sentia pena de mim, se gostava mesmo de mim (mais do que como apenas uma amiga - sei que ele gosta de mim como amiga), ou sei l o qu.
   Porque o negcio  que, mesmo estando morto h 150 anos, Jesse  realmente um tremendo gato - muito mais at do que Paul Slater... ou talvez eu s pense isso 
porque estou apaixonada.
   Mas tudo bem. Quero dizer, ele realmente parece sado direto de um anncio. Tem at os dentes timos para um cara nascido antes de inventarem o flor, muito brancos 
e fortes. Puxa, se houvesse algum carinha na Academia da Misso que se parecesse ao menos de longe com Jesse, ir  escola no seria a gigantesca perda de tempo que 
.
    Mas de que adiante? Quero dizer, ele ser to bonito e coisa e tal? O cara  um fantasma. Sou a nica que consegue v-lo. No posso apresent-lo  minha me, 
nem lev-lo  festa de formatura, nem casar com ele, nem nada. No temos futuro juntos.
   Preciso me lembrar disso.
   Mas algumas vezes  muito, muito difcil. Em especial quando ele est sentado ali na minha frente, rindo do que eu digo e fazendo carinho naquele gato estpido 
e fedorento. Jesse foi a primeira pessoa que conheci quando me mudei para a Califrnia, e virou meu primeiro amigo de verdade aqui. Sempre esteve presente quando 
precisei, o que  mais do que posso dizer da maioria dos vivos que conheo. E se eu tivesse de escolher uma pessoa para levar para uma ilha deserta, nem iria pensar: 
claro que seria o Jesse.
   Era nisso que estava pensando quando expliquei sobre os retiros. Era o que estava pensando quando passei a explicar o que sabia sobra a Guerra do Vietn, e depois 
sobre a eventual queda do comunismo na ex-Unio Sovitica. Era o que estava pensando quando escovei os dentes e me preparei para dormir. Era o que estava quando 
disse boa noite a ele, me enfiei sob as cobertas e apaguei a luz. Era o que estava pensando quando o sono me dominou e abenoadamente embotou qualquer pensamento... 
ultimamente o tempo que passava dormindo era o nico em que conseguia no pensar em Jesse.
   Mas vou lhe contar: tudo voltou com fora total quando, apenas algumas horas depois, acordei com um susto e encontrei uma mo apertando minha boca.
   E, ah, sim, uma faca encostada na garganta.



    Captulo 4

   Sendo mediadora, no  estranho acordar de um modo, vamos dizer, um pouco menos do que gentil.
   Mas isso foi muito menos gentil do que o usual. Quero dizer, em geral, quando algum quer ajuda, se esfora ao mximo para no antagonizar a gente... coisa que 
uma faca na garganta tende a fazer.
   Mas assim que abri os olhos e vi quem era o indivduo segurando a faca, percebi provavelmente que ela no queria minha ajuda. No. Provavelmente queria me matar.
   No pergunte como eu soube. Sem dvida eram os velhos instintos de mediadora funcionando.
   Bem, e a faca era uma indicao bastante significativa.
   - Escute, garota idiota - sibilou Maria de Silva. Maria de Silva Diego, devo dizer, j que na ocasio da morte ela estava casada com Felix Diego, o traficante 
de escravos. Sei disso tudo pelo livro que Mestre pegou na biblioteca, chamado Meu Monterey, uma histria do condado de Salinas entre 1800 e 1850. Tinha tambm at 
um retrato de Maria.
   Motivo pelo qual, por acaso, eu soube quem estava tentando me matar.
   - Se voc no fizer seu pai e seu irmo pararem de cavar aquele buraco - sibilou ela. Bem, padrasto e meio-irmo, eu quis corrigir, s que no pude por causa 
da mo na minha boca. - Vou fazer voc lamentar ter nascido. Entendeu?
   Uma fala bastante durona para uma garota de saia-balo. Porque era isso que ela era. Uma garota.
   O que no era quando morreu. Quando morreu, por volta da virada do sculo - do sculo passado, no deste, claro - Maria de Silva Diego tinha uns setenta anos.
   Mas o fantasma em cima de mim parecia ter minha idade. O cabelo era preto, sem qualquer sugesto de grisalho, com uns cachos bem chiques de cada lado do rosto. 
Parecia ter muita coisa no departamento de joalheria. Havia um rubi grande e gordo pendurado numa corrente de ouro em volta do pescoo longo e esguio - muito Titanic 
e coisa e tal -, e tinha uns anis da pesada nos dedos. Um deles estava contando minha gengiva.
   Mas esse  o negcio dos fantasmas. O negcio que sempre mostram errado nos filmes. Quando voc morre, o esprito no assume a forma de seu corpo na hora em bateu 
as botas. Ningum v fantasmas andando por a com as entranhas se derramando nem segurando a cabea cortada, ou sei l o que. Se fosse assim, Jack poderia ter razo 
em ser um moleque to medroso.
   Mas a coisa no acontece desse modo. Em vez disso, os fantasmas aparecem na forma de quando o corpo estava vais vital, mais vivo.
   E acho que, para Maria de Silva, isso foi quando tinha uns 16 anos.
   Ei, era legal ter opo, sabe? Jesse no teve permisso de viver o bastante para poder escolher. Graas a ela.
   - Ah, no, de jeito nenhum - disse Maria, com a parte de trs dos anis raspando meus dentes de um modo que eu teria mesmo como descrever como desagradvel. - 
Nem pense nisso.
   No sei como ela soube, mas eu estivera pensando em dar uma joelhada em sua coluna vertebral. Mas a lmina apertada contra minha jugular me dissuadiu rapidamente.
   - Voc vai fazer seu pai parar de cavar l trs, e vai destruir aquelas cartas, entendeu, garotinha? - sibilou Maria. - E no vai dizer uma palavra sobre elas, 
nem sobre mim, a Hector. Estou sendo clara?
   O que eu poderia fazer? Ela estava com uma faca na minha garganta. E no havia nada em seus modos que lembrassem a Maria de Silva que havia escrito aquelas cartas 
idiotas. A garota no estava arengando sobre o novo toucado, se  que voc sacou. No tive qualquer dvida de que ela no somente sabia usar a faca, mas que pretendia 
fazer isso, se fosse provocada.
   Assenti para mostrar que, nas circunstncias, estava perfeitamente disposta a seguir suas ordens.
   - Bom - disse Maria de Silva. E ento afastou os dedos da minha boca. Senti gosto de sangue.
   Ela havia montado em cima de mim - o que explicou todas aquelas anguas de renda na minha cara, coando meu nariz - e agora me olhava, com feies bonitas retorcidas 
numa expresso de nojo.
   - E disseram para eu ter cuidado - falou com um riso de desprezo. - Que voc era cheia de truques. Mas no , ?  apenas uma garota. Uma garotinha estpida.
   Em seguida inclinou a cabea para trs e gargalhou.
   E ento sumiu. Assim.
   Logo senti que podia me mexer outra vez, sa da cama e fui para o banheiro, onde acendi a luz e olhei meu reflexo no espelho em cima da pia.
   No. No havia sido um pesadelo. Havia sangue entre meus dentes, onde o anel de Maria de Silva tinha cortado.
   Lavei at que todo o sangue tivesse sado, depois apaguei a luz do banheiro e voltei para o quarto. Acho que estava meio atordoada. No podia registrar direito 
o que havia acontecido. Maria de Silva. Maria de Silva, noiva de Jesse - acho que, nas circunstncias,  seguro dizer ex-noiva -, tinha aparecido no meu quarto e 
me ameaado. Eu. Euzinha, coitada.
   Era muita coisa a processar, em especial considerando que eram... ah, no sei, quatro da madrugada?
   E por acaso eu ainda recebia outro choque noturno. Nem bem sa do banheiro e notei que havia algum encostado num dos suportes do dossel da minha cama.
   S que no era apenas algum. Era Jesse. E, quando me viu, ele se empertigou.
   - Voc est bem? - perguntou preocupado. - Achei... Suzannah, havia algum aqui, agora?
   Ah, quer dizer, sua ex-namorada com uma faca?
   Foi o que eu pensei. O que falei foi:
   - No.
   Certo. Nem comece. O motivo para eu no contar no teve nada a ver com a ameaa de Maria. 
   No, era a outra coisa que Maria tinha dito. Sobre falar com Andy para parar de cavar no quintal dos fundos. Porque isso s podia significar uma coisa: havia 
algo enterrado no quintal dos fundos e ela no queria que algum descobrisse.
   E eu tinha a sensao de que sabia o que era esse algo.
   Tambm tinha a sensao de que o algo era o motivo para Jesse estar nas colinas de Carmel h tanto tempo.
   Deveria ter contado tudo isso a ele, certo? Puxa, qual : Jesse tinha o direito de saber. Era algo muito diretamente ligado a ele.
   Mas tambm era algo que, eu tinha certeza, iria lev-lo embora para sempre.
   , sei: se eu realmente o amasse, estaria disposta a libert-lo, como naquele poema que sempre imprimem em cartazes com gaivotas voando ao vento: Se voc ama 
algum, liberte-o. Se tiver de ser, ele voltar para voc.
   Deixe-me dizer uma coisa. Esse poema  idiota, certo? E no se aplica de jeito nenhum a esta situao. Porque assim que Jesse ficar livre, nunca mais voltar para 
mim. Porque no poder. Porque vai estar no cu, em outra vida, ou sei l onde.
   E a terei de virar de freira.
   Meu Deus. Meu Deus,  tudo uma porcaria.
   Arrastei-me de volta para a cama.
    - Olha, Jesse - falei puxando as cobertas at o queixo. Estava de camiseta e short, mas, voc sabe, sem suti nem nada. No que ele pudesse perceber, estando 
no escuro e coisa e tal, mas nunca se sabe. - Estou mesmo cansada.
   - Ah. Claro. Mas... tem certeza de que no havia ningum aqui? Porque posso jurar...
   Esperei que ele terminasse. Como  que a frase acabaria? Posso jurar que ouvi a voz melodiosa da mulher que amei? Posso jurar que senti o perfume dela - que, 
por sinal, era de flor de laranjeira?
   Mas no falou essas coisas. Em vez disso, parecendo realmente confuso, disse:
   - Desculpe.
   E desapareceu, exatamente como a ex-namorada tinha feito. De fato  de pensar que eles poderiam ter se trombado, no ?, l no plano espiritual, com todo esse 
negcio de se materializar e se desmaterializar.
   Mas aparentemente no.
   No vou mentir e dizer que voltei a cair logo no sono. No ca. Estava mesmo cansada, mas minha mente ficava repassando o que Maria tinha dito, repetidamente. 
Com qu, afinal, ela estava to abalada e cheia de preocupao? Aquelas cartas no tinham absolutamente nada incriminador. Quero dizer, se foi verdade que ela mandou 
apagar Jesse para casar com o namorado Diego, em vez dele.
   E, se aquelas cartas eram to importantes, por que ela no as destruiu direito h tantos anos? Por que foram enterradas no quintal dos fundos numa lata de charutos?
   Mas no era isso que estava realmente me incomodando. O que realmente me incomodava era que ela queria que eu fizesse Andy parar de cavar. Porque isso s podia 
significar uma coisa.
   Havia algo ainda mais incriminador ali.
   Tipo um corpo.
   E eu nem queria pensar no corpo de quem seria.
   E quando acordei de novo, algumas horas mais tarde, depois de finalmente conseguir cochilar, ainda no queria pensar nisso.
   Mas uma coisa eu sabia: no ia pedir para Andy parar de cavar (como se ele ao menos fosse ouvir, caso eu pedisse), nem ia destruir aquelas cartas. Nem pirando.
   Na verdade tomei posse delas, s para garantir, dizendo a Andy que ia entregar pessoalmente  sociedade histrica. Deduzi que ficariam em segurana l, para o 
caso de a velha Maria Diego aprontar alguma coisa. Andy ficou surpreso, mas no o bastante para me perguntar casualmente qual era a minha. Estava ocupado demais 
gritando com Dunga por ter cavado no lugar errado.
   Quando cheguei ao Pebble Beach Hotel and Golf Resort naquela manh, fui recebida por Caitlin com um tom acusador:
   - Bem, no sei o que voc fez com Jack Slater, mas a famlia dele pediu que tomasse conta do garoto pelo resto da estada... at o domingo.
   No fiquei surpresa. Nem me importei particularmente. O fator Paul era perturbador, claro, mas agora que eu conhecia o motivo para o comportamento estranho de 
Jack, passei a gostar genuinamente do moleque.
   E, como ficou claro no momento em que pus os ps na sute da famlia, ele estava louco por mim. Nada de ficar deitado no cho diante da TV. Jack estava de calo 
de banho e pronto para sair.
   - Pode me ensinar nado borboleta hoje, Suze? - perguntou ele. - Sempre quis nadar borboleta.
   - Suzan - disse a me dele num aparte sussurado, logo antes de sair correndo para seu compromisso (Paul e o pai no estavam por perto, para meu alvio, porque 
tinham de jogar golfe s sete horas). - Mal posso agradecer o que voc fez pelo Jack. No sei o que voc falou ontem, mas  que como se ele fosse outra criana. 
Nunca o vi to feliz. Sabe, ele realmente  uma pessoa notavelmente sensvel. E tem uma imaginao! Sempre acha que est vendo... bem, gente morta. Ele falou disso 
com voc?
   Respondi casualmente que sim.
   - Bem, ns ficamos quase loucos. Devemos ter consultado uns trinta mdicos diferentes, e nenhum, nenhum, conseguiu fazer contato com ele. Ento voc aparece e... 
- Nancy Slater olhou para mim com os olhos azuis cuidadosamente maquiados. - Bem, no sei como poderamos agradecer, Suzan.
   "Poderia comear me chamando pelo nome certo", pensei. Mas na verdade no me importava. S disse:
   - Sem problema, Sra. Slater - em seguida fui pegar Jack e o levei para a piscina.
   Jack era um garoto diferente. No havia como negar. At Soneca, acordado do cochilo semipermanente pelo espadanar feliz do meu pupilo, perguntou se ele era o 
mesmo garoto que tinha visto comigo na manh anterior, e, quando eu disse que sim, chegou a parecer incrdulo por um ou dois segundos antes de voltar a dormir. As 
coisas que j haviam apavorado Jack - basicamente, tudo - no pareciam mais incomod-lo nem um pouco.
   E assim, quando, depois de hambrgueres na lanchonete da piscina, sugeri que pegssemos o nibus do hotel e fssemos  cidade, ele nem protestou. At comentou 
que o plano "parecia divertido".
   Divertido. Vindo de Jack. Verdade, talvez a mediao no seja meu verdadeiro dom. Talvez eu devesse ser professora, psicloga infantil, ou algo do tipo. Srio.
   Mas Jack no ficou particularmente empolgado quando, assim que chegamos  cidade, fomos ao prdio onde fica a Sociedade Histrica de Carmel. Ele queria ir  praia, 
mas quando falei que era para ajudar a um fantasma e que iramos  praia depois, ele aceitou bem.
   Na verdade no sou do tipo de garota que freqenta a sociedade histrica, mas at tenho de admitir que era maneiro olhar para todas aquelas fotos antigas nas 
paredes, fotos de Carmel e do contado de Salina h cem anos, antes que os supermercados e shoppings fossem inaugurados, quando tudo eram campos pintalgados de ciprestes, 
como naquele livro que fizeram a gente ler na oitava srie, O pnei vermelho. Havia umas coisas bem legais - na verdade no muito da poca de Jesse, mas muita coisa 
posterior, tipo depois da Guerra Civil. Jack e eu estvamos admirando algo chamado visor estereoscpico, que era o que as pessoas usavam para se divertir antes de 
existir o cinema, quando um careca mal-arrumado saiu de sua sala e nos olhou atravs de culos com lentes grossas como fundos de garrafa de Coca, e disse:
   - Sim, vocs queriam falar algo?
   Respondi que queramos ver algum encarregado. O sujeito disse que era ele, e se apresentou com Dr. Clive Clemmings, Ph.D. Por isso falei ao Dr. Clive Clemmings, 
Ph.D., quem eu era e onde morava, e peguei a lata de charutos de minha mochila JanSport (Kate Spade no combina com short cqui pregueado) e mostrei as cartas...
   Ele pirou de vez.
   Srio. Ele pirou de vez. Ficou to empolgado que disse  velha da recepo para no repassar os telefonemas (ela ergueu os olhos, pasma, do romance que estava 
lendo; estava claro que o Dr. Clive Clemmings, Ph.D., no devia receber muitos telefonemas) e nos levou para a sua sala privativa...
   Onde quase tive um ataque cardaco. Porque ali, sobre a mesa de Clive Clemmings, estava o retrato de Maria de Silva, o que eu tinha visto no livro que Mestre 
havia apanhado na biblioteca.
   Percebi que o pintor tinha feito um trabalho extraordinariamente bom. Havia acertado na mosca, at o cabelo artisticamente cacheado e o colar de ouro rubi no 
pescoo elegante, para no falar da expresso presunosa...
    -  ela! - exclamei de modo totalmente involuntrio, cutucando o quadro com o dedo.
    Jack me olhou como se eu tivesse enlouquecido - o que acho que era momentaneamente verdade -, Clive Clemmings s espiou o retrato por cima do ombro e disse:
   - Sim, Maria Diego. A jia da coroa de nossa coleo, esse quadro. Resgatei-o num bazar de garagem de um dos netos dela, d para imaginar? Azar dele, coitado. 
Uma desgraa, pensando bem. Mas nenhum dos Diego deu em grande coisa. Sabe o que dizem sobre sangue ruim. E Feliz Diego...
   O Dr. Clive tinha aberto a lata de charutos e, usando uma coisa especial parecida com uma pina, desdobrou a primeira carta.
   - Minha nossa - ofegou ele, olhando-a.
   -  - falei. -  dela. - Assenti para o quadro. - Maria de Silva. Um mao de cartas que ela escreveu para Jesse... quero dizer, Hector de Silva, seu primo, com 
quem ela deveria se casar, s que ele...
   - Desapareceu.
   Clive Clemmings me encarou. Se eu podia adivinhas direito, deveria ter trinta e poucos anos - apesar da ampla careca no topo da cabea -, e mesmo no sendo bonito 
de jeito nenhum, nesse momento no parecia to absolutamente repulsivo como antes. Um olhar de perplexidade total, que certamente no ajuda a muitas pessoas, fez 
maravilhas por ele.
   - Meu Deus - disse o sujeito. - Onde voc achou isso?
   Ento contei, e ele ficou ainda mais empolgado, e mandou esperar em sua sala enquanto ia fazer uma coisa.
   Por isso esperamos. Jack foi muito bom. S disse por duas vezes:
   - Quando  que a gente vai  praia?
   Quando o Dr. Clive Clemmings, Ph.D., voltou, estava segurando uma bandeja e um punhado de luvas de ltex, que disse que deveramos calar se fssemos tocar em 
alguma coisa. Nesse ponto Jack estava bem entediado, por isso optou por voltar  sala principal e brincar mais um pouco com o visor estereoscpico. S eu calcei 
as luvas.
   Mas fiquei satisfeita com isso. Porque o que Clive Clemmings me deixou tocar quando as calcei era tudo que a sociedade histrica havia colecionado e que tinha 
alguma coisa a ver com Maria de Silva.
   O que, deixe-me dizer, era um bocado.
   Mas as coisas que mais me interessaram na coleo foram uma pintura minscula - uma miniatura, como Clive Clemmings disse que era chamada - de Jesse (ou Hector 
de Silva, como o Dr.Clive o chamava; aparentemente s a famlia mais prxima de Jesse o chamava de Jesse... a famlia e eu claro) e cinco cartas em condies muito 
melhores do que as da lata de charutos.
   A miniatura era perfeita, como uma pequena fotografia. Naquela poca as pessoas realmente sabiam pintar, acho. Era totalmente Jesse. A imagem o capturava perfeitamente. 
Tinha aquela expresso de quando lhe conto sobre alguma conquista fantstica que fiz num shopping - voc sabe, que consegui uma bolsa Prada com cinqenta por cento 
de desconto, ou algo assim. Como se no pudesse se importar menos.
   Na pintura, que era s da cabea e dos ombros de Jesse, ele estava usando algo que Clive Clemmings chamou de gravata  Lavallire, que supostamente todos os caras 
usavam na poca, um negcio grande, largo e cheio de dobras, enrolado algumas vezes no pescoo. Parecia ridculo em Dunga, Soneca ou mesmo em Clive Clemmings, apesar 
de seu Ph.D.
   Mas em Jesse, claro, ficava fantstico.
   Bem, o que no ficaria?
   De certa forma, as cartas eram quase melhores do que a pintura. Porque todas eram endereadas a Maria de Silva... e assinadas por algum chamado Hector.
   Parti para cima delas, e no posso dizer que senti a menor culpa. Eram muito mais interessantes do que as cartas de Maria - se bem que, como elas, no eram nem 
um pouco romnticas. No: Jesse apenas escrevia - de modo muito espirituoso, devo acrescentar - sobre os acontecimentos da fazenda de sua famlia e as coisas engraadas 
que suas irms faziam. (Por acaso ele tinha cinco. Quero dizer, irms. Todas mais novas, indo de seis a dezesseis anos na poca em Jesse morreu. Mas ser que ele 
j havia falado disso comigo? Ah, por favor). Tambm havia coisas sobre poltica local e como era difcil manter bons empregados na fazenda por causa da corrida 
do ouro que todos eles partiam para reivindicar posses.
   O negcio  que, pelo modo como Jesse escrevia, quase dava para ouvi-lo falando aquilo. Era tudo muito amigvel, tipo bate-papo e maneiro. Muito melhor do que 
as cartas presunosas de Maria.
   E, alm disso, nada estava escrito errado.
   Enquanto eu lia as cartas de Jesse, o Dr. Clive arengava dizendo que agora que tinha as cartas de Maria a Hector iria coloc-las na exposio que pretendia fazer 
para a temporada turstica de outono, uma exposio sobre todo o cl Silva e sua importncia para o crescimento do condado de Salinas no decorrer dos anos.
   - Se ao menos restasse algum deles vivo - falou, pensativo. - Quero dizer, algum Silva. Seria timo t-los como oradores convidados.
   Isso atraiu minha ateno.
   - Deve ter restado algum. Maria e o tal de Diego no tiveram 37 filhos, ou algo assim?
   Clive Clemmings ficou srio. Como historiador - e especialmente Ph.D. -, no parecia apreciar qualquer tipo de exagero.
   - Tiveram 11 filhos - corrigiu. - E eles no so estritamente Silva, e sim Diego. Infelizmente a famlia Silva tinha muitas filhas. Acho que Hector de Silva foi 
o ltimo homem da linhagem. E, claro, nunca saberemos se ele teve algum filho do sexo masculino. Se teve, certamente no foi no norte da Califrnia.
   - Claro que no teve - falei, talvez mais na defensiva do que deveria. Mas estava incomodada. Fora o bvio machismo daquela coisa de ltimo homem da linhagem, 
fiquei irritada com a presuno do sujeito, de que Jesse poderia estar procriando em algum local quando, de fato, fora assassinado de modo maligno. - Ele foi morto 
na minha casa!
   Clive Clemmings me olhou com as sobrancelhas erguidas. S ento percebi o que tinha dito.
   - Hector de Silva - disse o Dr. Clive, parecendo um bocado a irm Ernestine quando fica irritada com bagunceiros na aula de religio - desapareceu pouco antes 
de se casar com a prima Maria, e jamais se teve notcias dele.
   Eu no podia ficar ali sentada e dizer: , mas seu fantasma mora no meu quarto, e ele me contou...
   Em vez disso, falei:
   - Eu achava que a... ... percepo era que Maria mandou o namorado, o tal de Diego, matar Hector, para no ter de se casar com ele.
   Clive Clemmings pareceu chateado.
   - Isso  apenas uma teoria apresentada por meu av, o coronel Harold Clemmings, que escreveu...
   - Meu Monterey - terminei para ele. - , foi o que quis dizer. O cara  seu av?
   - Sim - respondeu o Dr. Clemmings, mas no pareceu feliz demais com isso. - Ele faleceu h muitos anos. E no posso dizer que concordo com sua teoria, srta... 
... Ackerman. - Eu tinha doado as cartas de Maria em nome do meu padrasto, por isso o Dr. Clive, machista como era, presumiu que esse tambm fosse o meu nome. - 
Nem posso dizer que o livro tenha vendido bem. Meu av era extremamente interessado na histria da comunidade, mas no era um homem formado, como eu. No possua 
nem mesmo um mestrado, quando mais Ph.D. Minha crena, para no mencionar a da maioria dos historiadores locais, sempre foi que o jovem sr. Silva, como dizemos comumente, 
"amarelou" - o Dr. Clive fez pequenas aspas com os dedos - alguns dias antes do casamento e, incapaz de encarar o embarao da famlia por abandonar a jovem daquele 
modo, partiu para reivindicar alguma posse, talvez perto de So Francisco...
    incrvel, mas por um momento me visualizei cravando aquela pina que Clive Clemmings me obrigou a usar para virar as pginas das cartas de Jesse direto nos 
olhos dele. Isto , se eu conseguisse fazer com que ela passasse pelas lentes daqueles culos imbecis.
   Em vez disso me controlei e disse, com toda a dignidade que pude juntar enquanto estava ali sentada vestida de short cqui pregueado:
   - E voc realmente acredita, bem no fundo do corao, Clive, que a pessoa que escreveu estas cartas faria algo assim? Que iria embora sem dizer uma palavra  
famlia? s irmzinhas, que ele claramente amava e sobre quem escreveu com tanto afeto? Realmente acha que o motivo para essas cartas terem aparecido no meu quintal 
 porque ele as enterrou l? Ou acha que  fora de possibilidade que o motivo de elas terem aparecido l seja porque ele est enterrado l em algum lugar, e que 
se meu padrasto cavar bem fundo pode acabar encontrando-o?
   Minha voz tinha subido de tom, esganiada. Acho que eu estava ficando meio histrica com aquela coisa toda. Pois , pode me processar.
   - Ser que isso faria voc ver que seu av est cem por cento correto? - guinchei. - Quando meu padrasto achar o cadver podre de Hector de Silva?
   Clive Clemmings ficou mais perplexo do que antes.
   - Minha cara srta. Ackerman! - exclamou ele.
   Acho que falou porque tinha notado, no mesmssimo momento que eu, que eu estava chorando.
   O que era bem estranho, porque no sou chorona. Quero dizer,  claro, eu choro quando bato a cabea num armrio da cozinha ou vejo um daqueles comaerciais melosos 
da Kodak ou coisa assim. Mas, voc sabe, no caio no choro por qualquer bobagem.
   Mas ali estava eu, sentada na sala do Dr. Clive Clemmings, Ph.D., abrindo o maior berreiro. Muito bem, Suze. Isso  que  profissional. Um belo modo de mostrar 
a Jack como mediar.
   - Bem - falei em voz trmula enquanto tirava as luvas de ltex e me levantava. - Deixe-me garantir, Clive, que voc est muito, muito errado. Jesse... quero dizer, 
Hector, jamais faria algo assim. Isso pode ser o que ela quer que voc acredite. - Assenti para o quadro na parede acima, cuja viso agora estava comeando a odiar 
com uma espcie de paixo. Jesse... quero dizer, Hector, no ... no era assim. - Se ele "amarelasse", como voc falou - fiz as mesmas aspas estpidas no ar -. 
Teria cancelado a coisa. E, sim, os pais dele poderiam ficar embaraados, mas teriam perdoado, porque claramente o amavam tanto quanto ele os amava, e...
   Mas no consegui falar mais, de tanto que estava chorando. Era de enlouquecer. No dava para acreditar. Chorando. Chorando na frente desse palhao.
   Por isso me virei e sa intempestivamente da sala.
   No foi uma sada muito digna, acho, considerando que a ltima coisa que o Dr. Clive Clemmings, Ph.d, viu de mim foi minha bunda, que devia parecer enorme naquele 
short estpido.
   Mas consegui passar meu argumento.
   Acho.
   Claro, no fim, acabou no importando. Mas na hora eu no tinha como saber disso.
   Nem, infelizmente, o pobre Dr. Clemmings, Ph.D.



    Captulo 5

   Meus Deus, odeio chorar.  to humilhante! E juro que quase nunca fao isso.
   Mas acho que a tenso de ser agredida no meio da noite pela ex-namorada do sujeito que eu amo, com uma faca na mo, finalmente me pegou no contrap. Praticamente 
no parei de chorar at que Jack, desesperado, me comprou um sorvete no Jimmy's Quick Mart a caminho da praia.
   Isso e uma barra de chocolate logo fizeram com que eu me sentisse eu mesma outra vez, e no demorou muito para Jack e eu estarmos cabriolando na gua, curtindo 
com a cara dos turistas e apostando em que surfista cairia da prancha primeiro. Foi to divertido que s quando o sol comeou a se pr percebi que precisava levar 
Jack de volta ao hotel.
   No que algum tivesse sentido nossa falta, descobrimos ao chegar. Quando larguei Jack na sute da famlia, sua me esticou a cabea no terrao, onde estava tomando 
coquetis com o Dr. Rick, e disse:
   - Ah,  voc, Jack? V correndo trocar a roupa para o jantar, est bem? Vamos nos encontrar com os Robertson. Obrigada, Suzan, vejo voc amanh.
   Acenei e fui embora, aliviada por ter conseguido evitar Paul. Depois de minha tarde inesperadamente traumtica, no achava que conseguiria passar por um confronto 
com o Sr. Uniforme de tnis.
   Mas meu alvio foi prematuro. Quando estava sentada no banco da frente do Land Rover, esperando Soneca se desembaraar de Caitlin, que parecia ter algo terrivelmente 
urgente para discutir com ele justo quando estvamos indo embora, algum bateu na minha janela fechada. Olhei, e ali estava Paul, usando gravata, imagina s, e um 
palet esporte azul-escuro.
   Apertei o boto que abria a janela.
   - Ah - falei. - Oi.
   - Oi. - Ele estava dando um sorriso agradvel. Os ltimos raios de sol captaram o dourado em seus cachos castanhos. Tive de admitir que ele realmente era bonito.
Kelly Prescott o teria comido com uma colher. - Acho que voc j tem planos para esta noite - disse ele.
   No tinha, claro, mas respondi depressa:
   - Tenho.
   - Foi o que imaginei. - O sorriso dele continuou agradvel. - Que tal amanh  noite?
   Olha, sei que sou esquisita, certo? No precisa dizer. Ali estava eu, e um cara totalmente gato, totalmente maneiro me convidando para sair, e eu s podia pensar 
num sujeito que, vamos encarar os fatos, est morto. Certo? Jesse est morto.  idiotice - idiotice, idiotice, idiotice - da minha parte recusar um encontro com 
um cara vivo quando o nico outro que tenho na vida est morto.
   Mas foi exatamente isso que fiz. Falei:
   - Ah, desculpe, Paul. Tenho planos para amanh  noite, tambm.
   Nem me importei se parecia estar mentindo. Para ver como sou pirada. Simplesmente no consegui demonstrar o mnimo interesse.
   Mas acho que foi um erro bem grande. Acho que o Sr. Paul Slater no est acostumado a ver garotas recusando seus convites para jantar, ou qualquer outra coisa. 
Porque disse, no mais com sorriso agradvel, nem com sorriso nenhum:
   - Bem, que pena.  mesmo uma pena, considerando o fato de que agora terei de contar  sua supervisora que voc levou meu irmozinho para fora do hotel hoje, sem 
a permisso dos meus pais.
   S o encarei pela janela aberta. A principio nem pude deduzir do que estava falando. Depois me lembrei do nibus, da sociedade histrica e da praia.
   Quase explodi numa gargalhada. Srio. Puxa, se Paul Slater achava que me arranjar encrenca por ter tirado um garoto sem a permisso dos pais era a pior coisa 
que poderia acontecer - que ao menos havia me acontecido hoje -, estava muito, muito fora da real. Imagine s, uma mulher que est morta h quase cem anos encostou 
uma faca na minha garganta no meu prprio quarto, h menos de 24 horas. Ser que ele realmente acha que vou me importar se Caitlin me fizer uma repreenso?
   - V em frente - falei. - E quando contar a ela, no deixe de mencionar que, pela primeira vez na vida, seu irmo se divertiu.
   Apertei o boto para fechar a janela - puxa, verdade, qual  o problema desse cara? - mas Paul enfiou a mo e apertou o vidro com os dedos. Soltei o boto. Quero 
dizer, eu s queria que ele fosse embora, no que fosse mutilado pelo resto da vida.
   -  - disse Paul. - Eu estava pensando em lhe perguntar sobre isso. Jack disse que voc contou que ele  mdium.
   - Mediador - corrigi antes que ele pudesse me impedir. E eu tinha avisado ao Jack para guardar segredo! Quando  que esse garoto ia aprender que sair por a dizendo 
s pessoas que pode falas com fantasmas no iro fazer com que os outros gostassem dele?
   - Tanto faz. Imagino que voc deve achar bem divertido curtir com a cara de algum que tem problema mental.
   No pude acreditar. Realmente. Era como uma coisa de um seriado de TV. Mas no da Warner, nem mesmo da Fox. Era totalmente novelo mexicano.
   - No acho que seu irmo tenha problema mental.
   - Ah, no? - Paul parecia o dono da verdade. - O garoto diz a voc que v gente morta, e voc acha que ele est com a mo cheia de trunfos?
   Balancei a cabea.
    - Jack pode ser capaz de ver gente morta, Paul. Voc no sabe. Quero dizer, voc no pode provar que ele no v gente morta.
   Ah, brilhante argumento, Suze. Onde, diabos, estava Soneca? Anda logo. Me tira daqui.
   - Suze - disse Paul, me olhando com ateno. - Por favor. Gente morta? Voc realmente acredita nisso? Realmente acredita que meu irmo consegue ver... que consegue 
falar com gente morta?
   - J ouvi falar de coisas mais estranhas. - Olhei para Soneca. Caitlin estava sorrindo para ele e balanando sua loura juba tipo Jennifer Aniston para tudo que 
 canto. Ah, meu Deus, chega de paquera! Convide o cara para sair e acabe com isso, para que eu possa...
   - , bem, voc no deveria estar encorajando-o. - disse Paul. -  a pior coisa que poderia fazer, segundo os mdicos.
   - ? - Agora eu estava ficando meio p da vida. Quero dizer, o que Paul Slater sabia? S porque o pai  cirurgio cerebral, ou sei l o qu, e pode pagar uma 
semana no Pebble Beach Hotel and Golf Resort, isso no faz com que ele esteja certo o tempo todo. - Bem, Jack me parece timo. Talvez voc at aprenda uma ou duas 
coisas com ele, Paul. Pelo menos ele tem a mente aberta.
   Paul s balanou a cabea, incrdulo.
   - O que voc est dizendo, Suze? Que voc acredita em fantasmas?
   Finalmente, finalmente, Soneca se despediu de Caitlin e se virou para o carro.
   - . Acredito. E voc, Paul?
   Paul s piscou para mim.
   - Eu o qu?
   - Acredita?
   O lbio superior enrolado foi toda a resposta de que eu precisava. No me importando se iria decepar sua mo, apertei o boto da janela. Paul tirou os dedos no 
ltimo instante. Acho que pensava que eu no era do tipo decepadora de dedos.
   E estava muito errado.
   Por que os garotos so to difceis? Quero dizer, puxa! Quando no esto bebendo direto da caixa nem deixando a tampa da privada levantada, ficam todos ofendidos 
porque a gente no quer sair com eles e ameaam dedurar a gente para a supervisora. Ser que no ocorreu a nenhum deles que esse no  o caminho para o nosso corao?
   E o problema  que eles simplesmente vo continuar fazendo isso enquanto garotas imbecis como Kelly Prescott continuarem concordando em sair com eles, apesar 
dos defeitos.
   Fiquei mal-humorada por todo o caminho para casa. At Soneca notou.
   - O que  que voc tem? - perguntou ele.
   - O idiota do Paul Slater est furioso porque no quero sair com ele - falei, ainda que geralmente eu siga a poltica de no compartilhar meus problemas pessoais 
com nenhum dos meus meios-irmos, a no ser, ocasionalmente, Mestre, e s porque o QI dele  muito mais alto que o meu. - Paul disse que vai dizer a Caitlin que 
eu sa do hotel com o irmozinho dele sem a permisso dos pais, coisa que eu fiz, mas s para lev-lo  praia.
   E  Sociedade Histrica de Carmel. Mas no mencionei isso.
   - No brinca? Isso  jogo sujo. Bem, no se preocupe. Eu resolvo as coisas com Caitlin, se voc quiser.
   Fiquei chocada. S tinha falado disso porque estava me sentindo de baixo-astral. No esperava que Soneca ajudasse, nem nada.
   - Verdade? Voc faria isso?
   - Claro - Soneca deu os ombros. - Vou sair com ela esta noite, depois de acabar as entregas. - Soneca trabalha de salva-vidas durante o dia e entrega pizza  
noite. Originalmente estava economizando para comprar um Camaro. Agora est economizando para ter seu prprio apartamento, j que no h alojamentos na faculdade 
comunitria que ele cursa, e Andy disse que no vo pagar aluguel para Soneca a no ser que ele melhore as notas.
   No pude acreditar.
   - Obrigada. - falei perplexa.
   - Afinal, o que h de errado com esse tal de Slater? Achei que ele fazia seu tipo. Voc sabe, inteligente e coisa e tal.
   - No h nada de errado com ele - murmurei remexendo no cinto de segurana. - S que... meio que gosto de outro.
   Soneca levantou as plpebras por trs do Ray-Ban.
   - Ah? Algum que eu conheo?
   - No - respondi secamente.
   - No sei, Suze. Experimente. Com o trabalho na pizzaria e a faculdade, eu conheo quase todo mundo.
   - Voc definitivamente no conhece o cara.
   Soneca franziu a testa.
   - Por qu? Ele  de alguma gangue?
   Revirei os olhos. Desde que nos conhecemos, Soneca est convencido de que eu fao parte de alguma gangue. Srio. Como se os membros de gangues usassem maquiagem 
Stila. Pois .
   - Ele mora no vale? Suze, vou dizer agora mesmo, se eu descobrir que voc est saindo com um cara de uma gangue do vale...
   - Meu Deus! - gritei. - Quer parar? Ele no  de nenhuma gangue, nem eu! E no mora no vale. Voc no conhece o cara, certo? S esquea que a gente conversou 
isso.
   Est vendo? Est vendo o que eu quero dizer? Est vendo por que as coisas nunca, nunca vo dar certo comigo e Jesse? No posso pux-lo e dizer: a est, esse 
 o cara de quem eu gosto, e no  de nenhum gangue, e no mora no vale.
   S preciso aprender a ficar de boca fechada, como o Jack.
   Quando chegamos em casa fomos informados de que o jantar no tava pronto. Isso porque Andy estava enfiado at a cintura no buraco que ele e Dunga tinham feito 
no quintal dos fundos. Fui olhar um pouco, roendo a unha do polegar. Era arrepiante espiar aquele buraco. Quase to arrepiante quanto a perspectiva de ir para a 
cama dali a alguma horas, sabendo que Maria provavelmente ia aparecer de novo.
   E que, vendo como eu no tinha feito nada que ela havia pedido, desta vez a garota cortaria muito mais do que apenas a gengiva.
   Foi mais ou menos ento que o telefone tocou. Era minha amiga Cee Cee, querendo saber se eu toparia ir com ela e Adam McTavish ao Coffee Clutch tomar ice tea
e falar mal de todo mundo. Falei que sim imediatamente, porque no tinha notcias deles h um tempo. Cee Cee estava fazendo estgio de frias no Pinho de Carmel
(o nome do jornal local, d para acreditar?) e Adam tinha passado a maior parte do vero na casa dos avs em Martha's Vineyard. No minuto em que escutei a voz dela 
percebi como sentia saudade de Cee Cee, e como seria timo contar sobre o maligno Paul Slater e seus truques.
   Mas ento, claro, percebi que teria de contar a parte sobre o irmozinho de Paul, e que ele realmente pode falar com os mortos, caso contrario a histria no
teria muito pique, o fato  que Cee Cee no  do tipo que acredita em fantasmas, e por sinal nem em nada que ela no possa ver com os dois olhos, o que torna problemtico 
o fato de estudar numa escola catlica, com a irm Ernestine insistindo o tempo todo na f e no Esprito Santo.
   Mas tanto faz. Era melhor do que ficar em casa, olhando um buraco gigantesco.
   Corri escada acima, tirei o uniforme e vesti um dos vestidos J. Crew, lindinhos, que comprei e no tive chance de usar porque fiquei o vero todo com o medonho 
short cqui. Nenhum sinal de Jesse, mas tudo bem, j que eu no saberia mesmo o que lhe dizer. Sentia-me totalmente culpada por ter lido suas cartas, porque o fato 
de saber sobre suas irms e os problemas na fazenda fez com eu me sentisse mais perto dele.
   S que era uma proximidade falsa porque ele no sabia que eu sabia. E, se quisesse que eu soubesse, voc no acha que ele contaria? Mas Jesse no gosta de falar 
sobre si mesmo. Em vez disso, sempre quer falar coisas como a ascenso do Terceiro Reich e como  que ns, como pas, pudemos ficar parados e deixar milhes de judeus 
morrerem sufocados por gs antes de fazermos alguma coisa a respeito.
   Voc sabe. Coisas assim.
   Na verdade, algumas das coisas que Jesse quer discutir so muito difceis de explicar. Eu preferiria falar das irms dele. Por exemplo, ser que ele achava difcil 
morar com cinco garotas quanto eu acho difcil morar com trs garotos? Imagino que provavelmente no, dada a situao invertida com relao ao tempo da privada. 
Ser que havia privadas na poca? Ou ser que eles simplesmente iam numa daquelas horrendas latrinas do lado de fora, como em Uma pequena casa na campina?
   Meu Deus, no  de espantar que Maria estivesse com tamanho mau humor.
   Bem, isso e o negcio de estar morta.
   De qualquer modo, mame e Andy me deixaram sair para comer com os amigos porque no tinham nada para jantar mesmo. E, afinal, as refeies em famlia no eram 
a mesma coisa sem Mestre. Fiquei surpresa ao descobrir que sentia falta dele e mal podia esperar sua volta. Ele era o nico de meus meios-irmos que no me enfurecia
regularmente.
   Mesmo no podendo contar a Cee Cee sobre Paul, me diverti um bocado. Foi bom v-la, e Adam, que, de todos os garotos que eu conheo,  o que menos age como um,
mesmo no sendo gay nem nada, e realmente fica furioso se voc sugerir isso. E Cee Cee tambm , que est apaixonada pelo Adam desde... tipo, sempre. Eu sentia grandes
esperanas de que Adam sentisse o mesmo por ela, mas dava para ver que as coisas tinham meio que esfriado - pelo menos da parte dele - desde o incio das frias.
   Assim que ele foi ao banheiro perguntei a Cee Cee o que estava acontecendo, e ela comeou a contar que achava que Adam conheceu algum em Martha's Vineyard. Devo 
dizer que foi legal ouvir outra pessoa reclamar durante um tempo. Quero dizer, minha vida  um horror e coisa e tal, mas pelo menos eu sei que Jesse no est transando 
com alguma garota em Martha's Vineyard.
   Pelo menos acho que no. Quem sabe aonde ele vai quando no est no meu quarto? Pode ser Martha's Vineyard, afinal de contas.
   Est vendo? Est vendo como esse relacionamento nunca vai dar certo?
   De qualquer modo, Cee Cee, Adam e eu no nos vamos havia um tempo, por isso tinha um bocado de pessoas de quem precisvamos falar mal, principalmente Kelly 
Prescott, por isso quando fui para casa j eram quase onze horas... tarde para mim, j que preciso estar no trabalho s oito.
   Mesmo assim fiquei feliz por ter sado, j que isso afastou a mente do que eu suspeitava que me esperaria dali a algumas horas: outra visita da estonteante Sra. 
Diego.
   Mas enquanto lavava o cabelo antes de ir para a cama, ocorreu-me que no havia motivo para tornar as coisas fceis para a srta. Maria. Quero dizer, por que devo
ser vtima em minha prpria cama?
   No h motivo. Nenhum. Eu no precisava agentar esse absurdo. Porque era isso. Um absurdo.
   Bem, um absurdo meio apavorante, mas sendo mesmo assim um absurdo.
   Por isso, quando apaguei a luz naquela noite, foi com um claro sentimento de satisfao. Senti que estava protegida de qualquer coisa que Maria pudesse armar. 
Tinha embaixo das cobertas um verdadeiro arsenal que havia apanhado na oficina de Andy, inclusive um machado, um martelo e algo que no dava para identificar, mas 
que tinha umas pontas malignas. Alm disso estava com o cachorro Max. Sabia que ele iria me acordar assim que algo do outro mundo aparecesse, j que era extremamente 
sensvel a essas coisas.
   E, ah, sim, dormi no quarto de Mestre.
   Sei. Sei. Covardia ao extremo. Mas por que eu deveria ficar na minha cama e esperar por ela, como alvo fcil, quando podia dormir na cama de Mestre e talvez despist-la? 
Quero dizer, eu no estava procurando briga nem nada. Bem, a no ser pelo negcio de no ter feito o que ela mandou. Acho que isso era meio indicativo de procurar 
briga. Mas no ativamente, voc sabe.
   Porque vou lhe contar, ainda que normalmente talvez eu sasse  procura da sepultura de Maria de Silva para poder, voc sabe, resolver as coisas de uma vez, esse 
caso era meio diferente. Por causa do Jesse. No pergunte por qu, mas simplesmente no acho que teria pique para quebrar a cara da ex-namorada, como teria feito 
se ela no fosse ligada a ele. No posso dizer que estou realmente acostumada a esperar que os fantasmas venham atrs de mim...
   Mais isso. Isso era diferente.
   De qualquer modo, tinha acabado de me aninhar entre as cobertas de Mestre (recm-lavadas - eu no iria me arriscar. No sei o que acontece na cama dos garotos 
de doze anos, e, francamente, no quaro saber) e estava piscando no escuro para as coisas estranhas que Mestre tinha pendurado no teto, um modelo do sistema solar 
e coisa e tal, quando Max comeou a rosnar.
   Fez isso to baixo que a princpio no escutei. Mas como eu o tinha colocado na cama comigo (no que houvesse muito espao, com o machado, o martelo e a coisa 
pontuda), pude sentir o rosnado revertendo em seu grande peito canino.
   Ento o rosnado aumentou, e os plos nas costas de Max comearam a ficar em p. Foi ento que eu soube que teramos um terremoto ou uma visita noturna da ex-beldade 
do condado de Salinas.
   Sentei-me, segurando o negcio pontudo como se fosse um basto de beisebol, olhando em volta ao mesmo tempo que dizia a Max em voz baixa:
   - Muito bem, garoto. Tudo bem, garoto. Tudo vai ficar bem, garoto - e dizendo a mim mesma que acreditava nisso. 
   Foi ento que algum se materializou diante de mim. E girei o negcio pontudo com o mximo de fora que pude.



    Captulo 6

   Suzannah! - gritou Jesse, pulando para evitar o golpe. - O que voc est fazendo?
   Quase larguei o negcio pontudo, de to aliviada que me senti.
   Max ficou louco, ganindo e rosnando. O coitadinho estava claramente tendo algum tipo de colapso canino. Para no me arriscar a que ele acordasse todo mundo em 
casa e depois ter de explicar por que estava dormindo na cama do meu meio-irmo com um punhado de ferramentas do Andy, deixei-o sair do quarto. Quando fiz isso, 
Jesse pegou o negcio pontudo e me olhou com curiosidade.
   - Suzannah - disse ele quando fechei a porta de novo -, por que est dormindo no quarto de David armada com uma picareta?
   Levantei as sobrancelhas, parecendo mais surpresa do que algum que recebe um mandado de priso.
  - Ento  isso? Eu estava imaginando o que seria.
   Jesse s balanou a cabea.
   - Suzannah, diga o que est acontecendo. Agora.
   - Nada - falei com a voz guinchada e aguda demais, at para meus ouvidos. Fui depressa e me deitei na cama de Mestre, batendo o dedo do p no martelo mas no 
dizendo nada, porque no queria que Jesse ficasse sabendo que ele estava ali. Me encontrar na cama do meu meio-irmo com uma picareta era uma coisa. Me encontrar 
na cama do meu meio-irmo com uma picareta, um machado e um martelo era totalmente outra.
   - Suzannah - Jesse pareceu realmente furioso, e ele no fica furioso com freqncia. Isto , a no ser, claro, quando me paga dando beijo de lngua em garotos 
estranhos diante da garagem. - Isso  um machado?
   Droga! Empurrei-o de volta para baixo do lenol.
   - Posso explicar - falei.
   Ele encostou a picareta na lateral da cama e cruzou os braos no peito.
   - Eu gostaria de ouvir.
   - Bem. - Respirei fundo. -  o seguinte.
   E ento no consegui pensar num modo de explicar, a no ser contando a verdade.
   E isso no podia fazer.
   Jesse deve ter lido na minha cara o fato de que eu estava tentando pensar numa mentira, j que de repente descruzou os braos e se inclinou para frente, pondo 
uma das mos de cada lado da cabeceira atrs de mim, e meio me capturando entre os braos, ainda que no estivesse me tocando. Isso era muito irritante e fez com 
que eu afundasse nos travesseiros de Mestre.
   Mas nem isso adiantou, j que o rosto de Jesse ainda estava a uns dez centmetros do meu.
   - Suzannah. - Agora ele estava realmente furioso. P da vida, pode-se dizer. - O que est acontecendo aqui? Ontem  noite pude jurar que senti... uma presena 
em seu quarto. E esta noite voc est dormindo aqui, com picaretas e machados? O que voc no quer me contar? E por qu? Por que no pode me contar?
   Eu tinha afundado o mximo possvel, mas no havia como escapar do rosto furioso de Jesse, a no ser que eu puxasse o lenol para cima do rosto. E isso, claro, 
no seria nem um pouco digno.
   - Olha - falei de modo mais razovel que pude, considerando que havia um martelo pressionando meu p. - No  que eu no queira contar. S tenho medo de que, 
se contar...
   E ento, no pergunte como, a coisa toda saiu aos borbotes. Verdade. Foi incrvel. Foi como se ele tivesse apertado um boto na minha testa que dizia "Informaes, 
por favor", e o negcio saiu.
   Contei tudo, sobre as cartas, a ida  sociedade histrica, tudo, e terminei com:
   - E o negcio  que eu no queria que voc soubesse, porque se seu corpo realmente estiver l, e se eles descobrirem, bem, isso significa que no h mais motivo 
para voc ficar aqui, e sei  egosmo, mas eu realmente ia sentir sua falta, por isso achei que, se no falasse, voc no descobriria e tudo poderia continuar normal.
   Mas Jesse no teve o tipo de reao que eu esperava. Ao me envolveu nos braos nem me beijou apaixonadamente como nos filmes, nem me chamou de mi hermosa, nem 
acariciou meu cabelo, que estava molhado do banho.
   Em vez disso comeou a rir.
   Coisa que eu realmente no apreciei. Quero dizer, depois de tudo que passei em nome dele nas ltimas 24 horas, seria de pensar que o cara mostraria um pouquinho 
mais de gratido do que ficar ali sentado, rindo. Sobretudo quando minha vida podia muito bem estar correndo perigo mortal.
   Foi o que falei, mas isso s o fez rir ainda mais.
   Por fim, quando cansou de rir - o que s aconteceu quando tirei o martelo de baixo das cobertas, algo que o fez gargalhar ainda mais, mas o que  que eu deveria 
fazer? O negcio ainda estava furando minha perna -, ele estendeu a mo e meio desgrenhou meu cabelo, mas no havia nada de romntico nisso, j que eu tinha posto 
condicionador Kielh's e tenho certeza de que melou os dedos dele.
   Isso s me deixou mais furiosa do que nunca, ainda que tecnicamente no fosse culpa dele. Por isso tirei o machado de baixo do lenol, tambm, depois puxei o 
lenol sobre a cabea, rolei e no quis mais falar com ele. Nem olhar. Muito madura, sei, mas eu estava furiosa.
   - Suzannah - disse ele numa voz meio rouca de tanto rir. Senti vontade de lhe dar um soco. Verdade. - No fique assim. Desculpe. Desculpe ter rido. S que no
entendi uma palavra, de to rpido que voc falou. E quando puxou aquele martelo...
   - V embora.
   - Ande, Suzannah - disse Jesse em sua voz mais sedosa e persuasiva, que ele estava usando de propsito para me deixar toda dengosa. S que dessa vez no ia funcionar. 
- Largue o lenol.
   - No - falei, segurando o lenol com mais fora, enquanto ele puxava. - Mandei ir embora.
   - No, no vou embora. Sente-se. Quero conversar com voc a srio agora, mas como posso fazer isso, se no quer me olhar? Vire-se.
   - No. - Eu estava mesmo furiosa. Quero dizer, voc tambm ficaria. Aquela tal de Maria era um indivduo apavorante. E ele se casar com ela! Bem, pelo menos h 
150 anos. Ser que ao menos a conhecia? Sabia que ela no era nem um pouco a garota que tinha escrito aquelas cartas idiotas? Em que ele estava pensando, afinal?
- Por que no vai ficar com a Maria? - sugeri acidamente. - Talvez vocs dois possam afiar as facas dela juntos e rir um pouquinho mais  minha custa. Ha, h. Aquela
mediadora  to engraada!
   - Maria? - Jesse puxou o lenol mais um pouco. - O que voc est falando? Facas?
   Certo. Ento eu no tinha sido totalmente sincera com ele. No tinha contado a histria toda. , contei a parte sobre as cartas, a sociedade histrica, o buraco 
e coisa e tal. Mas a parte sobre Maria aparecendo com uma faca - o motivo, de fato, para eu estar dormindo no quarto de Mestre com um punhado de ferramentas? No 
tinha mencionado essa parte.
   Porque sabia como ele iria reagir. Exatamente como reagiu.
   - Maria e facas? - ecoou ele. - No. No.
   Foi a gora da gua. Rolei e falei com ele, bem sarcstica.
   - Ah, certo, Jesse. Ento aquela faca que ela apertou contra minha garganta ontem  noite devia ser uma faca imaginria. E eu devo ter imaginado quando ela ameaou
me matar, tambm.
   Comecei a rolar de volta, furiosa, mas desta vez ele me pegou antes e me fez girar de novo para encar-lo. Vi com alguma satisfao que agora Jesse no estava 
rindo. Nem mesmo sorrindo.
   - Uma faca? - Ele estava me olhando como se no tivesse certeza de que havia escutado direito. - Maria esteve aqui? Com uma faca? Por qu?
   - Diga voc - falei, mesmo sabendo perfeitamente bem a resposta. - Algum que morreu e se foi h tanto tempo como ela precisaria de algum motivo bem grande para 
voltar.
   Jesse s me encarou com aqueles seus olhos escuros e lquidos. Se sabia alguma coisa, no iria me dizer. Pelo menos por enquanto.
   - Ela... ela tentou machucar voc?
   Confirmei com cabea, e tive a satisfao de sentir que seu aperto em meus ombros ficou mais forte.
   - . E segurou a faca bem aqui - apontei para minha jugular - e disse que, se eu no mandasse o Andy parar de cavar, ia me ma...
   Matar, era o que eu ia dizer, mas no tive chance porque Jesse me agarrou - verdade, agarrou,  o nico modo de descrever - e me segurou com muita fora para 
algum que h apenas alguns segundos tinha achado aquilo tudo uma grande piada.
   Devo dizer que foi extremamente gratificante. E ficou ainda mais gratificante quando Jesse falou uma coisa - mesmo no sabendo o que era, porque foi em espanhol 
- no meu cabelo molhado.
   Mas aquele abrao mortal (desculpe o trocadilho) que ele me deu no precisava de traduo: ele estava apavorado. Apavorado por mim.
   - Foi uma faca bem grande - falei adorando a sensao do seu ombro enorme e forte sob minha bochecha. Eu poderia me acostumar totalmente com isso. - E muito pontuda.
   - Mi hermosa - disse ele. Certo, essa palavra eu entendia. Ele me beijou no topo da cabea.
   Foi bom. Foi muito bom. Decidi partir para o abate.
  - E ento - falei fazendo uma imitao muito boa de choro, ou pelo menos de que estava  beira do choro - ela ps a mo sobra minha boca para eu no gritar, e 
um dos anis me cortou e deixou a boca toda sangrando.
   
   Epa! Isso no teve o efeito esperado. Provavelmente eu no deveria ter falado da boca sangrenta, porque em vez de me beijar ali, o que era meu objetivo, ele me 
empurrou para poder olhar meu rosto.
   - Suzannah, por que no me contou nada disso ontem  noite? - Ele parecia genuinamente pasmo. - Eu perguntei se havia alguma coisa errada, e voc no disse nenhuma
palavra.
   Al? Ser que ele no ouviu nada que eu disse?
   - Pois .
   Eu estava com os dentes trincados, mas voc teria feito o mesmo, se fosse abraada pelo homem dos seus sonhos e ele s quisesse conversar. E nada menos do que 
sobre a tentativa da ex-namorada dele me assassinar!
   - Obviamente tem algo a ver com o motivo de voc estar aqui. - falei. - Quero dizer, por que voc est nesta casa, e por que est aqui h tanto tempo? Jesse, 
voc no v? Se eles acharem seu corpo, isso prova que voc foi assassinado, e significa que o coronel Clemmings estava certo.
   A perplexidade de Jesse pareceu aumentar, ao invs de diminuir, graas a essa explicao.
   - Coronel quem?
   Coronel Clemmings. Autor de Meu Monterey. A teoria dele para seu desaparecimento no  que voc amarelou antes de se casar com Maria e foi para So Francisco 
reivindicar uma posse, e sim que o tal Diego matou voc para poder se casar com Maria. E eles acharem seu corpo, Jesse, isso vai provar que voc foi assassinado. 
E os suspeitos mais provveis, claro, so Maria e o tal de Diego.
   Mas em vez de ficar fascinado com minhas excelentes capacidades de detetive, Jesse perguntou com voz chocada:
   - Como voc sabe sobre ele? Sobre Diego?
   - Eu j disse. - Meu Deus, isso era irritante. Quando  que amos partir para o beijo? -  de um livro que Mestre pegou na biblioteca, Meu Monterey, do coronel 
Harold Clemmings.
   - Mas eu achei que Mestre... quero dizer, David, estava na colnia de frias.
   - Isso foi h muito tempo - falei frustrada. - Quando cheguei aqui. Em janeiro passado.
   Jesse no me soltou nem nada, mas estava com uma expresso tremendamente estranha.
   - Voc est dizendo que sabia sobre esse... sobre como eu morri... o tempo todo?
   -  - falei meio na defensiva. Estava tendo a sensao de que talvez ele achasse que eu tinha feito algo errado, ao xeretar sobre sua morte. - Mas, Jesse, esse 
 meu trabalho.  isso que os mediadores fazem. No posso evitar.
   - Ento por que ficava me perguntando como eu morri, se j sabia?
   Ainda na defensiva, falei:
   - Bom, eu no sabia. No sabia com certeza. Ainda no sei. Mas Jesse... - Queria ter certeza de que ele ia entender essa parte, por isso recuei (e infelizmente 
ele me soltou, mas o que eu podia fazer?) e me agachei e disse, muito devagar e com cuidado: - Se eles descobrirem seu corpo l fora, no somente Maria vai ficar 
muito furiosa, mas voc... voc vai embora. Sabe? Daqui. Porque  isso que est segurando voc, Jesse. O mistrio do que aconteceu. Assim que seu corpo for encontrado, 
esse mistrio estar resolvido. E voc vai embora. E por isso eu no podia contar, entende? Porque no quero que voc v embora. Porque eu te a...
   Ah, meu Deus, quase falei. Nem posso dizer como cheguei perto de falar. Desembuchei o A, e o M quase foi atrs.
   Mas no ltimo instante pude salvar a situao. Transformei em:
   -... acho legal e odiaria no v-lo outra vez.
   Rpida, hein? Essa foi por pouco.
   Porque uma coisa eu sei sobre os homens, junto com sua incapacidade de usar um copo, baixar a tampa da privada e encher as frmas de gelo quando esto vazias: 
eles realmente no sabem lidar com a palavra "a...". Quero dizer,  o que dizem praticamente todos os artigos que j li.
   E a gente tem de deduzir que isso  verdade para todos os caras, at os que nasceram h 150 anos.
   E acho que o fato de eu no ter dito a palavra deu certo, porque Jesse estendeu a mo e tocou meu rosto com a ponta dos dedos - como tinha feito naquele dia no 
hospital.
   - Suzannah - disse ele. - Encontrar meu corpo no vai mudar nada.
   - Ah. Com licena, Jesse, mas acho que eu sei do que estou falando. Sou mediadora h 16 anos.
   - Suzannah, eu estou morto h 150 anos. Acho que sei o que estou falando. E posso garantir que esse mistrio sobre minha morte, do qual voc fala... no  o motivo 
para, como voc costume dizer, eu estar dando um tempo aqui.
   Ento aconteceu uma coisa engraada. Como na sala de Clive Clemmings, eu simplesmente comecei a chorar. Verdade. Assim.
   Ah, no fiquei soluando feito um beb nem nada, mas meus olhos se encheram de lgrimas e fiquei com aquela sensao ruim e pinicante no fundo do nariz, e a garganta 
comeou a doer. Foi esquisito, porque, voc sabe, eu tinha acabado de fingir que estava chorando, e, de repente, estava mesmo.
   - Jesse - falei numa horrenda voz fungada (fingir que vai chorar  muito melhor do que chorar, j que h muito menos muco envolvido) -, desculpe, mas simplesmente 
no  possvel. Quero dizer, eu sei. J fiz isso cem vezes. Quando eles descobrirem seu corpo, acabou. Voc vai embora.
   - Suzannah - disse ele outra vez. E dessa vez no tocou simplesmente minha bochecha. Ps a mo em concha num dos lados do meu rosto...
   Ainda que o efeito romntico fosse um tanto arruinado pelo fato de que ele estava meio rindo de mim. Mas, para lhe dar crdito, ele parecia se esforar tanto 
para no gargalhar quanto eu me esforava para no chorar.
   - Prometo, Suzannah - disse ele com um monte de pausas entre as palavras para dar nfase -, que no vou a lugar nenhum, quer seu padrasto encontre ou no meu 
corpo no quintal. Certo?
   No acreditei, claro. Queria acreditar e tudo, mas a verdade  que ele no sabia do que estava falando.
   Mas o que poderia fazer? No tinha escolha alm de ser corajosa. Quero dizer, no poderia ficar ali sentada abrindo o berreiro. Que tipo de idiota pareceria?
   Por isso falei, infelizmente de um modo muito mucoso, j que nesse momento as lgrimas estavam escorrendo:
   - Verdade? Promete?
   Jesse riu e soltou meu rosto. Ento enfiou a mo no bolso e pegou uma pequena coisinha com acabamento de renda, que eu reconheci. O leno de Maria de Silva. Ele 
o havia usado para limpar vrios cortes e arranhes que recebi no servio de mediao. Agora usou para enxugar minhas lgrimas.
   - Juro - disse ele, rindo. Mas s um pouquinho.
   No fim das contas me convenceu a voltar  minha cama. Falou que ia garantir que a ex-namorada no me procuraria  noite. S que no a chamou de ex-namorada. S 
de Maria. Eu ainda queria perguntar o que ele estivera pensando ao namorar uma vaca com cara de fuinha como aquela, mas o momento no surgiu.
   Ser que existe momento certo para perguntar a algum por que vai se casar com a pessoa que o mandou matar?
   Provavelmente no.
   No sei como Jesse achava que iria impedi-la, se ela voltasse. Certo, ele estava morto havia muito mais tempo do que ela, por isso, tinha um pouco mais de prtica 
no negcio de ser fantasma. Na verdade parecia bem provvel que esta tivesse sido a primeira visita de Maria de volta a este mundo, vinda do plano espiritual que 
habitava desde a morte. Quanto mais tempo algum passa como fantasma, mais poderoso costuma ficar.
   Claro, a no ser que, como Maria, o dito-cujo esteja cheio de fria.
   Mas Jesse e eu, juntos, tnhamos lutado com fantasmas to furiosos quanto Maria e vencemos. Venceramos desta vez tambm, eu sabia, desde que ficssemos juntos.
   Sem dvida era estranho ir dormir sabendo que algum ficaria sentado, vigiando seu sono. Mas depois de me acostumar com a idia, era legal saber que ele estava 
ali, com Spike, no sof-cama, lendo  luz de seu prprio brilho espectral um livro chamado Mil anos, que ele havia achado no quarto de Mestre. Teria sido mais romntico 
se ele simplesmente ficasse olhando meu rosto, cheio de desejo, mas a cavalo dado no se olham os dentes, e quantas outras garotas que voc conhece tm caras perfeitamente 
dispostos a ficar sentados no quarto delas, vigiando a noite toda para que invasores malignos no entrem? Aposto que voc no pode citar nenhuma.
   Acho que por fim devo ter cado no sono, j que quando abri os olhos de novo era de manh, e Jesse ainda estava l. Tinha acabado Mil anos e tinha passado para 
um livro da minha estante, chamando As pontes de Madison, que ele parecia achar tremendamente divertido, ainda que tentasse no rir alto a ponto de me acordar.
   Meu Deus, que constrangedor.
   Nesse momento no percebi que era ltima vez que iria v-lo.



    Captulo 7

   A partir da meu dia despencou morro abaixo.
   Acho que, mesmo no estando interessada em renovar o contato com o ex, Maria continuava bem interessada em me torturar. Tive a primeira impresso disso quando 
abri a geladeira e peguei a caixa de nova de suco de laranja que algum havia comprado para substituir a que Dunga e Soneca tinham esvaziado na vspera.
   Tinha acabado de abri-la quando Dunga entrou, arrancou-a da minha mo e levou aos lbios.
   Comecei a falar "Ei", numa voz irritada, mas logo a palavra se transformou num guincho de nojo e terror quando o que jorrou na boca de meu meio-irmo no foi 
suco, e sim insetos.
   Centenas de insetos. Milhares de insetos. Insetos vivos, retorcendo-se, arrastando-se e caindo de sua boca aberta.
   Uma frao de segundo depois Dunga percebeu o que estava acontecendo. Jogou a caixa no cho e correu para a pia, cuspindo o mximo de besouros pretos tinham cado 
em sua boca. Enquanto isso eles continuavam correndo aos montes pelas laterais da caixa e indo para o cho.
   No sei como consegui juntar fora interior para fazer o que fiz em seguida. Se h uma coisa que eu odeio so insetos. Depois de sumagre venenoso,  um dos principais 
motivos para eu passar to pouco tempo ao ar livre. Quero dizer, no me incomodo com uma formiga na piscina se afogando ou uma borboleta pousando no meu ombro, mas 
mostre um mosquito ou, que Deus no permita, uma barata, e saio correndo pela porta.
   Mesmo assim, apesar do medo quase paralisante de qualquer coisa menor que um amendoim, peguei aquela caixa, derramei o contedo na pia e, mais rpido do que voc 
pode dizer Raid, liguei o triturador.
   - Ah, meu Deus! - estava gritando Dunga. - Ahmeudeuscacete.
   S que ele no disse cacete. Nas circunstncias, no o culpei.
   Nossos gritos tinham trazido Soneca e meu padrasto para a cozinha. Eles s ficaram parados olhando para as centenas de besouros pretos que tinham escapado da 
morte no triturador da cozinha e corriam pelos ladrilhos de cermica. Pelo menos at que eu gritei:
   - Pisem neles!
   Ento comeamos a pisar no mximo daquelas coisas nojentas que pudemos.
   Quando terminamos, s uns poucos se livraram, os que tiveram o bom senso de correr para o espao sob a geladeira e um ou dois que haviam chegado  porta de vidro 
que dava no deque. Tinha sido um trabalho rduo e nojento, e todos ficamos ali ofegando... mesmo Dunga, que, com um gemido, correu para o banheiro, presumivelmente 
para lavar a boca com Listerine, ou talvez verificar alguma antena que pudesse ter ficado presa entre os dentes.
    - Bem - disse Andy quando expliquei o que tinha acontecido. -  a ltima vez que compro suco orgnico.
   O que foi meio engraado, de um modo doentio. S que por acaso eu sabia que, orgnico ou concentrado congelado, no teria feito diferena: um poltergeist estivera 
agindo.
   Andy olhou a baguna no cho e disse numa voz meio atordoada:
   - Temos de limpar isso antes de sua me chegar.
   Estava certo. Voc acha que eu tenho uma coisa com insetos? Deveria ver minha me. Nenhuma das duas  o que voc poderia chamar de amantes da natureza.
   Partimos para o trabalho, passando pano e arrancando entranhas de inseto dos ladrilhos, enquanto eu fazia sugestes sutis de que por enquanto comprssemos todas 
as refeies para viagem. No tinha certeza se Maria havia posto a mo em mais alguma coisa, mas suspeitava de que nada no armrio ou na geladeira seria seguro.
   Andy estava disposto a concordar, falando sobre como as infestaes por insetos podiam acabar com plantaes inteiras, e em quantas casas destrudas por cupins 
ele havia trabalhado, e como era importante fumigar a casa regularmente.
   Mas eu queria dizer que fumigao no adianta quando os insetos so resultado de um fantasma vingativo.
   Mas, claro, no falei.  Duvido tremendamente de que ele teria entendido. Andy no acredita em fantasmas.
   Deve ser bom ter esse luxo.
   Quando Soneca e eu finalmente fomos para o trabalho, pareceu brevemente que as coisas estavam melhorando, j que no tivemos problema pelo atraso. Claro, porque 
Soneca estava saindo com Caitlin escravizada. Veja bem, h algumas vantagens em ter meios-irmos.
   Nem parecia haver alguma reclamao dos Slater porque tirei Jack do hotel sem permisso, j que me mandaram ir direto  sute deles. Isso  bom demais para ser 
verdade, pensei enquanto seguia pelos corredores acarpetados do hotel, e s mostra como por trs de cada nuvem h uma fatia de cu azul.
   Pelo menos era o que estava pensando quando bati  porta. Mas quando ela se abriu, revelando no apenas Jack, mas os dois irmos Slater usando short de banho, 
comecei a ter dvidas.
   Jack ficou me batendo como um gatinho numa bola.
   - Adivinha s! - gritou ele. -Paul no vai jogar golfe nem tnis nem nada hoje. Quer passar o dia inteiro com a gente. No  incrvel?
   - Ah. . Incrvel.
   O Dr. e a Sra. Slater passaram por ns, com as roupas de golfe.
   - Divirtam-se, crianas - gritou Nancy. - Suze, ns teremos aulas o dia inteiro. Fique at as cinco, certo? - Ento, sem esperar resposta, falou: -  isso a, 
tchau. - Pegou o marido pelo brao e saiu.
   "Certo", falei comigo mesmo. "Posso cuidar disso" J cuidei de um enxame de insetos. Quero dizer, apesar de algumas vezes achar que estava sentindo um deles se 
arrastando na pele e dar o maior pulo - s para descobrir que era o cabelo ou alguma outra coisa -, tinha me recuperado bastante bem. Provavelmente muito melhor 
do que Dunga jamais se recuperaria.
   Por isso certamente podia cuidar de Paul Slater me picando o dia inteiro. Quero dizer, me incomodando.
   Certo? Sem problema.
   S que havia problema. Porque Jack queria ficar falando sobre o negcio de ser mediador, e eu ficava murmurando para ele calar a boca, e ele dizia:
   - Ah, tudo bem, Suze, o Paul sabe.
   E esse era o ponto. Paul no deveria saber. Esse deveria ser nosso segredo, meu e de Jack. No queria que o Paul estpido, incrdulo, tipo "se voc no sair comigo 
eu entrego voc", fizesse parte disso. Em especial porque, a cada vez que Jack falava algo a respeito, Paul baixava os culos Armani e me olhava por cima da armao, 
cheio de expectativa, esperando ouvir o que eu ia responder.   
   O que eu poderia fazer? Fingi que no sabia do que Jack estava falando. O que era frustrante para ele, claro, mas o que mais eu deveria fazer? No queria que 
Paul soubesse dos meus negcios. Quero dizer, nem minha me sabe. Por que, afinal, eu iria contar ao Paul?
   Felizmente, depois das primeiras seis ou sete vezes em que Jack tentou falar alguma coisa relacionada  mediao e eu o ignorei, ele pareceu captar a mensagem 
e calou a boca. O fato de que a piscina tinha ficado apinhada de outras crianas e seus pais e babs ajudou, por isso ele tinha bastante coisa com que se distrair.
   Mesmo assim foi um tanto irritante, ali encostada na beira da piscina com Kim, que tinha aparecido com seus pupilos, olhar para o Paul de vez em quando e v-lo 
esticado numa espreguiadeira, o rosto virado na minha direo. Sobretudo porque eu sentia que Paul, diferentemente de Soneca, estava totalmente acordado por trs 
das lentes escuras dos culos.
   Alm do mais, como disse Kim:
   - Ei, se um gato como aquele quiser me olhar, pode ficar  vontade.
   Mas, claro, para Kim  diferente. Ela no tem o fantasma de um gato de 150 anos morando em seu quarto.
   No total, eu diria que a manh foi bastante medonha, pensando bem. Achei que depois do almoo o dia s poderia melhorar.
   E como estava errada! Foi depois do almoo que os policiais apareceram.
   Eu estava deitada numa espreguiadeira, sozinha, com um olho em Jack, que estava num espalhafatoso jogo de Marco Polo com as crianas de Kim, e outro em Paul, 
que fingia ler um exemplar do The Nation, mas que, como observou Kim, estava nos espionando por cima das paginas, quando Caitlin apareceu, visivelmente perturbada, 
seguida por dois membros grandalhes da polcia de Carmel.
   Presumi que estivessem meramente passando a caminho do banheiro masculino, onde de vez em quando surgia um armrio arrombado. Imagina minha enorme surpresa quando 
Caitlin levou os policiais direto at mim e disse em voz trmula:
   - Esta  Suzannah Simon, senhores.
   Vesti correndo meu short odioso enquanto Kim, na espreguiadeira ao lado, olhava boquiaberta para os policiais como se eles fossem trites sados do mar, ou algo 
do tipo. 
   - Srta. Simon - disse o policial mais alto. - Gostaramos de trocar uma palavra com voc um momento, se no se importa.
   J tive mais do que minha cota de policiais na vida. No porque eu ande com gangues, como Soneca gosta de pensar, mas porque na mediao a gente costuma ser obrigada 
a... bem, a violar a lei um pouquinho.
   Por exemplo: digamos que Marisol no entregasse o tal rosrio  filha de Jorge. Bem, para realizar o ltimo desejo de Jorge eu seria obrigada a invadir a casa 
de Marisol, pegar o rosrio e mandar pelo correio para Teresa, anonimamente. Qualquer um pode ver que uma coisa assim, que  realmente para o bem maior no vasto 
esquema das coisas, poderia ser mal interpretada pelos policiais como sendo um crime.
   De modo que, sim, o fato  que fui levada diante dos policiais vrias vezes, para consternao de minha me. Mas, com exceo daquele infeliz acidente que me 
deixou no hospital h alguns meses, nos ltimos tempos no tinha feito nada, pelo que podia pensar, que ao menos remotamente pudesse ser considerado ilegal.
   Portanto, foi com alguma curiosidade, mas pouco nervosismo, que acompanhei os policiais - Knightley e Jones - para fora da rea da piscina, at atrs da churrascaria 
Pool House, perto das lixeiras, a rea mais prxima, acho, onde os policiais achavam que teramos privacidade total para a conversinha.
   - Srta. Simon - comeou o policial Knightley, o mais alto, enquanto eu olhava um lagarto sair correndo da sombra de rododentro ali perto, olhar para ns alarmado 
e depois voltar correndo para a sombra. - A senhorita conhece p Dr. Clive Clemmings?
   Fiquei chocada ao admitir que sim. A ltima coisa que eu esperava que o policial Knightley mencionasse era o Dr. Clive Clemmings, Ph.D. Estava pensando em algo 
mais do tipo... ah, no sei, levar um menino de oito anos para fora do hotel sem a permisso dos pais.
   Sei que  idiotice, mas Paul realmente havia me irritado com aquilo.
   - Por qu? - perguntei. - Ele, o Sr. Clemmings, est bem?
   - Infelizmente no - disse o policial Jones. - Est morto.
   - Morto? - Senti vontade de me segurar em alguma coisa. Infelizmente no havia nada, a no ser a lixeira, e como ela estava cheia dos restos do almoo, no quis 
toc-la.
   Preferi afundar no meio-fio.
   Clive Clemmings? Minha mente estava disparando. Clive Clemmings morto? Como? Por qu? Eu no tinha gostado de Clive Clemmings, claro. Quando o corpo de Jesse 
aparecesse, eu esperava poder voltar  sua sala e esfregar isso na cara dele. Voc sabe, a parte de Jesse ter sido assassinado e coisa e tal.
   S que, agora, pelo jeito no teria chance.
   - O que aconteceu? - perguntei, olhando pasma para os policias.
   - No sabemos exatamente - disse o policial Jones. - Ele foi achado hoje cedo, sentado  mesa na sociedade histrica, morto, aparentemente de ataque cardaco. 
Segundo o livro de assinaturas da recepo, voc foi uma das poucas pessoas que o viram ontem.
   S no me lembrei de que a mulher atrs do balco tinha feito com que eu assinasse o livro. Droga!
   - Bem - falei entusiasmada, mas esperava que no entusiasmada demais. - Ele estava timo quando conversamos.
   -  - disse o policial Jones. - Sabemos disso. No  por causa da morte do Dr. Clemmings que viemos.
   - No?
   Espera um minuto. O que estava acontecendo?
   - Senhorita Simon, - disse o policial Jones - Quando o Dr. Clemmings foi encontrado esta manh, tambm foi descoberto que um artigo de valor particular para a 
Sociedade Histrica estava faltando. Algo que voc aparentemente olhou com o Dr. Clemmings ontem.
   As cartas. As cartas de Maria. Elas sumiram. Elas tm que ter sumido.

Ela havia aparecido e levado todas, e de algum modo Clive Clemmings tinha visto Maria e sofreu um ataque cardaco pelo choque de ver a mulher do retrato que ficava 
atrs de sua mesa andando pela sala.
- Uma pequena pintura. - O policial Knightley teve de olhar o bloco de anotaes. - Uma miniatura de algum chamado Hector de Silva. A recepcionista, a Srta. Lampbert, 
disse que o dr. Clemmings contou que voc estava particularmente interessada nela.
Essa informao, to inesperada, me chocou. O retrato de Jesse? Mas quem poderia ter apanhado aquilo? E por que?
No precisei fingir inocncia pela primeira vez, quando gaguejei:
- Eu... eu olhei a pintura, sim. Mas no peguei, nem nada. Quero dizer, quando sa, o sr... o dr. Clemmings estava guardando-a.
Os policiais Knightley e Jones trocaram olhares. Mas antes que pudessem dizer mais alguma coisa, algum apareceu no canto da churrascaria.
Era Paul Slater.
- H algum problema com a bab do meu irmo, senhores? - perguntou numa voz entediada que sugeria, ao menos para mim, que o empregados da famlia Slater costumavam 
ser arrastados para interrogatrio por membros da polcia.
- Com licena - disse o policial Knightley -, assim que terminarmos de interrogar esta testemunha...
Paul tirou os culos escuros e rosnou:
- Vocs sabem que a Srta. Simon  menor de idade? No deveriam estar interrogando-a na presena dos pais?
O policial Jones piscou algumas vezes.
- Perdo, ... senhor - comeou ele, mesmo estando claro que no considerava Paul um senhor, vendo que o cara tinha menos de 18 e coisa e tal. - Esta senhorita no 
est sendo presa. S estamos fazendo algumas per...
- Se ela no est sendo presa - disse Paul rapidamente -, no precisa falar com os senhores, no ?
Os policiais Knightley e Jones se entreolharam de novo. Ento o policial Knightley respondeu:
- Bem, no. Mas houve uma morte e um roubo, e temos motivo para acreditar que ela pode ter informaes...
Paul me olhou.
- Suze, esses senhores leram seus direitos?
- Ah... no.
- Voc quer falar com eles?
- Ah - falei, olhando nervosa do policial Knightley para o policial Jones, e depois de volta. - Na verdade, no.
- Ento no precisa.
Paul se inclinou e segurou meu brao.
- Diga adeus aos bons policiais. - E me puxou de p.
Olhei para os policiais.
- Ah - falei a eles. - Sinto muito saber que o dr. Clemmings est morto, mas juro que no sei o que aconteceu com ele, nem com a pintura. Tchau.
Ento deixei Paul Slater me puxar de volta para a piscina.
Normalmente no sou to dcil, mas preciso dizer que estava em choque. Talvez fosse empolgao "aps ser interrogada pela polcia mas no ser levada a delegacia", 
mas assim
que estvamos fora das vistas dos policiais Knightley e Jones, girei e agarrei o pulso de Paul.'
- Certo - falei. - O que foi aquilo?
Paul tinha posto os culos escuros de volta, por isso era difcil ler a expresso de seus olhos, mas acho que ele estava achando divertido.
- Aquilo o que?
- Aquilo tudo - falei assentindo para os fundos da churrascaria. - O negcio do mocinho resgatando a mocinha. Corrija se estou errada, mas no foi ontem mesmo que 
voc ia me entregar s autoridades? Ou pelo menos me dedurar a minha chefe?
Paul deu de ombros.
- . Mas um certo algum me disse que  possvel pegar mais moscas com mel do que com vinagre. Na hora s me senti meio chateada por ser chamada de mosca. No me 
ocorreu imaginar quem seria o "algum".
Mas no demorei muito para descobrir.


    Captulo 8


Certo, eu sa com ele.
E da?
O que isso faz de mim? Quero dizer, o cara perguntou se eu queria comer um hambrguer com ele depois de eu deixar o irmo de volta com os pais s cinco horas, e 
eu disse que sim.
Por que no diria? O que tenho a me esperar em casa, hein? Certamente nenhuma esperana de jantar. Barata a milanesa? Fricass de aranha? 
Ah, sim, e um fantasma que mandou assassinar o noivo e estava tentando me apagar na oportunidade mais prxima.
Achei que talvez eu tivesse feito um mau julgamento de Paul. Talvez no tivesse sido justa. Quero dizer, : ele havia bancado o perseguidor na vspera, mas tinha 
compensado tremendamente com o negcio de me resgatar da polcia.
E no deu em cima de mim nenhuma vez. Nenhuma. Quando falei que queria ir para casa, ele disse: sem problema, e me levou para casa.
Certamente no foi culpa dele que, quando chegamos a minha casa, no tenha podido chegar a entrada de veculos por causa de todos os carros da polcia e ambulncias 
estacionados ali.
Juro, uma coisa que vou comprar com o dinheiro do trabalho de vero  um celular. Porque coisas vivem acontecendo e eu no tenho idia, porque estou comendo hambrgueres 
com algum no Friday's.
Pulei do carro e corri at onde todas aquelas pessoas estavam paradas. Quando cheguei ao cordo de isolamento estendido em volta do buraco onde a minipiscina quente 
ficaria, algum me agarrou pela cintura e me fez girar antes que eu tivesse chance de fazer o que queria, que era - ainda que no tivesse muita clareza quanto a 
isso - pular no buraco e me juntar as pessoas que vi no fundo, curvadas sobre algo que eu tinha bastante certeza de que era um corpo.
Mas, como falei, algum me impediu.
- Epa, tigresa - disse algum, me girando. Por acaso era o Andy, extremamente sujo, suado e diferente de seu jeito normal. - Espera a. No tem nada para ver.
Andy. - O sol ainda no havia se posto, mas mesmo assim eu estava com problema para enxergar. Era como se estivesse num tnel, e s pudesse ver um ponto luminoso 
bem no final. - Andy, onde est minha me?
- Sua me est bem. Todo mundo est bem.
O ponto de luz comeou a aumentar um pouco. Agora eu podia ver o rosto de minha me, olhando-me preocupada do deque, tendo Dunga ao lado com o riso de desprezo de 
sempre.
- Ento o que... - Vi os homens no fundo do buraco levantando uma maca. Sobre a maca havia um saco plstico preto, para cadveres, do tipo que a gente sempre v 
na televiso. - Quem  aquele?
- Bem, no sabemos - respondeu meu padrasto. - Mas, quem quer que seja, estava a h muito tempo, portanto as chances so de que no seja algum que conhecemos.
O rosto de Dunga pairou grande em minha linha de viso.
-  um esqueleto - informou com enorme prazer. Parecia ter superado o fato de que, naquela manh mesmo, tivera a boca cheia de besouros e tinha voltado a seu jeito 
insuportvel. - Foi totalmente incrvel, Suze, voc deveria estar aqui. Minha p atravessou direto o crnio. Ele estalou que nem um ovo ou sei l o que.
Bem, para mim isso bastou. Minha viso de tnel voltou imediatamente, mas no o bastante para deixar de perceber algo que caiu enquanto a maca passa por mim. Meu 
olhar se fixou na coisa, acompanhando-a at pousar no cho pero dos meus ps. Era apenas um pedao de material manchado e extremamente pudo, no maior que minha 
mo. Parecia um trapo, mas dava para ver que j tivera renda nas bordas. Pedacinhos de renda ainda se grudavam como fiapos, em especial em volta do canto, onde, 
muito debilmente, dava pra ler trs iniciais bordadas.
MDS.
Maria de Silva. Era o leno que Jesse tinha usado na noite passada para secar minhas lgrimas. S que era o leno de verdade, pudo e marrom devido ao tempo.
E tinha cado do amontoado de material podre que mantinha juntos os ossos de Jesse.
Virei-me e vomitei meu cheeseburger de bacon e batata frita do Friday's na lateral da casa.
No preciso dizer que ningum, alm de minha me, foi muito simptico com relao a isso. Dunga reclamou que era a coisa mais nojenta que j viu. Aparentemente havia 
esquecido do que tivera na boca h menos de doze horas. Andy simplesmente foi pegar a mangueira, e Soneca, igualmente sem se impressionar, disse que precisava ir, 
para no se atrasar na entrega das pizzas.
Minha me insistiu em me por na cama, mas a ltima coisa que eu queria era t-la no meu quarto. Puxa, eu tinha acabado de ver a remoo do corpo de Jesse do quintal 
dos fundos. Gostaria de discutir com ele essa viso perturbadora, mas como poderia fazer isso com mame ali?
Achei que, se a deixasse cuidar de mim durante meia hora, ela sairia. Mas ficou muito mais que isso, obrigando-me a tomar um banho e vestir um pijama de seda que 
tinha comprado para mim no dia dos namorados (pateticamente foi o nico presente do dia dos namorados que ganhei). Depois insistiu em pentear meu cabelo, como fazia 
quando eu era pequena.
Tambm queria falar, claro. Tinha muita coisa a dizer sobre o esqueleto que Andy e Dunga haviam descoberto, insistindo em que era "algum coitado" que tinha sido 
morto num tiroteio, na poca em que nossa casa era penso de mercenrios, pistoleiros e um ou outro filho de fazendeiro. Disse que a polcia insistira em tratar 
o fato como homicdio at que o legista determinasse h quanto tempo o corpo estava ali, mas, continuou, como o cara ainda estava com as esporas (esporas!), presumia 
que eles chegariam a mesma concluso que ela: que o fulano estava morto h muito mais tempo do que qualquer um de ns estava vivo. 
Tentou fazer com que eu me sentisse melhor. Mas como poderia? No tinha idia do motivo para eu estar to perturbada. Quero dizer, eu no sou Jack. Nunca falei com 
ela sobre meu talento secreto. No sabia que h apenas doze horas ele estivera sentado no meu sof-cama, rindo de As pontes de Madison. E que algumas horas antes 
disso tinha me beijado - no topo da cabea, mas mesmo assim.
Quero dizer, qual ! Voc tambm ficaria perturbada.
Finalmente, finalmente ela saiu. Dei um suspiro de alvio, achando que poderia relaxar, sabe?
Mas no. Ah, no, porque mame no saiu com a inteno de me deixar sozinha. Descobri do modo mais difcil, quando alguns minutos depois o telefone tocou e Andy 
subiu a escada dizendo que era para mim. Realmente no sentia vontade de falar com ningum, mas o que podia fazer? Andy j havia dito que eu estava em casa. Por 
isso atendi, e imagina que vozinha animada escutei na outra ponta?
Isso mesmo.
A de Mestre.
- Suze, como vai? - perguntou meu meio-irmo mais novo. Ainda que sem dvida eu j soubesse. Quero dizer, como eu estava. Obviamente mame tinha ligado para ele 
na colnia de frias e dito para ele me ligar ("quem recebe telefonemas da madrasta na colnia de frias?", pergunto eu.) porque, claro, ela sabe. Sabe que ele  
o nico dos meus meio-irmos que eu suporto, e tenho certeza de que ela achava que eu contaria a Mestre o que estava me incomodando, e depois ela poderia pression-lo 
em busca da informao.
Mame no  uma premiada jornalista de TV a toa, voc sabe.
- Suze? - Mestre parecia preocupado. - Sua me me contou... o que aconteceu. Quer que eu v para casa?
Afundei de volta nos travesseiros.
- Para casa? No, no quero que voc venha para casa. Por que ia querer isso?
- Bem. - Mestre baixou a voz como se suspeitasse que algum estava escutando. - Por causa do Jesse.
De todas as pessoas com quem moro, Mestre era o nico que fazia a mnima idia de que no estamos ss. Mestre acreditava... e tinha bons motivos para isso. Uma vez, 
quando eu estava numa verdadeira encrenca, Jesse o procurou. Mesmo morrendo de pavor, Mestre foi me ajudar.
E agora estava se oferecendo de novo.
Mas o que poderia fazer? Nada. Pior do que nada, ele poderia se machucar. Quero dizer, olha o que aconteceu com Dunga de manh. Voc acha que eu queria ver Mestre 
com a cara cheia de insetos? No.
- No - respondi depressa. - No, Mestr... quero dizer, David. No precisa. Fique onde est. As coisas esto bem. Verdade.
Mestre pareceu desapontado.
- Suze, as coisas no esto bem. Voc ao menos que conversar sobre isso? 
- Na verdade, no. 
- Olha, Suze. Eu sei que deve ser perturbador. Quer dizer, ver o esqueleto dele daquele jeito. Mas voc tem de lembrar que nossos corpos so apenas a casca, e uma 
casca muito grosseira, que nossas almas ocupam enquanto esta mos vivos na Terra. O corpo de Jesse... bem, no tem mais nada a ver com ele. 
" fcil para ele dizer", pensei, arrasada. Ele nunca precisou olhar os msculos abdominais de Jesse. 
No que isso interessasse muito a Mestre, claro. 
- Verdade - continuou ele. - Se voc pensar bem, provavelmente no  o nico corpo que Jesse vai ter. Segundo os hindus, ns trocamos as cascas, os corpos, vrias 
vezes! De fato continuamos a fazer isso, dependendo do carma ate finalmente resolvermos as coisas, alcanando a libertao do ciclo de renascimento.
- ? - Olhei para o dossel da cama. Realmente no acreditava que estava tendo essa conversa. E com um moleque de doze anos. - mesmo? 
- Claro. Pelo menos a maioria das pessoas. Quero dizer, a no ser que a gente acerte de primeira. Mas isso quase nunca acontece. Veja s, o que esta acontecendo 
com Jesse  que o carma dele est todo bagunado, e ele tropeou a caminho do nirvana. S precisa achar a direo de volta ao corpo que ele deve ganhar depois, voc 
sabe, do ltimo, e a vai ficar bem. 
- David. Tem certeza de que esta numa colnia de frias de informtica? Porque parece que mame e Andy talvez tenham largado voc numa colnia de frias de ioga, 
por engano. 
- Suze. - Mestre suspirou. - Olha. S estou dizendo que esse esqueleto que voc viu no era o Jesse, certo? No tem mais nada a ver com ele. Portanto, no deixe 
isso chatear voc. Certo? 
Decidi que estava na hora de trocar de assunto. 
- E a? Tem alguma garota bonita na colnia?
- Suze - disse ele com severidade. - No...
Eu sabia. Qual  o nome dela?
- Cala a boca. Olha, eu precise desligar. Mas lembre-se do que eu disse, certo? Vou estar em casa no domingo, ai a gente conversa mais.
- timo. Vejo voc no domingo.
- At l. E, Suze?
- Sim, Mestr... quero dizer, David.
- Tenha cuidado, certo? O tal de Diego,o cara daquele livro, que supostamente matou Jesse, parecia meio mau. Seria bom voc vigiar as costas ou... bem, sei l.
Sei l estava certo.
Mas no confirmei. Em vez disso, falei tchau. O que mais poderia dizer? Que Felix Diego no  nem a metade, filhinho? Estava chateada demais ate mesmo para pensar 
que talvez tivesse de lidar com um segundo esprito hostil. 
Mas nem sabia o que  ficar perturbada ate que Spike veio pela janela aberta, olhou em volta cheio de expectativa e miou ... 
E Jesse no apareceu. 
Nem mesmo depois de eu chamar seu nome. 
Em geral no... quero dizer, os fantasmas... no vem quando a gente chama. 
Mas na maior parte das vezes Jesse vem. Ainda que ultimamente aparecesse antes mesmo de eu ter a chance de chamar, quando s pensava em cham-lo. Ai, bam!, quando 
me toco, ele estava ali. 
Menos dessa vez. Nada. Nem um tremor. 
Bem, falei comigo mesma enquanto dava a Spike sua lata de comida e tentava ficar calma. Tudo bem. Quero dizer, isso no significa nada. Talvez ele esteja ocupado. 
Quero dizer, aquilo l embaixo era o esqueleto dele. Talvez ele o estivesse seguindo ate onde estava sendo levado. Para o necrotrio ou sei l onde. Provavelmente 
e muito traumtico olhar pessoas desenterrando seu corpo. Jesse no fazia idia sobre hindusmo e carma. Pelo menos que eu soubesse. Para ele seu corpo era provavelmente 
muito mais do que uma casca para a alma. 
Era onde ele estava. No necrotrio. Olhando o que era feito com seus restos.
Mas quando as horas se passaram e ficou escuro, e Spike - que em geral sai a noite procurando pequenos animais e qualquer Chihuahua que possa encontrar - subiu na 
minha cama, onde eu estava sentada folheando revistas sem ver e encostou a cabea na minha mo... 
Foi ento que eu soube. 
Foi ento que eu soube que alguma coisa estava errada, errada de verdade. Porque aquele gato me odeia de paixo, mesmo sendo eu quem o alimenta. Se esta subindo 
na minha cama e encostando a cabea na minha mo, bem, sinto muito, isso significa que meu universo esta desmoronando. 
Porque Jesse no vai voltar. 
S que, fiquei dizendo a mim mesma enquanto o pnico crescia, ele prometeu. Ele jurou. 
Mas enquanto os minutos tiquetaqueavam e ainda no havia sinal dele, eu soube. Simplesmente soube. Jesse tinha ido embora. Haviam encontrado seu corpo, e isso significava 
que ele no estava mais desaparecido, e que no havia necessidade de ficar no meu quarto. No mais, como eu tinha tentado explicar ontem a noite. 
S que ele havia parecido to seguro... to seguro de que no era isso. Tinha gargalhado. Tinha gargalhado quando eu disse pela primeira vez, como se fosse ridculo.
Mas onde ele estava? Se no tinha ido embora - para o cu ou para outra vida (no para o inferno; tenho certeza de que no h lugar no inferno para Jesse, se existe 
um inferno) -, ento onde ele estava? 
Tentei contatar meu pai. No pelo telefone nem nada porque, claro, meu pai no pode ser contatado assim, j que est morto. Tentei cham-lo onde quer que ele estivesse, 
l no plano astral. 
Porm, claro, ele tambm no veio. Mas, afinal de contas, ele nunca vem. Born, algumas vezes. Mas raramente, e, desta vez, no. 
S quero que voc saiba que normalmente eu no piro desse jeito. Quero dizer, normalmente sou muito mais uma mulher de ao. Algo acontece e, bem, eu saio dando 
cacete. Geralmente  assim que funciona. 
Mas isso... 
Por algum motivo no conseguia pensar direito. Realmente. S estava ali, sentada, com o pijama de seda, pensando: "O que eu deveria fazer? O que eu deveria fazer?" 
Srio. No adiantava. 
Por isso fiz o que fiz em seguida. Se no conseguia deduzir sozinha o que fazer, bem, precisava de algum que me dissesse. E sabia de algum. 
Tinha de falar baixo porque, claro, j passava das onze horas e todo mundo em casa, menos eu, estava dormindo. - O padre Dominic est? - perguntei. 
A pessoa do outro lado da linha - um homem idoso, pela voz - falou:
- O que , querida? Quase no estou ouvindo. 
- O padre Dominic - falei o mais alto que ousei. - Por favor, preciso falar com o padre Dominic agora mesmo. Ele est? 
- Claro, querida - disse 0 homem. Ento o escutei gritar: 
- Dom! Ei, Dom! Telefone para voc! 
Dom? Como voc ousa chamar o padre Dominic de Dom? 
Que falta de respeito! 
Mas toda minha indignao se dissolveu quando escutei a voz suave e profunda do padre Dominic. No tinha percebido quanto sentia falta dele, de no v-lo todos os 
dias durante o vero, como acontecia nos perodos escolares. 
- Alo? 
- Padre Dom - falei. No, no falei. Vou admitir. Chorei. 
Eu era um caso perdido.
- Suzannah? - O padre Dominic pareceu em choque. O que h de errado? Por que est chorando? Voc est bem? - Estou - falei. Certo, no falei: solucei. - No sou 
eu.  o J... Jesse. 
- Jesse? - A voz do padre assumiu o tom de sempre que o assunto Jesse aparecia. Ele havia demorado um tempo para aceitar Jesse. Acho que d para entender. O padre 
D. no  somente um padre, tambm  o diretor de uma escola catlica. No deveria aprovar coisas como garotas e rapazes dividindo um quarto... mesmo que o cara esteja, 
voc sabe, morto. 
E eu entendia, porque com os mediadores  diferente de com as outras pessoas. Todas as outras pessoas simplesmente atravessam os fantasmas. Fazem isso o tempo todo 
e nem percebem. Ah, talvez sintam um ponto frio, ou achem que vislumbraram alguma coisa com o canto dos olhos, mas quando se viram no h ningum ali. 
Para os mediadores  diferente. Para ns os fantasmas so feitos de matria, e no de mortalhas de nvoa. Eu no conseguia passar a mo atravs de Jesse, ainda que 
todas as outras pessoas pudessem. Bem, todas menos Jack e o padre Dom. 
Por isso  compreensvel o motivo para o padre Dom nunca ser muito louco pelo Jesse, mesmo que o cara tenha salvado minha vida mais vezes do que posso contar. Porque, 
independentemente do que ele seja, ainda  um cara, e est morando no meu quarto, e ... bem, voc captou a idia. 
No, claro, que tivesse acontecido alguma coisa - para meu dissabor. 
O negcio  que agora jamais aconteceria. Quero dizer, agora eu nem vou saber se alguma coisa poderia ter acontecido. Porque ele foi embora. 
No falei nada disso ao padre Dom, claro. S contei o que aconteceu, sobre Maria, a faca e os insetos, e sobre Clive Clemmings morto e o retrato desaparecido, e 
como tinham achado o corpo de Jesse e agora ele havia sumido. 
- E ele me prometeu - terminei de modo um tanto incoerente, de tanto que estava chorando. - Ele jurou que no era isso, que no era isso que o estava segurando aqui. 
Mas agora ele se foi, e...
A voz do padre Dominic era tranqilizadora e controlada, em comparao a minha arenga cheia de soluos. 
- Certo, Suzannah. Eu entendo. Entendo. Obviamente h foras atuando que esto alm do controle do Jesse e, bom, alm do seu, tambm. Fico feliz por ter me ligado. 
Escute, agora faa exatamente o que eu digo. 
Funguei. Era to bom - nem posso descrever quanto - ter algum me dizendo o que fazer! Verdade. Normalmente a ultima coisa que eu quero  que me digam o que fazer. 
Mas nesse caso eu realmente, realmente apreciei. Grudei-me ao telefone, esperando ofegante as instrues do padre Dom.
- Voc est no seu quarto, no ? - perguntou ele. Confirmei com a cabea, percebi que ele no podia me ver e falei: 
- Estou. 
- Bom. Acorde sua famlia e conte a eles exatamente o que acaba de me contar. Depois saiam de casa. Saiam dessa casa, Suzannah, o mais rpido que puder. 
Afastei o telefone do ouvido e olhei para o aparelho como se ele tivesse comeado a balir no meu ouvido como uma ovelha. Srio. Porque isso faria quase tanto sentido 
quanto o que o padre Dom tinha dito.
Encostei o fone de novo no ouvido.
- Suzannah? - estava dizendo o padre Dom. - Voc me escutou? Estou falando totalmente srio. Um homem j morreu. No duvido de que algum de sua famlia seja o prximo
se voc no tir-los da. 
Sei que eu estava arrasada e coisa e tal. Mas no to arrasada. 
- Padre D., no posso contar a eles. 
- Pode sim, Suzannah. Sempre achei errado voc manter seu dom em segredo para sua me durante tantos anos. Est na hora de contar. 
- At parece! - falei ao telefone. 
- Suzannah. Os insetos foram s o comeo. Se essa mulher est assumindo uma posse demonaca de sua casa, horrores, como... bem, horrores como voc e eu jamais poderamos 
imaginar vo comear... 
- Possesso demonaca de minha casa? - Segurei o telefone com mais fora. - Escute, padre D., ela pode ter levado meu namorado, mas no vai levar minha casa. 

O padre Dominic parecia cansado.
- Suzannah. Por favor, faa o que eu digo. Saia com sua famlia da antes que acontea algo ruim a algum de vocs. Entendo que voc esteja perturbada por causa do 
Jesse, mas o fato, Suzannah, e que ele est morto, e voc, pelo menos por enquanto, ainda esta viva. Temos de fazer possvel para que continue assim. Vou sair daqui 
agora, mas estou a seis horas de distancia. Prometo que chegarei a de manh. Uma administrao meticulosa de gua benta afastara qualquer esprito mau que ainda 
esteja na casa, mas... 
Spike tinha atravessado o quarto em minha direo. 
Achei que ele iria me morder, como sempre, mas no. Em vez disso veio direto ate meu rosto e soltou um grito muito alto muito lamentoso. 
- Santo Deus - gritou o padre Dominic. -  ela? Ela j est a? 
Cocei Spike atrs da orelha que restava, espantada por ele me deixar toc-lo. 
- No. Foi o Spike. Ele sente falta do Jesse. 
- Suzannah, sei como isso deve ser doloroso para voc. Mas saiba que, onde quer que Jesse esteja agora, est melhor do que nos ltimos 150 anos, vivendo num limbo 
entre este mundo e o outro. Sei que  difcil, mas voc deve tentar ser feliz por ele, e saiba que, acima de tudo, ele iria querer que voc se cuidasse, Suzannah. 
Ele iria querer que voc ficasse segura e mantivesse sua famlia segura... 

Enquanto ouvia o padre Dom, percebi que ele estava certo. Era realmente isso que Jesse iria querer. E ali estava eu, sentada de pijama de seda quando havia trabalho 
a ser feito. 
- Padre D. - falei interrompendo -, no cemitrio da Misso h algum da famlia Silva enterrado? 
Arrancado de seu discurso sobre segurana, o padre Dominic disse: 
- Eu... Silva? Realmente, Suzannah, no sei. No creio que...
- Ah, espera. Vivo esquecendo que ela se casou com um Diego. Ha uma cripta dos Diego, no h? - Tentei visualizar o cemitrio, que era pequeno, rodeado por muros 
altos, diretamente atrs da baslica da Misso onde o padre Dorn trabalha e eu estudo. H apenas um pequeno nmero de sepulturas, principalmente dos monges que tinham 
trabalhado no incio com Junipero Serra, o cara que fundou a Misso de Carmel em mil setecentos e pouco. 
Mas alguns ricos proprietrios de terras no sculo XIX tinham conseguido espremer um ou dois mausolus doando uma parte considervel de sua fortuna para a igreja. 
E o maior - se me lembro corretamente da vez em que o sr. Walden, nosso professor de histria da civilizao, nos levou ao cemitrio para aprendermos um pouco da 
histria local - tinha a palavra DIEGO esculpida na porta. 
- Suzannah - disse o padre Dominic. Pela primeira vez havia algo diferente de urgncia em sua voz. Agora ele estava apavorado. - Suzannah, sei o que esta pensando, 
e ... probo! Voc no vai chegar perto daquele cemitrio, entende? No vai chegar perto daquela cripta! E perigoso demais ... 
Exatamente como eu gosto. 
Mas no foi isso que falei alto. Alto eu disse: 
- Certo, padre D. O senhor esta certo. Vou acordar minha me. Vou contar tudo. E tirar todo mundo de casa. 
O padre Dominic estava to atnito que no falou nada durante um minuto. Quando finalmente pode encontrar a voz, disse: 
- Bom. Bem... bom, ento. . Tire todo mundo da casa. No faa nenhuma tolice, Suzannah, como invocar o fantasma dessa mulher, at eu chegar a. Prometa. 
Prometa. Como se as promessas ainda significassem alguma coisa. Olhe o Jesse. Tinha prometido que no ia embora, e onde estava? 
Foi-se. Foi-se para sempre. 
E eu tinha sido covarde demais para lhe dizer o que sentia. 
E agora nunca terei a chance. 
- Claro - falei ao padre Dominic. - Prometo. Mas acho que at ele sabia que no era a srio.


    Captulo 9


Caar fantasmas  um negcio complicado. 
Voc imaginaria que  fcil, certo? Tipo: se um fantasma estiver incomodando a gente, basta... , voc sabe, lhe dar um soco nas fuas e ele vai embora. 
. Infelizmente no funciona assim. 
O que no quer dizer que dar um soco nas fuas de algum no tenha valor teraputico. Em especial para algum que, como eu, pode estar sofrendo. Porque era isso 
que eu estava, claro. Sofrendo por Jesse. 
S que - e no sei se isso se aplica a todos os mediadores ou s a mim - realmente no sofro como uma pessoa normal. Quero dizer, eu fiquei sentada abrindo o berreiro 
depois que percebi que nunca mais ia ver Jesse. 
Mas ento uma coisa aconteceu. Parei de me sentir triste e comecei a ficar furiosa.
Furiosa de verdade. Ali estava eu, j passava da meia-noite, e me sentia extremamente furiosa. 
No que no quisesse manter a promessa ao padre D. 
Queria sim. Mas simplesmente no podia. 
Assim como Jesse no pode manter a promessa a mim. De modo que, apenas 15 minutos depois de ligar para o padre D., sai do banheiro - Jesse tinha ido embora, portanto 
eu poderia ter trocado de roupa no quarto, mas velhos hbitos so difceis de abandonar - com a vestimenta completa de caa-fantasmas, inclusive o cinto de ferramentas 
e um casaco com capuz, que at eu admito que  meio excessivo na Califrnia em julho. Mas era noite, e aquela nvoa que vem do oceano de madrugada pode gelar. 
No quero que voc pense que no pensei seriamente no que o padre D. disse sobre contar tudo a minha me e tira-la dali, junto com os Ackerman. Realmente pensei 
nisso. 
S que, quanto mais pensava, mais ridculo parecia. Quero dizer, em primeiro lugar minha me  jornalista de TV. Simplesmente no  do tipo que acredita em fantasmas. 
S acredita no que pode ver ou ento no que a cincia provou que existe. Na nica vez que tentei contar, ela no entendeu nem um pouco. E percebi que ela nunca entenderia.
Ento como  que eu poderia entrar naquele quarto e contar a ela e ao novo marido que eles tem de sair da casa porque h um esprito vingativo atrs de mim? Ela 
ligaria para o terapeuta em Nova York procurando comunidades onde eu pudesse "descansar" to depressa que voc nem acreditaria. 
De modo que esse plano estava descartado. 
Mas tudo bem, porque eu tinha um muito melhor. Um plano que, realmente, eu deveria ter imaginado de cara, mas acho que o negcio de ver o esqueleto do cara que eu 
amo sendo tirado de um buraco no quintal dos fundos realmente me pegou no contrap, por isso s pensei direito quando estava ao telefone com o padre D. 
Mas assim que pensei, percebi que era de fato o plano perfeito. Em vez de esperar que Maria viesse atrs de mim, eu simplesmente iria at ela e, bem... 
Iria mand-la de volta ao lugar de onde tinha vindo. Ou reduzi-la a um monte de gosma gelatinosa e trmula. A que acontecesse primeiro. 
Porque, mesmo que, claro, os fantasmas estejam mortos, eles ainda sentem dor, como as pessoas que perdem um membro ainda sentem coceira nele de vez em quando. Quando 
voc crava uma faca no esterno dos fantasmas, eles sabem que deveria doer, e o ferimento at sangra por um tempo. 
Depois, claro, eles superam o choque e o ferimento desaparece. O que  desencorajador, j que os ferimentos que eles, por sua vez, infligem em mim no se curam to 
depressa. 
Mas tanto faz. A coisa funciona. Mais ou menos. 
O ferimento que Maria de Silva tinha me infligido no era visvel, mas isso no importava. O que eu ia provocar nela importaria. Com sorte aquele seu marido estaria 
por perto e eu faria o mesmo com ele. 
E o que aconteceria se as coisas no funcionassem assim, e os dois ganhassem a briga?
Bem, essa  a parte mais maneira: eu nem me importava. 
Verdade. Tinha chorado cada grama de emoo que havia em mim, e agora simplesmente no me importava. No me importava. Realmente. 
Eu estava entorpecida.
Tanto que, quando passei as pernas pela janela do quarto e pousei no telhado da varanda - minha sada usual quando no queria que ningum em casa soubesse que eu 
estava armando alguma coisa -, nem me importei com as coisas que normalmente tem significado para mim, como a lua, por exemplo, pairando sobre a baa, lanando tudo 
numa sobra preta e cinza, e o perfume do pinheiro gigante ao lado da varanda. No importava. Nada disso importava. 
Tinha acabado de atravessar o telhado da varanda e estava me preparando para pular quando um brilho mais forte do que a lua, porm muito mais fraco do que, digamos, 
a lmpada do meu quarto, apareceu atrs de mim. 
Certo, vou admitir. Pensei que era Jesse. No pergunte por que. Quero dizer, ia contra toda a lgica. Mas e da? Meu corao deu um pulo feliz e eu girei... 
Maria estava parada a menos de dois metros de mim, no telhado inclinado e cheio de agulhas de pinheiro. Tinha a mesma aparncia do retrato acima da mesa de Clive 
Clemmmings: elegante e espiritual. 
Bem, e por que no? Agora ela  um esprito, no ? 
- Vai a algum lugar, Suzannah? - perguntou ela em seu ingls cortante, apenas com um leve sotaque. 
- Ia - respondi empurrando para trs o gorro do casaco. 
Tinha amarrado o cabelo num rabo-de-cavalo. No era bonito, sei, no entanto eu precisava de toda a viso perifrica possvel. - Mas agora que voc est aqui, vejo 
que no preciso. Posso chutar sua bunda ossuda tanto aqui quanto na sua sepultura fedorenta. 
Maria ergueu as sobrancelhas delicadamente arqueadas. 
- Que palavreado! - disse ela. Juro, como se tivesse um leque e estivesse usando-o, como Scarlett O'Hara. - E o que eu poderia ter feito para instigar um vocabulrio
to pouco feminino? Voc sabe que  possvel pegar mais moscas com mel do que com vinagre.
- Voc sabe muitssimo bem o que fez - falei dando um passo na direo dela. - Vamos comear com os insetos no suco de laranja.
Ela ajeitou timidamente uma madeixa de cabelos pretos e brilhantes que tinha escapado dos cachos nas laterais do rosto.
- , achei que voc gostaria deles. 
- Mas matar o dr. Clemmings? - dei outro passo adiante. - Isso foi ainda melhor. Porque imagino que voc nem precisou mat-lo, no foi? Voc s queria a pintura, 
no ? A do Jesse. 
Ela fez o que as revistas chamam "biquinho": voc sabe, meio que franziu os lbios e ao mesmo tempo pareceu satisfeita consigo mesma. 
- Sim. A princpio eu no ia mat-lo. Mas quando vi o retrato, o meu retrato sobre a mesa dele, bem, como poderia no matar? Ele nem mesmo  meu parente. Por que 
deveria ficar com um quadro to belo? E naquela salinha miservel! Aquele quadro enfeitava minha sala de jantar. Ficava um esplendor acima de uma mesa onde vinte 
pessoas podiam se sentar. 
- , bem. Pelo que eu soube, nenhum de seus descendentes o quis. Seus filhos acabaram no passando de um punhado de vagabundos e bandidos. Parece que sua capacidade 
materna deixou um pouco a desejar. 

Pela primeira vez Maria pareceu chateada. Comeou a dizer alguma coisa, mas interrompi: 
- O que no entendo  para que voc queria a pintura. A de Jesse. Quero dizer, de que ela serve para voc? A no ser que tenha roubado a pintura para me causar problema. 
- Esse motivo no bastaria? - perguntou ela com um riso de desprezo. 
- Acho que sim. S que no funcionou. 
- Ainda - disse Maria, com uma certa nfase. - Ainda h tempo. 
Balancei a cabea. S balancei a cabea enquanto olhava para ela. 
- Nossa! - falei mais para mim mesma. - Nossa, vou machucar voc. 
- Ah, sim. - Maria fez "tsk tsk" por trs da mo com luva de renda. - Esqueci. Voc deve estar com muita raiva de mim. Ele foi embora, no foi? O Hector. Deve ter 
sido um tremendo golpe. Sei como voc gosta dele. 
Eu poderia ter pulado em cima dela nesse momento.
Provavelmente deveria ter pulado. Mas ocorreu-me que ela poderia, voc sabe, ter alguma informao sobre o Jesse, como ele estava ou mesmo onde estava.  vergonhoso, 
sei, mas veja do seguinte modo: alm do negcio de... voc sabe, do amor, ele era um dos melhores amigos que j tive. 
-  - falei. - Bem, acho que os traficantes de escravos no so meu prato predileto. Foi com um deles que voc se casou, no foi? Um traficante de escravos. Seu 
pai deve ter sentido tanto orgulho! 
Isso apagou o riso da cara dela. 
- Deixe meu pai de fora - rosnou Maria. 
- Ah, por que? Diga uma coisa, ele ficou chateado com voc? Seu pai. Voc sabe, por ter mandado matar Jesse? Porque imagino que ele ficaria. Quero dizer, basicamente, 
graas a voc, a famlia Silva acabou. E seus filhos com o tal de Diego, como j discutimos, acabaram virando uns imprestveis. Aposto que sempre que voc esbarra 
no seu pai por a, voc sabe, no plano espiritual, ele nem diz ol, diz? Isso deve doer. 
No sei quanto Maria entendeu, se e que entendeu alguma coisa. Mesmo assim pareceu bem furiosa. 
- Voc! - gritou ela. - Eu avisei! Disse para mandar sua famlia parar de cavar, mas voc me ouviu? E sua culpa ter perdido seu precioso Hector. Se tivesse ouvido, 
ele ainda estaria aqui. Mas no. Voc pensou que s porque  mediadora, uma pessoa especial que se comunica com os espritos,  melhor do que ns... melhor do que 
eu! Mas voc no  nada, nada, ouviu? Quem so os Simon? Quem so? Ningum! Eu, Maria Teresa de Silva, sou descendente da realeza, de reis e prncipes! 
Eu s ri. Quero dizer, srio. Qual ! 
- Ah, sim - falei. - E sem duvida foi um comportamento rgio matar o namorado daquele jeito. 
A expresso de Maria era como uma nuvem negra de tempestade sobre sua cabea. 
- Hector morreu porque ousou romper nosso noivado - sibilou ela numa voz apavorante. - Pensou em me desgraar na frente de todo mundo. A mim! Sabendo, como sabia, 
da linhagem real que corria em meu sangue. Sugerir que eu iria...
Uau. Essa era nova.
Espera um minuto. Ele fez o que? Mas Maria estava no maior pique. 
- Como se eu, Maria de Silva, fosse me permitir ser to humilhada. Hector tentou devolver minhas cartas e pediu as dele, e o anel, de volta. Disse que no podia 
se casar comigo depois do que ouviu dizer sobre mim e Diego. - Ela disse de modo desagradvel. - Como se no soubesse com quem estava falando! Como se no soubesse 
que estava falando com uma de Silva! 
Pigarreei. 
- Ah. Tenho bastante certeza de que ele sabia. Quero dizer, esse era o sobrenome dele tambm. Vocs dois no eram primos? 
Maria fez uma careta. 
- Sim. Tenho vergonha de dizer que compartilhei o nome e os avs, com aquele ... - Ela chamou Jesse de algo em espanhol que no pareceu nem um pouco lisonjeiro. 
- Ele no sabia com quem estava mexendo. No havia um homem no condado que no mataria pela honra de se casar comigo. 
- E certamente parece que pelo menos um homem no condado foi morto por recusar essa honra - no pude deixar de observar. 
- Por que ele no deveria ter morrido depois de me insultar dessa maneira? 
- Hmm, que tal porque o assassinato  ilegal? E porque mandar matar um cara por ele no querer se casar com voc  um ato de uma completa luntica, exatamente o 
que voc . Engraado como essa parte no foi parar nos jornais da histria. Mas no se preocupe. Eu garantirei que a noticia se espalhe. 
O rosto de Maria mudou. Antes tinha uma expresso enojada e irritada. Agora parecia assassino. 
O que era meio engraado. Se essa garota achava que algum no mundo se importava com o que uma dona metida a besta havia feito h um sculo e meio, estava tremendamente 
enganada. Tinha conseguido matar a nica pessoa para quem essa informao poderia ser ao menos remotamente interessante - o dr. Clive Clemmings, Ph.D. 
Mas aparentemente ainda estava cheia do negcio do "ns, os Silva, descendemos da realeza espanhola", j que partiu para cima de mim, anguas voando, e disse numa 
voz apavorante:
Garota estpida! Eu disse a Diego que voc era idiota demais para nos causar problemas, mas agora vejo que estava errada. Voc  tudo que eu ouvi falar sobre os 
mediadores: uma criatura desprezvel, que gosta de interferir! 
Fiquei lisonjeada, realmente. Ningum jamais havia me chamado de desprezvel. 
- Se eu sou desprezvel, o que isso torna voc? Ah, espere, no diga, j sei. Uma vaca de duas caras que gosta de esfaquear pelas costas, certo? 
A prxima coisa que vi foi que ela havia tirado aquela faca da manga e de novo estava apontando-a para a minha garganta. 
- No vou esfaquear voc pelas costas - garantiu Maria. -  seu rosto que eu quero retalhar.
- V em frente - falei e em seguida agarrei o pulso da mo que segurava a faca. - Quer saber qual foi seu grande erro? - Ela grunhiu enquanto, com um movimento hbil 
que aprendi no tae kwon do, torci seu brao as costas. - Dizer que foi culpa minha ter perdido o Jesse. Porque antes eu estava sentindo pena de voc. Mas agora estou 
apenas furiosa. 
Ento, dando uma joelhada na coluna vertebral de Maria de Silva, joguei-a esparramada no teto da varanda. 
- E quando estou furiosa - falei, arrancando a faca de seus dedos com a mo livre -, realmente no sei o que me d. Mas comeo a bater nas pessoas. Com muita, muita 
fora. 
Maria no estava recebendo nada disso com calma. Gritava a ponto de quase explodir. Mas principalmente em espanhol, por isso simplesmente a ignorei. De qualquer 
modo eu era a nica que podia ouvir. 
- Contei isso a terapeuta da minha me - informei, enquanto jogava a faca, com o mximo de fora possvel, no quintal dos fundos, ainda mantendo Maria presa com 
o peso do meu joelho. - E sabe o que ela disse? Que o gatilho do meu mecanismo de fria  sensvel demais. 
Agora que tinha me livrado da faca, inclinei-me para a frente e, com a mo que estava usando para manter o brao de Maria torcido as costas, segurei um punhado daqueles 
cachos pretos e brilhantes e puxei sua cabea para mim.
- Mas sabe o que eu disse a ela? Disse: no  o gatilho do meu mecanismo de fria que  supersensvel.  que as pessoas... s... ficam... me... enchendo... o... 
saco. 
Para enfatizar as ltimas sete palavras bati com a cara de Maria nas telhas da varanda. Quando levantei sua cabea depois da ultima vez, ela estava sangrando bastante 
pelo nariz e pela boca. Observei isso com grande distanciamento, como se outra pessoa tivesse causado aquilo, e no eu. 
- Ah - falei - Olha s isso. Que coisa desprezvel, que interferncia de minha parte! 
Ento bati seu rosto contra as telhas mais algumas vezes, dizendo: 
- Esta  por ter pulado em cima de mim enquanto eu estava dormindo e apertar uma faca na minha garganta. E essa e por ter feito Dunga comer insetos, e esta por ter 
matado Clive, e ah, sim, esta e por Jesse... 
No vou dizer que estava fora de mim, de tanta fria. 
Estava louca. Louca de monto. Mas sabia exatamente o que estava fazendo. 
E no era bonito. Ei, sou a primeira a admitir. Quero dizer, a violncia nunca  a resposta, certo? A no ser, claro, que a pessoa que voc est espancando j esteja 
morta. 
Mas s porque h 150 anos aquela garota mandou matar um amigo meu, sem motivo alm de ele, com todo o direito, querer cancelar um casamento com ela, ela no merecia 
ter o rosto arrebentado. 
De jeito nenhum. O que merecia era ter cada osso do corpo quebrado. 
Mas infelizmente, quando por fim soltei o cabelo de Maria e me levantei para fazer exatamente isso notei um brilho a esquerda.
"Jesse", pensei com o corao dando uma outra daquela
Mas, claro que no era o Jesse. Quando virei a cabea o que vi se materializando ali era um homem muito alto de bigode e cavanhaque escuros, vestindo roupas um tanto 
semelhantes as de Jesse, s que muito mais chiques - como se fosse um Zorro de festa a fantasia. As calas pretas e justas tinham uma elaborada filigrana prateada 
descendo pela lateral de cada perna, e a camisa branca tinha aquelas mangas fofas que os piratas sempre usam nos filmes.
Alm disso havia um bocado de trabalho em prata no coldre tambm, e em volta da aba de seu chapu preto, de caubi. 
E no parecia muito feliz em me ver.
- Certo - falei, pondo as mos nos quadris. - Espere, no diga. Diego, estou certa?
Sob o bigode fininho, seu lbio superior se enrolou. 
- Acho que eu lhe disse para deixar essa a por minha conta - falou Maria, que estava se sentando e encostando a manga da blusa no nariz que sangrava. 
Maria estava fazendo um monte de rudos fungados e finos. Dava para ver que nunca tivera o nariz quebrado, porque no estava inclinando a cabea para trs para interromper 
o sangramento. 
Amadora. 
- Achei que poderia ser mais divertido brincar com ela - disse Maria numa voz temperada com dor. E arrependimento. 
Diego balanou a cabea, enojado. 
- No - disse ele. - Com mediadores no se brinca. Achei que tinha deixado isso claro desde o incio. Eles so perigosos demais. 
- Desculpe, Diego. - A voz de Maria assumiu um tom lamentoso que eu no tinha ouvido antes. Percebi que ela era uma daquelas garotas que tem uma voz "para os caras", 
uma voz que ela s usa quando h homens por perto. - Eu deveria ter feito o que voc disse. 
Era a minha vez de ficar com nojo. 
- Ol - falei a Maria. - Estamos no sculo XXI. Agora as mulheres podem pensar por conta prpria, voc sabe. 
Maria s me olhou por cima da manga que estava encostada no nariz sangrento. 
- Mate-a para mim - disse ela naquela voz gemida, de menininha. 
Diego deu um passo na minha direo, com uma expresso que dizia que estava felicssimo em obedecer a amada. 
- Ah, o que? - falei. Eu nem estava com medo. No me importava mais. O entorpecimento no corao tinha tornado conta do corpo todo. - Voc sempre faz o que ela manda? 
Sabe, hoje ns temos uma expresso para isso: capacho de mulher. 
Aparentemente ele no conhecia a expresso, ou simplesmente no se importava, j que continuou vindo. Diego usava esporas, e elas faziam um barulho sinistro nas 
telhas da varanda.
Sabe - falei, mantendo a posio. - Vou lhe dizer uma coisa. Sabe esse cavanhaque? , est totalmente por fora. E, sabe, essas jias esto mais por fora ainda.  
s algo em que talvez voc queira pensar. Na verdade acho bom voc ter aparecido, porque eu queria lhe dizer umas coisinhas. Nmero um: sabe sua mulher? , ela  
uma vagabunda. E nmero dois: sabe aquela coisa de ter matado Jesse e depois enterrado os restos dele l atrs? , isso no foi maneiro. Porque veja bem, agora eu 
tenho de ... 
S que no tive chance de dizer a Felix Diego o que faria com ele. Porque ele me interrompeu. Falou numa voz profunda e surpreendentemente ameaadora, para um cara 
de cavanhaque: 
- H muito tempo minha convico  que mediador bom  mediador morto. 
Ento, antes que eu pudesse ao menos piscar, ele lanou os braos em volta de mim. Achei que estava tentando me abraar, ou algo do tipo, o que teria sido bem estranho. 
Mas no era isso que ele estava fazendo. No. O que estava fazendo, na verdade, era me jogar do telhado da varanda. 
Ah, sim. Ele me jogou bem no buraco onde a minipiscina quente ficaria. Bem onde haviam encontrado os restos de Jesse, naquela tarde mesmo. 
O que achei meio irnico, na verdade. Pelo menos enquanto ainda fui capaz de pensar.
O que no durou muito, j que perdi a conscincia pouco depois de bater no cho.



    Captulo 10


H uma coisa sobre os mediadores: somos duros de matar. 
Srio. Voc no acreditaria no numero de vezes em que fui derrubada, arrastada, pisoteada, socada, chutada, mordida, arranhada, acertada na cabea, mantida embaixo 
d'gua, alvejada por tiros e jogada de telhados. 
Mas morri? Alguma vez tive um ferimento que ameaasse a vida? 
No. Quebrei ossos - um bocado. Fiquei com um monto de cicatrizes. 
Mas o fato  que quem - ou o que - criou os mediadores nos deu uma arma natural, pelo menos, para usar na luta contra os defuntos. No, no uma fora sobre-humana, 
ainda que isso seria bem prtico. No, o que ns, o padre Dom e eu - e Jack, provavelmente, ainda que eu duvide que ele tenha tido a oportunidade de usar -, temos 
e uma casca suficientemente dura para suportar todos os abusos que so causados contra ns. 
Motivo pelo qual, mesmo que uma queda daquelas devesse ter me matado, no matou. Nem de longe. 
No, claro, que Maria de Silva e seu amado no imaginassem que tiveram sucesso. Devem ter imaginado, caso contrrio teriam ficado ali para terminar o servio. Mas 
quando acordei, horas depois, grogue e com uma cabea em que voc no acreditaria, eles no estavam por perto. 
Sem dvida eu tinha ganhado o primeiro assalto. Bem, pelo menos figurativamente. Quero dizer, no estava morta nem nada, e isso, no meu livro,  um ponto positivo. 
O que eu tinha era uma concusso. Soube imediatamente porque tenho o tempo todo. Quero dizer, concusses. 
Bem, certo, tive duas vezes. 
De qualquer modo no  muito agradvel, uma concusso. Basicamente voc sente nsias de vomito e fica toda dolorida, mas, de modo pouco surpreendente, sua cabea 
di mais do que tudo. No meu caso foi ainda pior, porque, como fiquei deitada no fundo daquele buraco durante tanto tempo, o orvalho teve chance de cair. Tinha se 
acumulado na minha roupa, encharcado tudo e feito com que ficassem pesadas. Por isso, me arrastar daquele buraco que Andy e Dunga haviam cavado se tornou uma tarefa 
pesadssima.
De fato, j ia amanhecendo quando finalmente consegui entrar de novo em casa - graas a Deus, Soneca tinha deixado a porta da frente aberta quando veio de seu grande 
encontro. 
Mesmo assim eu precisei subir toda a escada. Foi muito lento. Pelo menos, quando entrei no quarto e finalmente consegui tirar toda a roupa encharcada e enlameada, 
no precisei me preocupar, pela primeira vez, com a possibilidade de Jesse me ver pelada. 
Porque, claro, Jesse tinha ido embora. 
Tentei pensar nisso enquanto me arrastava para a cama e fechava os olhos. Essa estratgia - a de no pensar em Jesse ter ido embora - pareceu funcionar bastante 
bem. Acho que dormi antes que esse pensamento tivesse realmente a chance de chegar. 
S acordei bem depois das oito. Aparentemente Soneca tinha tentado me acordar para o trabalho, mas eu estava apagada demais. Eles me deixaram dormir, acho, porque 
todos presumiram que eu estava perturbada pelo que havia acontecido na vspera, pelo esqueleto encontrado no quintal dos fundos. 
Apenas gostaria de ter s isso com que me preocupar.
*#Quando o telefone tocou, pouco depois das nove, e Andy gritou escada acima dizendo que era para mim, eu j estava de p, com um agasalho de moletom, examinando 
o
enorme hematoma que havia surgido sob os cabelos da testa. Parecia uma aliengena. Sem brincadeira. Era um espanto no ter quebrado o pescoo. Estava convencida
de que Maria e seu namorado achavam que era exatamente isso que tinha acontecido. Era o nico motivo para eu ainda estar viva. Os dois eram to presunosos que no
tinham ficado para garantir que eu estivesse bem morta.
Obviamente nunca haviam encontrado um mediador. E preciso muito mais do que uma queda de telhado para matar um de ns.
- Suzannah. - A voz do padre Dominic, quando atendi ao telefone, estava cheia de preocupao. - Graas a Deus voc esta bem. Fiquei to preocupado... Mas voc no
foi, no ? Ao cemitrio ontem a noite?
No. - Afinal de contas no tive motivo para ir. O cemitrio tinha vindo at mim.
Mas no falei ao padre D. Em vez disso, perguntei: - O senhor voltou?
- Voltei. Voc no contou a eles, contou? Quero dizer, a sua famlia.
- Ah ... - falei incerta.
- Suzannah, voc deve. Deve realmente. Eles tem o direito de saber. Estamos lidando com um caso muito srio de assombrao. Voc poderia ser morta, Suzannah ...
No quis mencionar que j havia chegado bem perto. Naquele momento soou o toque de chamada em espera.
Falei: 
- Padre D., pode esperar um segundo? - E apertei o boto para atender. 
Uma voz aguda, vagamente familiar, falou no meu ouvido, mas nem me esforando eu conseguiria situ-la. - Suze?  voc? Voc est bem? Est doente ou algo assim? 
- Ah - falei extremamente perplexa. - . Acho que sim. Mais ou menos. Quem ? 
A voz respondeu muito indignada: 
- Eu, Jack! 
Ah, meu Deus. Jack. Trabalho. Certo. - Jack. Como conseguiu meu nmero? 
- Voc deu ao Paul. Ontem. No lembra? 
No lembrava, claro. De ontem s conseguia realmente lembrar que Clive Clemmings estava morto, o retrato de Jesse estava desaparecido ... 
E que Jesse, claro, tinha ido embora. Para sempre. 
Ah, e toda a parte em que o fantasma de Felix Diego tentou rachar minha cabea. 
- Ah. . Certo. Olha, Jack, eu estou com algum na outra... - Suze - interrompeu Jack. - Voc deveria me ajudar a dar cambalhota embaixo d'gua hoje. 
- Eu sei. Sinto muito, mesmo. S que... realmente no pude ir trabalhar hoje, rapaz. Sinto muito. No  nada contra voc. Eu s precisava de um dia de folga. 
- Voc esta parecendo muito triste - disse Jack, tambm parecendo bem triste. - Achei que estaria bem feliz. 
- Achou? - Imaginei se o padre D. ainda estava esperando na outra linha ou se havia desligado, cheio de indignao. Percebi que estava tratando-o tremendamente mal. 
Afinal de contas ele havia interrompido seu pequeno retiro por minha causa. - Por que? 
- Por causa do modo como eu...
Foi ento que vi. S um brilho fraqussimo, perto do sof-cama. Jesse? De novo meu corao deu uma daquelas cambalhotas. Estava mesmo ficando pattico quando eu 
pulava a cada vez que via o mais leve tremeluzir, achando que era Jesse. 
No era. 
Tambm no era Maria ou Diego - graas a Deus. Sem dvida nem eles teriam ousadia suficiente para tentar me atacar em plena luz do dia... 
- Jack - falei ao telefone. - Preciso desligar. 
- Espera, Suze, eu ... 
Mas eu tinha desligado. Porque, sentado ali no meu sof-cama, parecendo profundamente infeliz, estava o dr. Clive Clemmings, Ph.D. 
Sorte minha: desejar um Jesse e ganhar um Clive.
- Ah - disse ele, piscando por trs das lentes dos culos fundo de garrafa. Parecia quase to surpreso em me ver quanto eu em v-lo materializado ali no meu quarto. 
-  voc. 
S balancei a cabea. Algumas vezes meu quarto parece urna estao de trem. 
- Bem, eu simplesmente no... - Clive Clemmings ficou mexendo em sua gravata-borboleta. - Quero dizer, quando disseram que eu deveria contatar um mediador, eu no... 
quero dizer, no esperei... 
- ... que o mediador fosse eu - terminei para ele. - . Ouo isso um bocado. 
- S que - disse Clive em tom de desculpas -, que voc  to ... 
S o encarei irritada. Realmente no estava no clima. E voc pode me culpar? Com a concusso e tudo 0 mais? 
- Que eu sou to o que? Mulher?  isso? Ou vai tentar me convencer de que est chocado com minha inteligncia sobrenatural? 
- Bem - disse Clive Clemmings. - Jovem. Foi o que quis dizer... e s que voc e to jovem! 
Afundei no banco da janela. Verdade, o que fiz para merecer isso? Quero dizer, ningum quer ser visitado pelo espectro de um cara como Clive. Tenho quase certeza 
de que ningum queria que ele fizesse uma visita quando estava vivo. Ento por que eu? 
Ah, sim. O negcio de ser mediadora. 
- A que devo o prazer, Clive? - Provavelmente deveria t-lo chamado de dr. Clemmings, mas estava com muita dor de cabea para demonstrar respeito pelos mais velhos.
- Bem, no sei. Quero dizer, de repente a sra. Lampbert, minha recepcionista, sabe?, no esta atendendo quando a chamo, e quando as pessoas telefonam para mim, bem, 
ela diz... a coisa mais horrvel. Simplesmente no sei o que deu nela. - Clive pigarreou. - Veja bem, ela est dizendo que eu estou... 
- Morto - terminei para ele. 
Os olhos de Clive ficaram perceptivelmente maiores por trs dos culos. 
- Bom, isso  extraordinrio. Como  que voc sabe? Bem, sim, claro, afinal de contas voc  mediadora. Disseram que entenderia. Mas verdade, srta. Ackerman, os 
ltimos dias foram extremamente exaustivos. No estou me sentindo como eu era, e... 
- Isso - interrompi -  porque voc esta morto. Normalmente eu teria sido um pouquinho mais gentil, mas acho que ainda sentia um certo n de ressentimento com o 
velho Clive por ter descartado daquele jeito minha sugesto de que Jesse podia ter sido assassinado. 
- Mas isso no  possvel. - Clive repuxou a gravata. borboleta. - Quero dizer, olhe para mim. Eu estou claramente aqui. Voc est falando comigo ... 
-  porque sou mediadora, Clive. Esse  o meu trabalho. Ajudar pessoas como voc a ir em frente depois de terem... voc sabe. - Como ele claramente no sabia, fui 
mais clara: - Batido as botas. 
Clive piscou rapidamente vrias vezes. 
- Eu... eu... ah, minha nossa! 
- . Est vendo? Agora vejamos se podemos deduzir por que voc est aqui e no no feliz cu dos historiadores. Qual  a ltima coisa de que voc se lembra? 
Clive tirou a mo do queixo. 
- Perdo? 
- Qual  a ltima coisa que voc lembra - repeti - antes de notar que estava... bem, invisvel para a sra. Lampbert? 
- Ah. - Clive coou a careca. - Bem, eu estava sentado  minha mesa, olhando aquelas cartas que voc trouxe. Foi gentileza seu padrasto pensar em ns. As pessoas 
costumam desconsiderar a sociedade histrica local quando, voc sabe, sem ns, o tecido da cultura local seria permanentemente...
- Clive. - Sei que eu estava sendo grosseira, mas no podia evitar. - Olha, ainda nem tomei o caf-da-manh. Pode ir em frente, por favor? 
- Ah. - Ele piscou mais um pouco. - Sim. Claro. Bem, como eu dizia, estava examinando as cartas que voc me trouxe. Desde que voc saiu da minha sala no outro dia 
estive pensando no que voc disse ... sobre Hector de Silva parece um tanto improvvel que um rapaz que escreveu de modo to amoroso sobre a famlia simplesmente 
fosse embora sem dizer uma palavra. E o fato de voc ter encontrado as cartas de Maria enterradas no quintal do que j foi uma penso bem conhecida ... Bom, devo 
dizer que, pensando mais, toda a coisa me pareceu extremamente esquisita. Peguei meu ditafone e estava fazendo algumas anotaes para a sra. Lampbert digitar mais 
tarde quando subitamente senti. .. bem, um arrepio. Como se algum tivesse posto o ar-condicionado no mximo. Mas posso garantir que a sra. Lampbert no faria isso. 
Alguns dos nossos artefatos devem ser mantidos em climas atmosfricos altamente controlados, e ela nunca... 
- No era o ar -condicionado - falei em tom curto e grosso. Ele me olhou, claramente espantado. 
- No. No, no era. Porque um instante depois captei um cheiro levssimo de flor de laranjeira. E voc sabe que Maria Diego era bem conhecida por usar gua de toalete 
com perfume de flor de laranjeira. Foi estranho demais. Porque um segundo depois pude jurar que, por um momento ... - A expresso de seus olhos, por trs das lentes 
grossas, ficou distante. - Bem, por um momento eu teria jurado que a vi. S com o canto do olho. Maria de Silva Diego ... 
A expresso distante abandonou seus olhos. Quando me encarou em seguida o olhar era afiado como laser.
- E ento senti - disse ele numa voz muito controlada - uma dor lancinante, subindo e descendo pelo brao. Eu sabia o que era, claro. Minha famlia sofre de doena 
cardaca congnita. Isso matou meu avo, voc sabe, logo depois de ele ter seu livro publicado. Mas, diferentemente dele, tenho sido extremamente diligente com a 
alimentao e o regime de exerccios. S podia ter sido o choque, voc sabe, de ver ... pelo menos de pensar ter visto ... algo que no era ... que no poderia ... 

Ele parou, depois prosseguiu: 

- Bem, tentei pegar o telefone para ligar imediatamente para 911, mas ele ... bem ... o telefone meio que ... pulou da minha mesa. 

S fiquei olhando-o. Precisava admitir que nesse ponto estava sentindo pena. Quero dizer, ele fora assassinado, como o Jesse. E pela mesma mo. Bem, mais ou menos. 

- No pude alcan-lo - disse Clive com tristeza. - Quero dizer, o telefone. E essa ... essa  a ultima coisa de que me lembro. 
Lambi os lbios. 
- Clive, o que voc estava dizendo? Ao telefone. Logo antes de v-la. De ver Maria de Silva? 
- O que eu estava dizendo? Ah, claro. Estava dizendo que achava bom investigar mais, parecia que o que voc tinha sugerido, e aquilo em que meu av sempre acreditou, 
talvez pudesse ter algum mrito ... 
Balancei a cabea. No dava para acreditar. 
- Ela matou voc - murmurei. 
- Ah. - Clive no estava mais piscando nem repuxando a gravata-borboleta. S ficou ali parado, parecendo um espantalho de quem haviam arrancado o mastro. - . Acho 
que voc poderia dizer isso. Mas s como uma figura de linguagem. Quero dizer, afinal de contas, foi o choque. Mas no que ela...
- Para impedi-lo de contar a algum o que eu falei. Apesar da dor de cabea, eu estava ficando furiosa outra vez. - E matou seu av tambm, do mesmo modo. 
Ento Clive piscou, de modo interrogativo.
- Meu... meu av? Voc acha? Bem, devo dizer... bom, a morte dele foi bem sbita, mas no houve sinal de... - Sua expresso mudou. - Ah. Ah. Sei. Voc acha que meu 
av foi morto pelo fantasma de Maria de Silva Diego para que ele no escrevesse mais sobre sua teoria relativa ao desaparecimento do primo dela?
-  um modo de dizer. Ela no queria que ele contasse a verdade sobre o que aconteceu com Jesse. 
- Jesse? Quem  Jesse? 
Ns dois quase pulamos ao ouvir uma batida na porta. 
- Suze? - gritou meu padrasto. - Posso entrar? . 
Numa lufada de agitao, Clive se desmaterializou Eu mandei entrar, e a porta se abriu e Andy ficou ali parado, sem jeito. Ele nunca entra no meu quarto, a no ser, 
ocasionalmente, para consertar coisas.
- Ah, Suze? Bem, voc tem uma visita. O padre Dominic est ...
Andy no terminou porque o padre Dominic apareceu logo atrs dele. 
No posso realmente explicar por que fiz o que fiz. No h outra explicao para isso, alm do simples fato de que, bem, nos seis meses em que o conheo, passei 
realmente a sentir algo pelo velho. 
De qualquer modo, ao v-lo pulei do banco da janela, de modo totalmente involuntrio, e me joguei contra ele. O padre Dominic ficou um bocado surpreso com essa demonstrao 
explcita de emoo, j que normalmente sou um tanto reservada. 
- Ah, padre D. - falei para a frente da camisa do padre Dominic. - Estou to feliz em ver o senhor. 
E estava mesmo. Finalmente - finalmente - alguma normalidade retomava ao meu mundo que parecia ter virado totalmente de cabea para baixo nas ultimas 24 horas. O 
padre Dominic tinha voltado. O padre Dominic cuidaria de tudo. Sempre cuidava. S ficar ali abraando-o e sentindo seu cheiro sacerdotal, que era de Woolite e, mais 
levemente, do cigarro que tinha fumado escondido no carro, durante a vinda, senti que tudo ia ficar bem.
- Ah - disse o padre Dominic. Dava para sentir sua voz reverberando dentro do meu peito, junto com os pequenos rudos que o estmago dele fazia ao digerir o que 
quer que ele tivesse comido no caf-da-manh. - Minha nossa! - o padre Dominic me deu tapinhas desajeitados no ombro. 
Atrs de ns, ouvi Dunga dizer: - O que  que deu nela? 
Andy mandou-o ticar quieto. 
- Ah, qual  - disse Dunga. - Ela no pode ainda estar perturbada por causa daquele esqueleto estpido que a gente achou. Quero dizer, esse tipo de coisa no deveria 
incomodar a rainha do povo da noite. 
Dunga interrompeu a frase com um grito de dor. Olhei em volta do ombro do padre D. e vi Andy puxando o filho do meio pela orelha, corredor afora. 
- Corta essa, pai! - berrava Dunga. - Ai! Pai, pra com isso! 
Uma porta bateu. No fim do corredor, no quarto de Dunga, Andy estava citando para ele a lei contra motins. 
Soltei o padre D. 
- O senhor andou fumando - falei. 
- S um pouquinho. - Ao ver minha expresso, ele deu de ombros, impotente. - Bem, foi uma longa viagem dirigindo. E eu tinha certeza de que, quando chegasse aqui, 
ia achar todos vocs assassinados nas camas. Voc realmente tem o modo mais alarmante de entrar em encrencas, Suzannah. 
- Sei disso. - Suspirei e fui sentar no banco da janela, envolvendo um dos joelhos com os braos. Estava com um agasalho de moletom e no tinha me incomodado em 
passar maquiagem nem lavar o cabelo. De que adiantaria? 
O padre D. no pareceu notar minha aparncia medonha. 
Continuou, como se estivssemos em sua sala, falando sobre levantamento de verbas com o governo, para os alunos, ou algo completamente incuo assim.
- Trouxe um pouco de gua benta. Est no meu carro. Vou dizer a seu pai que voc me pediu para abenoar a casa, devido ... e ...  descoberta de ontem. Ele pode 
se espantar por voc estar subitamente abraando a igreja, mas voc ter de comear a insistir em dar as graas na hora do jantar, ou talvez ate em freqentar a 
missa de vez em quando, para convenc-lo de sua sinceridade. Andei lendo um pouco sobre aqueles dois, Maria de Silva e o tal de Diego, e eles eram bastante devotos. 
Assassinos, parece, mas tambm carolas. Acho que ficaro bem relutantes em entrar numa casa que foi santificada por um padre. - O padre Dominic me olhou, preocupado. 
- O que pode acontecer quando voc puser os ps fora desta casa  que me preocupa. No minuto em que voc ... santo Deus, Suzannah. - O padre Dominic parou e me olhou 
com curiosidade. - O que aconteceu com sua testa? 
Levantei a mo e toquei o hematoma sob o cabelo. 
- Ah - falei, me encolhendo um pouco. O ferimento ainda estava dolorido. - Nada. Olha, padre D ... 
- No diga que isso no  nada. - O padre Dominic deu um passo adiante e depois respirou profundamente. - Suuzannah! Onde, em nome do cu, voc conseguiu esse machucado 
feio? 
- No  nada - falei, puxando o cabelo sobre os olhos. -  s uma pequena demonstrao da estima de Felix Diego. 
- Esta marca no  bobagem - declarou o padre Dominic. - Suzannah, j lhe ocorreu que voc pode ter tido uma concusso? Deveramos fazer um raio X imediatamente. 
- Padre Dominic ... 
- Sem discusso, Suzannah. Calce um sapato. Vou conversar com seu padrasto, depois vamos ao hospital de Carmel. 
O telefone tocou, ruidoso. Eu lhe disse, isso aqui  a prpria estao de trens. Atendi, principalmente para me dar tempo de pensar numa desculpa para no ir ao 
hospital. Uma ida  emergncia exigiria uma historia sobre como eu tinha obtido este ltimo ferimento, e, francamente, estava ficando sem boas histrias. 
- Al? - falei ao aparelho enquanto o padre D. me fazia um muxoxo.
- Suze? - a familiar vozinha aguda. - Sou eu de novo. O Jack. 
- Jack - falei cansada. - Olha, eu disse antes. Realmente no estou me sentindo bem ... 
-  isso a. Fiquei pensando que voc podia no ter ouvido. E ento achei que podia contar. Porque sei que voc vai se sentir melhor quando souber. 
- Souber o que, Jack? 
- Como eu mediei aquele fantasma para voc. 
Deus, minha cabea estava latejando. No estava no clima para isso. 
- Ah, ? Que fantasma, Jack? 
- Voc sabe. O cara que estava incomodando voc. O tal de Hector. 
Quase larguei o telefone. Na verdade larguei, mas estendi as mos depressa e o peguei antes que casse no cho. Ento segurei de novo junto ao ouvido, com as duas 
mos, para ter certeza de que estava escutando direito. Fiz tudo isso com o padre Dominic me olhando. 
- Jack - falei, sentindo como se todo o ar tivesse escapado de mim. - O que voc est falando? 
- Aquele cara. - Seu tom infantil tinha ficado indignado. - Voc sabe, o que no queria deixar voc em paz. Aquela moa, Maria, me disse... 
- Maria? - Eu tinha esquecido tudo sobre a dor de cabea, sobre o padre Dom. Praticamente gritei ao telefone. - Jack, o que voc est falando? Que Maria? 
- Aquela fantasma da antiga - disse Jack, parecendo sem graa. - A boazinha, que a gente viu o retrato na sala daquele careca. Ela disse que o tal de Hector, o da 
outra pintura, a pequenina, estava incomodando voc, e que se eu quisesse fazer uma bela surpresa, deveria exer... deveria exor... deveria... 
- Exorciz-lo? - Os ns dos meus dedos tinham ficado brancos em volta do aparelho. - Exorciz-lo, Jack? Foi o que voc fez? 
-  - disse Jack, parecendo muito satisfeito consigo mesmo. - , foi isso mesmo. Eu exorcizei ele.

   Captulo 11
Afundei no banco da janela. 
- O que ... - meus lbios estavam entorpecidos. No sei se era uma complicao da concusso ou o qu, mas de repente no conseguia sentir os lbios. - O que voc 
disse, Jack? 
- Eu exorcizei ele para voc. - Jack parecia imensamente satisfeito. - Sozinho. Bem, a dona ajudou um pouco. Deu certo? Ele foi embora? 
Do outro lado do quarto o padre Dominic estava me olhando com ar interrogativo. No  de espantar. Minha conversa, ouvida deste lado, devia parecer totalmente bizarra. 
Afinal de contas eu no tinha tido chance de lhe falar sobre o Jack. 
- Suze? - disse Jack. - Voc ainda esta a? 
- Quando? - murmurei atravs dos lbios entorpecidos. 
- O qu? 
- Quando, Jack. Quando voc fez isso? 
- Ah. Ontem  noite. Enquanto voc estava fora com meu irmo. Veja s, a tal de Maria veio aqui e trouxe aquela pintura e umas velas, e ento falou o que eu deveria 
dizer, e eu disse, e foi bem maneiro, porque comeou a sair uma fumaa vermelha das velas, que foi girando e girando, e ento se abriu um buraco enorme no ar, acima 
da cabea da gente, e eu olhei dentro e era bem escuro, e ento falei mais umas palavras, e ento o cara apareceu, e foi sugado bem l para dentro. 
No falei nada. O que poderia dizer? O garoto havia acabado de descrever um exorcismo - pelo menos todos os que eu tinha visto. No estava inventando. Tinha exorcizado 
Jesse. Tinha exorcizado Jesse. Jesse fora exorcizado. 
- Suze - disse Jack. - Suze, voc ainda esta a? 
- Ainda estou. - Acho que devia estar com uma cara medonha, porque o padre Dom veio e se sentou no banco da janela, ao meu lado, parecendo todo preocupado. 
E por que no? Eu estava em choque. 
E era um tipo de choque diferente de todos que eu j tivera. No era como ser jogada de um telhado ou sentir uma faca na garganta. Era pior. Porque no dava para 
acreditar. Simplesmente no dava. 
Jesse tinha mantido a promessa. No tinha desaparecido porque seus restos finalmente haviam sido encontrados, provando que fora assassinado. Tinha desaparecido porque 
Maria de Silva mandou exorciz-lo. 
- Voc no est com raiva de mim, est? - perguntou Jack, preocupado. - Quero dizer, eu fiz a coisa certa, no foi? A tal de Maria disse que Hector era muito mau 
com voc, e que voc agradeceria ... - Houve um rudo ao fundo, e ento Jack falou: -  Caitlin. Ela quer saber quando voc vai voltar. Quer saber se voc pode vir 
esta tarde, porque ela precisa ... 
Mas no fiquei sabendo o que Caitlin precisava fazer. 
Porque eu tinha desligado. 
Simplesmente no podia ouvir aquela vozinha doce dizendo coisas horrveis, medonhas, nem por mais um segundo. 
O negcio era que aquilo no penetrava na minha cabea. 
De jeito nenhum. Eu entendia intelectualmente o que Jack tinha acabado de dizer, mas emocionalmente no estava registrando. 
Jesse no tinha ido deste plano ao prximo - pelo menos no por sua livre vontade. Tinha sido arrancado da existncia aqui do mesmo modo como fora arrancado da vida 
e, em ultima instncia, pelas mesmas mos. 
E por qu? 
Pelo mesmo motivo pelo qual fora morto: para no causar vergonha  Maria de Silva. 
- Suzannah. - A voz do padre Dominic era gentil. - Quem  Jack? 
Levantei a cabea, espantada. Tinha praticamente esquecido que o padre D. estava no quarto. Mas ele no estava simplesmente no quarto. Estava sentado ao meu lado, 
com os olhos azuis cheios de preocupao. 
- Suzannah - disse ele. O padre Dom nunca me chama de Suze, como todo mundo. Uma vez perguntei o motivo, e ele disse que achava Suze vulgar. Vulgar! Na hora achei 
uma piada. Ele  to engraado, to antiquado! 
Jesse tambm nunca me chamou de Suze. 
- Jack  um mediador - falei. - Tem oito anos. Eu estava trabalhando como bab dele, no hotel. 
O padre Dominic ficou surpreso. 
- Um mediador? Verdade? Que extraordinrio! - Ento sua expresso de surpresa voltou a ser de preocupao. - Voc deveria ter me telefonado imediatamente no momento 
em que ficou sabendo, Suzannah. No h muitos mediadores no mundo. Eu gostaria muito de falar com ele. Mostrar o caminho, por assim dizer. Voc sabe, h muita coisa 
que um jovem mediador deve aprender. Talvez no fosse bom voc assumir o treinamento de um deles, Suzannah, dada sua comparativa juventude ... 
-  - falei com um riso amargo. Para meu espanto, o som ficou preso na garganta, como uma espcie de soluo. - Nem diga! 

No dava para acreditar. Eu estava chorando de novo. Que negcio era esse, afinal? Quero dizer, essa coisa de chorar? Durante meses fico seca que nem um osso, e 
de repente abro o berreiro sem mais nem menos. 
- Suzannah. - O padre Dominic segurou meu brao e me deu uma leve sacudida. Pela sua expresso dava para ver que estava realmente pasmo. Como falei, eu nunca choro. 
- Suzannah, o que  isso? Voc est chorando, Suzannah? 
S pude confirmar com a cabea. 
- Mas por que, Suzannah? - perguntou ele ansioso. - Por qu? Por causa do Jesse?  difcil, e eu sei que voc vai sentir falta dele, mas ... 
- O senhor no entende. - Eu estava com problema para enxergar. Tudo tinha ficado muito turvo. No podia ver minha cama nem o estampado das almofadas no banco da 
janela, e elas estavam muito mais perto. Levantei as mos diante do rosto, pensando que talvez o padre Dom estivesse certo e que eu deveria tirar um raio-X, afinal 
de contas. Evidentemente havia alguma coisa errada com minha viso. 
Mas quando meus dedos encontraram o molhado nas bochechas, fui obrigada a admitir a verdade. No havia nada errado com minha viso. Meus olhos estavam simplesmente 
transbordando de lgrimas. 
- Ah, padre - falei, e pela segunda vez em meia hora envolvi com os braos o pescoo de um padre. Minha testa colidiu com os culos dele, que ficaram tortos. Dizer 
que o padre Dominic ficou espantado com esse gesto seria um eufemismo do tipo mais grotesco. 
Mas avaliando pelo modo como ele se imobilizou quando as pronunciei, ele ficou ainda mais surpreso com as palavras que saram da minha boca. 
- Ele exorcizou o Jesse, padre D. Maria de Silva o enganou para que fizesse isso. Disse ao Jack que Jesse estava me in-incomodando, e que ele me f-faria um favor, 
livrando-se dele. Ah, padre Dominic ... - Minha voz cresceu at um uivo. - O que eu vou fazer? 
Pobre padre Dominic. Duvido tremendamente de que tenha mulheres chorando histricas e o abraando com muita freqncia. D para ver totalmente. Ele no sabia como 
reagir. Quero dizer, me deu tapinhas no ombro e disse "Shhh, tudo vai dar certo", e coisas do tipo, mas dava para ver que o sujeito estava realmente desconfortvel. 
Acho que tinha medo de que Andy aparecesse e achasse que eu estava chorando por causa de algo que ele tinha dito. 
O que era ridculo, claro. Como se alguma coisa que algum dissesse fosse me fazer chorar. 
Depois de alguns minutos com o padre Dom dizendo "Shhh, tudo vai dar certo" e ficando todo rgido, no pude deixar de rir. 
Srio. Quero dizer, era engraado. De um modo triste e pattico. 
- Padre Dominic - falei, afastando-me e olhando-o atravs dos olhos chorosos. - Est brincando? Tudo no vai dar certo. Est bem? Nada nunca mais vai dar certo. 
O padre Dominic podia no ser muito bom de abrao, mas estava com tudo no departamento de lenos. Eu j o tinha visto fazer isso com as crianas pequenas na escola, 
as do jardim -de- infncia que choravam por causa de sorvetes cados no cho ou algo assim. Ele realmente era bom em enxugar. 
- Ora, Suzannah - disse ele enquanto enxugava. - Isso no  verdade. Voc sabe que no . 
- Padre, eu sei que . Jesse foi embora e a culpa  totalmente minha. 
- Como a culpa  sua? - o padre Dominic me olhou, desaprovando. - Suzannah, no  sua culpa. 
-  sim. O senhor mesmo disse. Eu deveria ter ligado para o senhor no minuto em que percebi a verdade sobre Jack. Mas no liguei. Achei que podia cuidar dele sozinha. 
Achei que no era grande coisa. E agora olha o que aconnteceu. Jesse foi embora. Para sempre. 
-  uma tragdia - disse o padre Dominic. - No consigo pensar numa injustia maior. Jesse era um amigo muito bom para voc ... para ns dois. Mas o fato, Suzannah... 
- Ele tinha conseguido enxugar quase todas as minhas lgrimas, e guardou o leno. - ...  que ele passou muitos anos vagueando numa espcie de meia-vida. Agora suas 
lutas acabaram, e talvez ele possa comear a desfrutar das recompensas justas. 
Estreitei os olhos. O que o sujeito estava falando? 
Ele deve ter lido o ceticismo no meu rosto, porque disse: - Bom, pense nisso, Suzannah. Durante 150 anos Jesse esteve preso numa espcie de submundo entre a vida 
passada e a prxima. Ainda que voc possa lamentar o modo como isso aconteceu, pelo menos ele deu o salto para o destino final... 
Afastei-me bruscamente do padre D. Na verdade, me afastei do banco da janela. Fiquei de p, dei alguns passos e depois girei, pasma com o que tinha escutado. 
- O que o senhor est falando? Jesse estava aqui por um motivo. No sei qual era, e no sei se ele tambm sabia. Mas, qualquer que fosse, ele deveria ficar aqui, 
neste "submundo", at descobrir o que era. Agora nunca mais vai poder. Agora no saber por que ficou aqui por tanto tempo. 
- Entendo isso, Suzannah - disse o padre Dominic numa voz que achei irritantemente calma. - E, como falei antes,  uma infelicidade, uma tragdia. Mas, independentemente 
disso, Jesse foi em frente, e pelo menos devemos ficar felizes por ele ter encontrado a paz eterna ... 
- Ah, meu Deus! - Eu estava gritando de novo, mas no me importei. Estava furiosa. - Paz eterna! Como sabe que foi isso que ele encontrou? O senhor no sabe. 
- No. 
Dava para ver que agora o padre Dominic estava escolhendo as palavras com cuidado. Como se eu fosse uma bomba que poderia explodir se ele usasse a errada. 
- Voc est certa - disse o padre D em voz baixa. - No sei. Mas esta  a diferena entre voc e eu, Suzannah. Veja bem, eu tenho f. 
Atravessei o quarto em trs passos. No sabia o que ia fazer. Certamente no ia bater nele. Quero dizer, o gatilho do meu mecanismo de raiva pode ser supersensvel, 
mas no ando por a dando socos em padres. Bem, pelo menos no no padre Dom. Ele  meu mano, como costumvamos dizer l no Brooklyn. 
Mesmo assim, acho que eu ia sacudi-lo. Ia por as mos em seus ombros e tentar sacudi-lo ate cair na real, j que a argumentao no estava funcionando. Quero dizer, 
serio, f. F! Como se a f alguma vez funcionasse melhor que umas boas cacetadas. 
Mas antes que pudesse por a mo nele ouvi algum pigarrear atrs de mim. Olhei e ali estava o Andy, com o cinto de ferramentas, jeans e uma camiseta que dizia "BEMDO 
A DUCK BILL FLATS", parado junto a porta aberta e parecendo preocupado. 
- Suze - disse ele. - Padre Dominic. Est tudo bem a? Pensei ter ouvido algum gritar. 
O padre Dominic se levantou. 
- Sim - disse ele, parecendo srio. - Bem, Suzannah est, e com todo o direito, preocupada com a ... bem, a descoberta infeliz em seu quintal, ontem. Ela pediu, 
Andrew, que eu desse uma beno na casa e, claro, eu disse que daria. Mas deixei a Bblia no carro ... 
Andy se empertigou imediatamente. 
- Quer que eu pegue para o senhor, padre? 
- Ah, seria maravilhoso, Andrew. Simplesmente maravilhoso. Deve estar no banco da frente. Se puder traz-la, eu faria o trabalho imediatamente. 
- Sem problema, padre - respondeu Andy, e saiu parecendo todo feliz. O que  fcil, se voc, como Andy, no faz a mnima idia do que esta acontecendo em sua prpria 
casa. Quero dizer, Andy no acredita. No sabe que existe um plano de existncia diferente deste. No sabe que pessoas do outro plano esto tentando mat-lo. 
Ou que eu estava apaixonada pelo sujeito cujos ossos ele desenterrou ontem. 
- Padre D. - falei, no minuto em que ouvi os ps de Andy baterem na escada. 
- Suzannah - interrompeu ele, cansado. Dava para ver que estava tentando me cortar antes que eu fosse em frente. 
- Entendo como isto  difcil para voc. Jesse era muito especial. Sei que ele significava muito ... 
Nao pude acreditar naquilo. 
- Padre D. 
- ... mas o fato, Suzannah,  que agora Jesse est num lugar melhor. - Enquanto falava, o padre Dominic atravessou meu quarto, parou junto  porta e tirou uma bolsa 
preta que aparentemente havia colocado no corredor. Levantou a bolsa, pousou-a de novo na minha cama desarrumada e abriu. Ento comeou a tirar coisas de dentro. 
- Ns dois - continuou ele - vamos simples mente ter f nesse pensamento e ir em frente. 
Pus as mos nos quadris. No sei se era a concusso ou o fato de que meu namorado sofrera um exorcismo, mas acho que meu quociente de vaca insuportvel estava regulado 
no mximo. 
- Eu tenho f, padre Dom. Tenho muita f. Tenho f em mim mesma e tenho f no senhor. Por isso sei que podemos consertar isso. 
Os olhos azul-beb do padre Dom se arregalaram por trs das lentes de seus culos bifocais enquanto ele erguia aos lbios uma tira de pano roxa, beijava-a e depois 
passava em volta do pescoo. 
- Consertar isso? Consertar o qu? O que voc quer dizer, Suzannah? 
- O senhor sabe - falei, porque ele sabia. 
- Eu ... - o padre Dominic pegou na bolsa um negcio de metal que parecia uma colher de tirar sorvete, junto com um frasco do que eu s podia supor que fosse gua 
benta. - Eu percebo, claro, que Maria de Silva Diego ter de ser enfrentada. Isso  perturbador, mas acho que voc e eu somos perfeitamente preparados para cuidar 
da situao. E o garoto, Jack, ter de ser visto e adequadamente doutrinado nos mtodos apropriados de mediao, dentre os quais, voc sabe, o exorcismo s deve 
ser usado como ultimo recurso. Mas ... 
- No  isso. 
O padre Dominic ergueu os olhos de seus preparativos de beno de casa. 
- No? 
- No - repeti. - E no finja que no sabe do que estou falando. 
Ele piscou algumas vezes, fazendo eu me lembrar de Clive Clemmings. 
- No posso dizer que sei, Suzannah. De que voc est falando? 
- De traz-lo de volta. 
- Trazer quem de volta, Suzannah? 
A maratona noturna do padre Dom, dirigindo toda a noite, estava comeando a aparecer. Ele era um cara bonito, para algum de sessenta e poucos anos. Tenho certeza 
de que metade das freiras e a maior parte da congregao feminina da misso era apaixonada por ele. No que o padre D. notasse isso. A idia de que era um gato da 
terceira idade s iria deix-lo sem graa. 
- O senhor sabe quem. 
- Jesse? Trazer Jesse de volta? - o padre Dominic ficou ali parado, com a estola em volta do pescoo e o negcio de espirrar gua benta numa das mos. Parecia atarantado. 
- Suzannah, voc sabe to bem quanta eu que assim que os espritos saem deste mundo ns perdemos todo o contato com eles. Eles se foram. Passaram adiante. 
- Eu sei. No falei que ia ser fcil! De fato s consigo pensar num modo de fazer isso. E, mesmo assim ... bem,  arriscado. Mas com sua ajuda, padre D., pode funcionar. 
- Minha ajuda? - o padre D. estava confuso. - Minha ajuda em qu? 
- Padre D., quero que o senhor me exorcize. 

   Captulo 12

- Pela ultima vez, Suzannah -disse o padre Dominic. Desta vez bateu no volante para dar nfase enquanto falava. - O que voc est pedindo  impossvel! 
Revirei os olhos. 
- Ol? O que aconteceu com a f? Achei que, se a gente tem f, tudo  possvel! 
O padre D. no gostava de ter suas prprias palavras laadas de volta. Dava para ver pelo modo como ele fazia careta para o reflexo dos carros que vinham atrs de 
ns, pelo retrovisor. 
- Ento deixe-me dizer que o que voc esta sugerindo tem muito pouca chance de dar certo. 
Dirigir em Carmel no  fcil, j que as casas no tem nmero e os turistas no conseguem, de jeito nenhum, descobrir para onde esto indo. E o trnsito, claro, 
 de noventa e oito por cento de turistas. O padre D. estava suficientemente frustrado por nossos esforos de ir aonde amos. Meu anncio, ainda no quarto, de que 
queria que ele me exorcizasse, tambm no estava ajudando em seu humor. 
- Para no mencionar o fato de que  antitico, imoral e provavelmente muito perigoso - concluiu ele enquanto acenava para uma minivan nos ultrapassar. 
- Certo - falei. - Mas no  imposslvel. 
- Voc parece estar esquecendo uma coisa. Voc no  fantasma, nem esta possuda por um. 
- Sei disso. Mas eu tenho um esprito, certo? Quero dizer, uma alma. Ento por que o senhor no pode exorciz-la? Assim eu posso ir ... o senhor sabe, dar uma olhada, 
ver se consigo ach-lo, e, se achar, traz-lo de volta. - E acrescentei como um pensamento de ultima hora: - Se ele quiser vir, claro. 
- Suzannah. - O padre Dom estava realmente chateado comigo, dava para ver totalmente. L em casa tudo tinha estado certo, quando chorei e coisa e tal. Mas ento 
tive essa idia fantstica. 
S que, veja bem, o padre Dominic no achava a idia to fantstica. Eu pessoalmente achei brilhante. No podia acreditar que no tivesse pensado nisso antes. Acho 
que meu crebro foi meio espremido com a concusso. 
Mas no havia motivo para o plano no dar certo. 
Nenhum motivo. 
- No - disse ele. Coisa que vinha fazendo desde que falei nisso pela primeira vez. - O que voc esta sugerindo, Suzannah, nunca foi feito. No h a menor garantia 
de que funcione. Ou que, se funcionar, voc poder retomar ao corpo. 
-  a que entra a corda. 
- No! - gritou o padre Dominic. 
Ele teve de pisar no freio naquele instante, porque um nibus de turismo surgiu do nada e, como no havia sinais de transito no centro de Carmel, freqentemente 
havia diferenas de opinio quanto a quem tinha a preferncia nos cruzamentos. Ouvi a gua benta chacoalhar, ainda no frasco na bolsa dele sobre o banco de trs. 
Era de pensar que no teria sobrado nenhuma, depois de toda a quantidade que o padre D. borrifou na nossa casa. Aquele negcio voou para todo lado. Eu esperava que 
ele estivesse certo quanto a Maria e Felix serem catlicos demais para ousar atravessar a soleira de uma casa recm -abenoada. Porque, se estivesse errado, eu tinha 
me feito de imbecil diante de Dunga sem qualquer motivo. Dunga ficou falando "Por que o senhor est fazendo isso, padre D.?" quando o padre entrou no seu quarto 
com o aspersrio, que por acaso era o nome daquela coisa parecida com a colher de tirar sorvete. . 
- Porque sua irm pediu - respondeu o padre Dom enquanto jogava gua benta sobre o banco de ginstica de Dunga, provavelmente a nica vez em que aquela coisa chegou 
perto de ser limpa. 
- Suze pediu para o senhor abenoar meu quarto? - Pude ouvir a voz de Dunga do outro lado do corredor, enquanto ainda estava no meu quarto. Tenho certeza de que 
nenhum dos dois sabia que eu estava escutando. 
- Ela pediu para eu benzer a casa. Suzannah ficou muito perturbada com o esqueleto no quintal dos fundos, como tenho certeza de que voc sabe. Agradeceria tremendamente 
se voc lhe mostrasse um pouquinho de gentileza nos prximos dias, Bradley. 
Bradley! No meu quarto, comecei a rir. Bradley! Imagina s! 
No sei o que Dunga respondeu  sugesto, feita pelo padre Dom, de que fosse mais legal comigo, porque aproveitei a oportunidade para tomar banho e vestir uma roupa 
civilizada. Achei que doze horas eram mais do que suficientes para ficar com agasalho de moletom. Mais do que isso, francamente, e voc vai acabar chafurdando na 
prpria tristeza. Jesse no iria querer que o sofrimento por causa dele afetasse meu agora famoso sentido de moda. 
Alm disso, eu tinha um plano. 
E foi assim que, banhada, maquiada e vestida com o que eu considerava o auge do estilo mediadora-chique na forma de um vestidinho justo e sandlias, senti-me preparada 
para dominar no apenas os lacaios de Sat mas tambm os funcionrios do Pinho de Carmel, diante de cuja redao o padre D. tinha prometido me deixar. Veja bem, 
eu ainda no havia deduzido um modo de trazer Jesse de volta: tinha deduzido um modo de vingar a morte de Clive Clemmings, para no mencionar a de seu av. 
Ah, sim. Ainda estava furiosa. Mas pelo bem. 
- Est fora de questo, Suzannah - disse o padre Dominic. - Portanto, tire essa idia da cabea. Onde quer que se encontre agora, Jesse est num lugar melhor do 
que antes. Deixe-o descansar. 
- timo - falei. Paramos diante de um prdio baixo, sombreado por pinheiros. A sede do jornal local. 
- timo - respondeu o padre Dominic, estacionando o carro numa vaga. - Vou esperar voc aqui. Acho que provavelmente seria melhor se eu no entrasse. 
- Provavelmente. E no precisa esperar. Eu acho o caminho de casa. 
Soltei o cinto de segurana. 
- Suzannah. 
Levantei os culos escuros e o espiei. 
- Sim? 
- Vou esperar voc aqui. Ns dois ainda temos muito trabalho a fazer. 
Franzi o rosto. 
-Temos? 
- Maria e Diego -lembrou com gentileza o padre D. - Voc est protegida dos dois em casa, mas eles ainda esto a solta e acho que ficaro tremendamente furiosos 
quando perceberem que voc no est morta. - Eu tinha finalmente desmoronado e explicado a ele o que aconteceu com minha cabea. - Precisamos fazer os preparativos 
para enfrent-los. 
- Ah. Isso. 
Claro que eu tinha esquecido tudo a respeito. No porque achasse que Maria e seu marido precisavam ser enfrentados, mas porque sabia que minha idia de enfrent-los 
e a idia do padre D. no iriam exatamente combinar. Quero dizer os padres no so exatamente fanticos por espancar adversrios at transform-los em pasta. So 
mais do tipo argumentao gentil! 
- Claro - falei - . Vamos fazer isso. 
- , claro ... - o padre D. estava realmente estranho. 
Percebi o motivo quando as prximas palavras que saram de sua boca foram: - Temos de decidir o que ser feito com os restos de Jesse. 
Os restos de Jesse. As palavras me acertaram como dois socos. Os restos de Jesse. Ah, meu Deus. 
- Eu estava pensando - disse o padre Dominic, ainda escolhendo as palavras com cautela elaborada - em fazer um pedido formal ao legista para que os restos fossem 
transferidos a Igreja, para serem enterrados no cemitrio da Misso. Voc concorda que isso seria adequado? 
Algo cresceu em minha garganta. Tentei engolir. 
- Sim. - Mas a resposta saiu com um som esquisito. - Que tal uma lpide? 
- Bem, isso pode ser difcil, j que duvido tremendamente de que o legista possa fazer uma identificao positiva. 
Certo. No existiam raios-X dentrios na poca em que Jesse estava vivo. 
- Talvez uma cruz simples ... - disse o padre Dominic. 
- No. Uma lpide. Tenho trs mil dlares. - E mais, se devolvesse todos aqueles sapatos Jimmy Choo. Ainda bem que tinha guardado as notas de compra. Quem precisava 
de um guarda-roupa de outono, afinal? - O senhor acha que basta? 
- Ah. - O padre Dominic ficou sem jeito. - Suzannah, eu ... 
- Pode dizer. - De repente achei que no podia mais ficar ali sentada discutindo com ele. Abri a porta do carona. -  melhor eu ir. Vejo o senhor daqui a pouco. 
E comecei a sair do carro. 
Mas no fui suficientemente rpida. O padre D. chamou meu nome de novo. 
- Escute, Suzannah. No  que eu no queira que haja algo possvel de ser feito para trazer Jesse de volta. Eu tambm gostaria que ele pudesse, como voc disse, 
ter encontrado seu prprio modo de ir para onde deveria, depois da morte. Gostaria mesmo. S no acho que ir aos extremos que voc esta sugerindo seja ... bem, necessrio. 
E certamente no acho que ele desejaria isso, que voc arriscasse a vida por ele. 
Pensei no assunto. Pensei mesmo. O padre D. estava absolutamente certo, claro. Jesse no iria querer que eu arriscasse a vida por ele, nunca. Em especial considerando 
o fato de que ele nem tem mais. Quero dizer, uma vida. 
Mas vamos encarar os fatos: Jesse  de uma era ligeiramente diferente. Quando ele nasceu, as garotas passavam o tempo costurando. No andavam por a rotineiramente 
dando porrada como fazemos agora. E mesmo que Jesse tenha me visto dando porrada um milho de vezes, isso ainda o deixa nervoso, d para ver totalmente. Quero dizer, 
ele at ficou surpreso quando ficou sabendo de Maria e sua faca. Acho que  meio compreensvel. Imagine s, a pequena srta. Saia-Balo cortando gargantas? 
Mesmo assim, at depois de um sculo e meio sabendo que ela  que havia ordenado sua morte, isso o deixava totalmente pirado. Quero dizer, esse negcio de machismo 
vai fundo. No tem sido fcil cur-lo. 
De qualquer modo, s estou dizendo que o padre D. estava certo: Jesse definitivamente no iria querer que eu arriscasse a vida por ele. 
Mas nem sempre temos o que queremos, no ? 
- timo - falei de novo. Seria de pensar que o padre D. notaria como eu tinha ficado conformada, de repente. Quero dizer, ser que ele no percebeu que no era a 
(mica pessoa na cidade que poderia me ajudar? Eu tinha um novo s na manga, e ele nem sabia. 
- Volto num instante - falei com um sorriso de cem watts, que se abria de um canto a outro da boca. 
Ento me virei e entrei no escritrio do Pinho de Carmel, como se fosse colocar um anuncio pessoal ou algo do tipo. O que eu estava fazendo, claro, era algo muitssimo 
mais insidioso. 
- Cee Cee Webb esta a? - perguntei ao garoto espinhento da recepo. 
Ele ergueu os olhos, espantado. No sei o que o pirou mais, meu vestido justo ou o fato de eu ter pedido para ver Cee Cee. 
- Ali - disse ele, apontando. Sua voz estremeceu para todo canto. 
 Obrigada. 
E fui andando por um corredor comprido e bagunado, passando por um monte de jornalistas diligentes que digitavam ansiosos suas matrias sobre a recente onda de 
roubo de sinos de vento nas varandas das pessoas, e o problema mais alarmante de estacionar diante do correio. 
Cee Cee estava num cubculo nos fundos. Parecia ser o cubculo da mquina copiadora, porque era isso que ela estava fazendo: tirando cpias. 
- Ah, meu Deus - disse ela quando me viu. - O que voc est fazendo aqui? 
Mas no falou isso de modo infeliz. 
- Visitando os pobres - respondi, e me acomodei numa cadeira ao lado da mquina de fax. 
- D para ver. - Cee Cee estava levando muito a srio seu papel de reprter. O cabelo comprido, branco e liso, estava num coque no topo da cabea, preso com um lpis 
numero dois, e havia uma mancha de toner numa das bochechas rosadas. - Por que no est no hotel? 
- Dia da sade mental. Por causa do cadver que acharam no nosso quintal dos fundos ontem. 
Cee Cee largou uma resma de papeis. 
- Ah, meu Deus! Eram vocs? Quero dizer, na seo poolicial mencionaram que os legistas foram s colinas, mas algum disse que devia ser um cemitrio indgena ou 
algo assim ... 
- Ah, no. A no ser que os ndios por aqui usassem esporas. 
- Esporas? - Cee Cee pegou um bloco de notas que estava sobre a copiadora, depois tirou o lpis do coque na cabea, fazendo o cabelo comprido cair sobre os ombros. 
Como  albina, Cee Cee mantm quase toda a pele protegida do sol o tempo inteiro, mesmo quando est trabalhando num escritrio. Hoje no era exceo. Apesar do calor 
l fora, estava usando jeans e um suter marrom com botes. 
Por outro lado, o ar-condicionado dali precisava ficar no mximo. Era como uma geladeira. 
- Desembuche - disse Cee Cee, empoleirada na beira da mesa que sustentava a mquina de fax. 
Desembuchei. Desembuchei tudo. Tudo, desde as cartas que Dunga havia encontrado at minha ida ao escritrio de Clive, e at sua morte prematura na vspera. Mencionei 
o livro do av de Clive, Jesse e o papel histrico significativo que minha casa havia representado no assassinato dele. Contei sobre Maria, Diego e seus filhos imprestveis, 
o fato de que o retrato de Jesse tinha desaparecido da sociedade histrica e minhas suspeitas de que o esqueleto encontrado no quintal dos fundos pertencia a ele. 
Quando terminei, Cee Cee ergueu o olhar do bloco e disse: - Nossa, Simon. Isso poderia ser o filme da semana. 
- No canal Vida - concordei. 
Cee Cee apontou para mim com o lpis. 
- Tiffany Amber Thiessen poderia fazer o papel de Maria. 
- E a? Voc vai publicar? 
- Claro! Puxa, tem tudo: romance, assassinato, intriga e interesse local.  uma pena que quase todo mundo envolvido esteja morto h cem anos ou mais. Mesmo assim 
posso conseguir com o legista a informao de que seu esqueleto era de algum do sexo masculino com vinte e poucos anos ... Alguma idia de como eles fizeram isso? 
Quero dizer, como o mataram? 
Pensei em Dunga e sua p. 
- Bem, se atiraram na cabea dele, duvido que o legista possa dizer, graas a tcnica de escavao delicada de Brad. 
Cee Cee me olhou. 
- Quer meu suter emprestado? Surpresa, balancei a cabea. 
- Por que? 
- Voc est tremendo. 
Estava, mas no por causa do frio. 
- Tudo bem. Olha, Cee Cee,  realmente importante que voc consiga que publiquem essa matria. E tem de fazer isso logo. Tipo amanh. 
- Ah, eu sei - disse ela, sem erguer a cabea de novo do bloco. - E acho que vai ficar tima ao lado do obiturio do dr. Clemmings, sabe. J que era projeto em que 
ele estava trabalhando quando morreu. Esse tipo de coisa. 
- Ento, vai ser publicada amanh? Voc acha que ser amanh? 
Cee Cee deu de ombros. 
- S vo querer publicar quando conseguirem o relatrio do legista sobre o corpo. E isso pode levar semanas. 
Semanas? Eu no tinha semanas. E, ainda que Cee Cee no soubesse, ela tambm no tinha semanas. 
Agora eu estava tremendo incontrolavelmente. Porque havia percebido, claro, o que tinha acabado de fazer: posto Cee Cee no mesmo tipo de risco em que havia colocado 
Clive Clemmings. Clive estivera bem, ate que Maria o escutou contando ao ditafone o que eu tinha dito sobre Jesse. Ento, mais depressa do que voc pode dizer Assombrao, 
ele estava sofrendo de um ataque cardaco induzido. Ser que eu tinha acabado de condenar Cee Cee ao mesmo fim medonho? Ainda que eu duvidasse tremendamente de que 
Maria fosse invadir o escritrio do Pinho de Carmel do modo como fizera com a Sociedade Histrica de Carmel, havia uma chance de ela descobrir o que eu tinha feito. 
A matria precisava ser publicada imediatamente. 
Quanto mais cedo as pessoas soubessem da verdade sobre Maria e Felix Diego, melhores as chances de eles no me matarem - ou de matarem as pessoas de quem eu gostava. 
- Tem de ser publicada amanh - falei. - Por favor, Cee Cee. Voc no pode ligar para o legista e conseguir alguma declarao extra-oficial? 
Ento Cee Cee ergueu os olhos que estavam fixos no bloco. Ergueu os olhos e disse: 
- Suze. Por que a pressa? Essas pessoas esto mortas, sei l, h seculos. O que importa? 
- Importa. - Meus dentes estavam comeando a chacoalhar. - Realmente importa, certo, Cee Cee? Por favor, por favor, garanta que vai apressar. E prometa que no falar 
sobre isso. Quero dizer, sobre a matria. Fora da redao.  realmente importante que voc guarde segredo. 
Cee Cee passou a mo no meu ombro nu. Seus dedos estavam quentes e macios. 
- Suze - disse ela me espiando com intensidade. - 0 que voc fez com sua cabea? De onde veio esse hematoma gigante embaixo da franja? 
Empurrei meu cabelo, sem graa. 
- Ah. Tropecei. Cai num buraco. O buraco onde acharam o corpo, no  engraado? 
Cee Cee no pareceu achar nem um pouco engraado. 
- J pediu para um mdico olhar isso? Porque est bem feio. Voc pode ter tido uma concusso, ou algo assim. 
- Estou bem - respondi me levantando. - Verdade. No  nada. Olha,  melhor eu ir. Lembre-se do que eu disse, est bem? Sobre a matria.  realmente importante no 
falar com ningum. E conseguir que publiquem o mais cedo posssvel. Preciso que muita gente veja. Muita gente. Elas precisam ver a verdade. Voc sabe. Sobre os Diego. 
Cee Cee me encarou. 
- Suze. Tem certeza de que voc esta bem? Quero dizer, desde quando voc se importa com a oligarquia local? 
Gaguejei enquanto recuava pelo cubculo. 
- Bem, desde que conheci o dr. Clemmings, acho. Quero dizer,  uma verdadeira tragdia as pessoas no darem importncia  sociedade histrica da comunidade, quando 
voc sabe que, realmente, sem ela, o tecido da ... 
- Voc precisa ir para casa e tomar uma aspirina - interrompeu Cee Cee. 
- Est certa - falei, pegando a bolsa que combinava com o vestido: cor-de-rosa com pequenas flores bordadas. Eu estava compensando exageradamente pelos dias que 
tivera de usar aquele short caqui. - J vou indo. Vejo voc depois. 
E sai antes que minha cabea explodisse na frente de todo mundo. 
Mas no caminho de volta ao carro do padre Dominic percebi que o motivo para eu estar tremendo no cubculo da copiadora no era o ar-condicionado no mximo, o fato 
de Jesse ter ido embora ou mesmo o fato de que dois fantasmas homicidas tentavam me matar. 
No. Estava tremendo pelo que sabia que ia fazer. Quando cheguei ao carro, curvei-me e falei pela janela do carona: 
- Ei. 
O padre Dominic levou um susto e jogou alguma coisa pela janela do motorista. 
Mas era tarde demais. Eu j tinha visto o que ele estivera fazendo. Alm disso, podia sentir o cheiro. 
- Ei - falei de novo. - Me d um desses. 
- Suzannah. - O padre Dominic estava srio. - No seja ridcula. Fumar  um vcio horrvel. Acredite, voc no quer se viciar. Como foram as coisas com a srta. Webb? 
-Ah. Bem. 
Tenho certeza de que  pecado mentir para um padre, mesmo uma mentirinha que certamente no pode lhe fazer mal. Mas o que eu deveria fazer? Eu o conheo. E sei que 
ele vai ficar completamente rgido com o negcio do exorcismo. 
Portanto, o que mais poderia fazer? 
- Ela quer que eu fique aqui e ajude a escrever. Quero dizer, a matria. 
As sobrancelhas brancas do padre Dominic se enconntraram sobre a armao prateada dos culos. 
- Suzannah, ns temos muita coisa para fazer esta tarde ... 
- . Eu sei. Mas isso  muito importante. Que tal encontrar o senhor no seu escritrio, na Misso, s cinco? 
O padre hesitou. Dava para ver que ele achava que eu ia aprontar alguma coisa. No pergunte como. Quero dizer, sou bem capaz de fazer o tipo angelical, quando decido. 
- Cinco horas - disse ele por fim. - E nem um minuto mais tarde, Suzannah, estou dizendo agora mesmo: eu telefono para os seus pais e conto tudo. 
- Cinco horas. Prometo. 
Acenei enquanto o padre Dom se afastava, e ento, s para o caso de ele estar olhando pelo retrovisor, fingi que voltava ao prdio do jornal. 
Mas em vez disso passei pelos fundos e fui para o Pebble Beach Hotel and Golf Resort. 
Tinha negcios inacabados l.

   Captulo 13 

Ele no estava na piscina. 
No estava comendo hambrguer no Pool House. No estava nas quadras de tnis, no estbulo, nem na loja de lembranas. 
Por fim, decidi verificar o quarto, se bem que no fazia nenhum sentido ele estar l. Principalmente num dia glorioso como este. 
Mas quando a porta da sute se abriu quando bati, foi exatamente l que o encontrei. Segundo Caitlin me informou tensa, estava tirando um cochilo. 
- Tirando um cochilo? - Encarei-a. - Caitlin, ele tem oito anos, e no oito meses. 
- Ele disse que estava cansado - respondeu Caitlin, rspida. - E o que voc est fazendo aqui, afinal? Achei que estava doente. 
- Eu estou doente - falei, passando por ela e entrando na sute. 
Caitlin me olhou desaprovando. Dava para ver que sentia cime do meu vestido justo e das delicadas sandlias cor-de-rosa, para no falar da bolsa. Quero dizer, comparada 
a ela, com sua camiseta plo e short cqui, eu parecia Gwyneth Paltrow. S que com cabelo melhor, claro. 
- Voc no est parecendo muito doente. 
- Ah, ? - Levantei a franja para ela ver a testa. 
Caitlin inspirou fundo e fez aquela cara tipo "ah, deve ter doido". 
- Meu Deus. Como conseguiu isso? 
Pensei em dizer que era algum tipo de acidente de trabalho, para poder arrancar uma grana dela, mas achei que no daria certo. Em vez disso falei que tinha tropeado. 
- Ento o que est fazendo aqui? Quero dizer, se no veio para trabalhar. 
- Bem. A  que est. Sabe, eu me senti culpada de deix-la com o Jack, por isso pedi  mame para me trazer aqui depois de me levar ao mdico. Posso ficar com ele 
pelo resto do dia, se voc quiser. 
Caitlin ficou em dvida. 
- No sei. Voc no est de uniforme ... 
- Bom, eu no iria de uniforme ao consultrio do mdico - guinchei. Verdade, era incrvel como aquelas mentiras elaboradas estavam se derramando da minha lngua. 
Eu me sma mal podia acreditar, e era eu que inventava. - puxa, qual  a sua? Mas olha, ele disse que eu estou bem, portanto, no h motivo para no substituir voc. 
S vamos ficar aqui na sute, se voc est to nervosa com a hiptese de me verem sem uniforme. Sem problema. 
Caitlin olhou de novo para a minha testa. 
- Voc no est dopada com analgsicos, est? Porque no quero voc trabalhando de bab doidona. 
Levantei os trs primeiros dedos da mo direita, no smbolo internacional dos escoteiros. 
- Pela minha honra. No estou doidona. 
Caitlin olhou para a porta fechada do quarto de Jack. - Bem ... - disse hesitando. 
- Ah, qual ! - falei - Eu estou precisando da grana. E voc e Jake no tem um encontro esta noite? 
O olhar dela veio tmido na minha direo. 
- Bem - falou ruborizando. 
Srio. Ela ruborizou. 
-  - disse Caitlin. - Temos sim. 
Meu Deus. Tinha sido uma suposio. 
- No quer sair um pouquinho mais cedo para ficar, voc sabe, mais chique para ele? 
Ela deu um risinho. Caitlin realmente deu um risinho. 
Estou dizendo, meus meios-irmos deveriam vir com etiqetas de alerta do governo: cuidado, perigoso quando misturado com estrognio. 
- Certo - disse ela, e comeou a ir para a porta. - Mas meu chefe me mata se vir voc sem uniforme, portanto, tem de ficar no quarto. Promete? 
Eu tinha feito e quebrado tantas promessas nas ultimas 24 horas que no achei que mais uma fosse fazer mal. 
- Claro, Caitlin. 
E ento a acompanhei at a porta. 
Assim que ela saiu, larguei a bolsa e fui ao quarto de Jack. 
No bati antes. No h nada em um garoto de oito anos que eu j no tenha visto. Alm do mais, ainda estava meio p da vida com o moleque. 
Algum podia ter dito a Jack para tirar um cochilo, mas certamente ele no estava fazendo isso. Quando entrei no quarto ele jogou embaixo dos cobertores a coisa 
com a qual estava brincando e levantou a cabea do travesseiro, com o rosto todo franzido, como se estivesse sonolento. 
Ento viu que era eu, jogou as cobertas para longe e revelou no apenas que estava totalmente vestido mas que estivera brincando com seu GameBoy. 
- Suze! - gritou ao me ver. - Voc voltou! 
- . - Estava escuro no quarto. Fui at a porta de vidro e puxei as cortinas pesadas, para a luz entrar. - Voltei. 
- Achei que voc estava com raiva de mim - disse Jack, pulando empolgado na cama. 
- Eu estou com raiva de voc - falei, girando para olh-lo. Mas a viso daquele mar luminoso tinha ofuscado meus olhos, portanto, no podia enxerg-lo muito bem. 
- O que foi? - Jack parou de pular. - Por que est com raiva de mim? 
Olha, eu no ia pegar pesado com o garoto, certo? S queria que todo mundo tivesse sido to honesto assim comigo quando eu tinha a idade dele.  possvel que eu 
no fosse to rpida com os punhos se no tivesse essa raiva contida por terem me mentido tanto aos oito anos. Sim, Suze, claro que Papai Noel existe, mas no, fantasmas 
no existem. E ento o golpe final: No, essa injeo que eu vou lhe dar no vai doer nem um pouco. 
- Sabe aquele fantasma que voc exorcizou? - falei, encarando-o com as mos nos quadris. - Era meu amigo. Meu melhor amigo. 
Eu no ia dizer namorado, nem nada, porque isso no era verdade. Mas a dor que eu estava sentindo devia ser clara em minha voz, porque o lbio inferior de Jack comeou 
a se projetar um pouquinho. 
- O que voc quer dizer? O que voc quer dizer com isso, ele era seu namorado? No foi isso que aquela dona falou. A dona falou ... 
- Aquela dona  uma mentirosa. Aquela dona - falei indo rapidamente para a cama e levantando a franja do cabelo - fez isso comigo ontem  noite. Ou pelo menos o 
marido dela fez isso. O que ela fez foi tentar me esfaquear. 
De p na cama, Jack estava mais alto do que eu. Olhou para o hematoma na testa com uma espcie de horror. 
- Ah, Suze - ofegou ele. - Ah, Suze. 
- Voc ferrou tudo - falei baixando a mo. - No foi de propsito. Sei que Maria enganou voc. Mas, mesmo assim, voc ferrou, Jack. 
Agora seu lbio inferior estava tremendo. Na verdade, todo o queixo. E os olhos tinham se enchido de lagrimas. 
- Desculpe, Suze. - Sua voz tinha ficado uns trs tons mais aguda do que o normal. - Suze, sinto muito! 
Ele estava se esforando um bocado para no chorar. Mas no tinha sucesso. Lgrimas escorriam dos olhos e rolavam pelas bochechas gorduchas ... a nica parte dele 
que era gorducha, a no ser, talvez, seu cabelo de Albert Einstein. 
E, mesmo no querendo, me peguei abraando-o e dando-lhe tapinhas nas costas - enquanto ele soluava no meu pescoo -, dizendo que tudo ia ficar bem. 
Exatamente o que o padre Dominic tinha feito comigo, percebi com algo prximo do horror. 
E, como ele, eu estava mentindo completamente. Porque tudo no ia ficar bem. Pelo menos no para mim. Nunca mais. A no ser que eu fizesse algo a respeito, e depressa. 
- Olha - falei depois de alguns minutos deixando Jack uivar. - Para de chorar. Temos trabalho a fazer. 
Jack levantou a cabea do meu ombro - que, por sinal, ele havia molhado completamente com ranho, lagrimas e coisas, j que meu vestido era sem mangas. 
- O que ... o que voc quer dizer? - Seus olhos estavam vermelhos e franzidos, de tanto chorar. Tive sorte porque ningum entrou naquela hora. Definitivamente eu 
teria sido condenada por abuso contra criana ou algo assim. 
- Vou tentar trazer Jesse de volta - expliquei, descendo Jack da cama. - E voc vai me ajudar. 
- Quem  Jesse? 
Expliquei. Pelo menos tentei explicar. Disse que Jesse era o cara que ele tinha exorcizado, e que ele era meu amigo, e que exorcizar pessoas era errado, a nao ser 
que elas tivessem feito algo muito, muito ruim, como tentar mat-lo, o que, explicou Jack, era o que Maria lhe contou que Jesse tinha tentado fazer comigo. 
Ento falei a Jack que os fantasmas so como as pessoas; alguns so legais, mas alguns so mentirosos. Garanti que, se tivesse conhecido Jesse, saberia no ato que 
ele no era assassino. 
Maria de Silva, por outro lado ... 
- Mas ela pareceu to legal- disse Jack. - Quero dizer, ela  to bonita e tudo ... 
Homens. Estou falando srio. Mesmo aos oito anos.  pattico. 
- Jack. Voc j ouviu a expresso "No julgue um livro pela capa"? 
Jack franziu o nariz. 
- No gosto muito de ler. 
- Bem. - Ns tnhamos ido para a sala de estar, e agora peguei a bolsa e abri. - Voc vai ter de ler um pouco, se quisermos trazer Jesse de volta. Vou precisar que 
voc leia isso. 
E entreguei um carto onde tinha escrito algumas palavras. Jack franziu os olhos. 
- O que  isso? No  ingls. 
- No. - E comecei a tirar outras coisas da bolsa. -  portugus. 
- O que  isso? 
- Uma lngua que falam em Portugal. E tambm no Brasil e alguns outros pases. 
- Ah. - Jack apontou para um pequeno pote Tupperware que eu havia tirado da bolsa. - O que  isso? 
- Sangue de galinha. 
Jack fez uma careta. 
-Eca! 
- Olha. Se vamos fazer esse exorcismo, vamos fazer direito. E para fazer direito, voc precisa de sangue de galinha. 
- Eu no usei sangue de galinha quando Maria esteve aqui. 
- . Bem, Maria faz as coisas do jeito dela, eu fao do meu. Agora vamos ao banheiro fazer isso. Tenho de pintar coisas no cho com o sangue de galinha, e duvido 
tremendamente que as arrumadeiras vo gostar se fizermos isso aqui no carpete. 
Jack me acompanhou at o banheiro que interligava seu quarto ao do irmo. Na parte do meu crebro que no estava concentrada no que estava fazendo, meio me perguntei 
onde Paul estaria. Era estranho ele no ter ligado depois de ter me deixado em casa e visto todos os carros da polcia diante dela. Quero dizer,  de pensar que 
ficaria curioso, pelo menos, com o que teria sido aquilo. 
Mas no tive nenhuma notcia dele. 
No que me importasse. Havia coisas muito mais importantes com que me preocupar. Mas mesmo assim era meio estranho. 
- Pronto - falei quando tinha arrumado tudo. Demorou uma hora, mas quando terminamos estvamos com um exemplo bem decente de como deve ser um exorcismo, pelo menos 
ao estilo macumba brasileira. - Pelo menos segundo um livro que li uma vez sobre o assunto. 
Com o sangue de galinha, que comprei numa loja para gourmets no centro da cidade, tinha feito uns smbolos especiais no meio do piso do banheiro, e em volta espalhei 
velas (votivas, as nicas que consegui achar de ultima hora, entre a redao do Pinha de Carmel e o hotel; tinham perfume de canela, de modo que o banheiro cheirava 
a Natal... bem, a no ser pela fragrncia no to festiva do sangue de galinha). 
Apesar do amadorismo com que tinha sido feito, era de fato um portal vivel para a outra vida - ou pelo menos seria, assim que Jack fizesse sua parte com o carto. 
Eu havia repassado a pronncia de cada palavra, e ele parecia ter aprendido bem. A nica coisa que no conseguia engolir era o fato de que a pessoa que estvamos 
exorcizando era ... 
bem, eu. 
- Mas voc esta viva - ficava dizendo. - Se eu exorcizar seu esprito, voc no vai ficar morta? 
Na verdade, esse era um pensamento que no havia realmente me ocorrido. O que aconteceria com meu corpo quando o esprito o abandonasse? Eu estaria morta? 
No, isso era impossvel! Meu corao e os pulmes no parariam de funcionar s porque minha alma tinha sado. Provavelmente eu s ficaria ali deitada, como algum 
em coma. 
Mas isso no era muito reconfortante para Jack. 
- E se voc no voltar? - perguntou ele. 
- Eu vou voltar. J disse. O nico motivo pelo qual eu posso voltar  que tenho um corpo vivo. S quero dar uma olhada por l e ver se Jesse est bem. Se estiver, 
timo. Se no ... bem, vou tentar traz-lo de volta. 
- Mas voc disse que o nico motive pelo qual pode voltar e porque tem um corpo vivo. Jesse no tem. Ento como ele pode voltar? 
Esta, claro, era uma boa pergunta. Provavelmente por isso me deixou mal-humorada. 
- Olha - falei enfim. - Ningum nunca tentou isso antes, pelo que eu saiba. Talvez no seja preciso ter um corpo ao qual voltar. No sei, certo? Mas no posso deixar 
de tentar s porque no sei a resposta. Onde a gente estaria se Cristvo Colombo no tivesse tentado? Hein? 
Jack ficou pensativo. 
- Morando na Espanha? 
- Muito engraado. - Foi nesse ponto que peguei a ltima coisa dentro da bolsa e amarrei uma das pontas na minha cintura. Amarrei a outra ao pulse de Jack. 
- Para que a corda? - perguntou ele, olhando-a. 
- Para eu achar o caminho de volta at voc. 
Jack ficou confuso. 
- Mas se s o seu esprito vai, de que adianta amarrar uma corda no seu corpo? Voc disse que o seu corpo no ia a lugar nenhum. 
- Jack - falei com os dentes trincados. - S me puxe de volta se eu no voltar em meia hora, certo? - Achei que meia hora era o mximo que a alma de algum poderia 
ticar separada do corpo. Na TV eu sempre assistia a programas sobre crianas que caam na gua gelada, afogavam-se e ficavam tecnicamente mortas durante at quarenta 
minutos, e no entanto se recuperavam sem qualquer dano cerebral. Por isso achei que meia hora era o mximo que eu teria. 
- Mas como ... 
- Ah, meu Deus - falei rispidamente. - S faa, est certo? 
Jack me olhou irritado. Ei, s porque ns dois somos mediadores no significa que tenhamos de nos dar bem o tempo todo. 
- Certo. - Baixinho, ouvi-o murmurar: - Voc no precisa ser to m por causa disso. 
S que ele no disse "m". Verdade:  chocante ouvir as palavras que as crianas usam hoje em dia. 
- Certo - falei. Em seguida entrei no centro do crculo de velas e fiquei no meio dos smbolos desenhados com sangue de galinha. - L vai. 
Jack olhou para o carto. Depois olhou de novo para mim. 
- Voc no deveria se deitar? Quero dizer, se vai ser como um coma, no quero que voc caia e se machuque. 
Estava certo. Eu no queria que meu cabelo pegasse fogo nem nada. 
Por outro lado, no queria sangue de galinha no vestido. 
Quero dizer, ele era caro. Noventa e cinco dlares no Urban Outfitters. 
Ento pensei: "Suze, o que h de errado com voc?  s um vestido. Voc est fazendo isso pelo Jesse. Ele no vale mais de noventa e cinco dlares?" 
Por isso comecei a me deitar. 
Mas s tinha conseguido apoiar um dos joelhos no cho quando houve uma batida terrvel na porta da sute. 
Admito. Entrei em pnico. Achei que era o corpo de bombeiros ou algum respondendo a um alerta de fumaa dado por algum hspede no banheiro adjacente ao de Jack. 
- Depressa - sibilei. - Assopre todas as velas! 
Enquanto Jack se apressava em obedecer, fui at a porta. 
- Quem ? - falei em voz doce ao chegar. 
- Suzannah - disse uma voz familiar demais. - Abra esta porta agora mesmo. 

Captulo 14

Se voc me perguntar, acho que o padre D. exagerou na reao. 
Quero dizer, em primeiro lugar eu estava com a situao sob controle. 
E em segundo, no era como se eu tivesse sacrificado animais ou sei l o qu. Puxa, a galinha j estava morta. 
De modo que todo o alarde e ficar xingando a gente foi realmente desnecessrio. 
No que ele tivesse xingado Jack. No, a maioria dos xingamentos foi contra mim. Parece que eu estar disposta a me destruir  uma coisa. Mas obrigar um menino a 
ajudar na minha destruio?  simplesmente desprezvel. 
E quando observei que o garotinho  que havia criado a necessidade de eu me comportar de modo destrutivo? , no foi um argumento muito bom. 
Mas o que todo esse negcio fez foi ilustrar ao padre Dominic como eu estava falando srio com relao ao plano. Acho que ele finalmente percebeu que eu ia fazer 
o mximo para encontrar Jesse, com ou sem sua ajuda. 
Por isso decidiu que, nas circunstncias, era melhor ajudar, nem que fosse para melhorar minhas chances e no me machucar nem machucar outras pessoas. 
- E de jeito nenhum ser uma operao escusa - disse ele, parecendo todo incomodado com isso enquanto abria as portas da baslica. - Nada desse negcio de macumba 
brasileira. Vamos fazer um exorcismo cristo decente, ou no vamos fazer nada. 
Verdade, se voc pensar bem, provavelmente eu tenho as conversas mais bizarras do planeta. Srio. Quero dizer, exorcismo cristo decente? 
Mas no s minhas conversas so bizarras. As circunstncias em que converso tambm so bem estranhas. Por exemplo, eu estava tendo essa conversa numa igreja escura 
e vazia. Escura porque passava da meia-noite, e vazia pelo mesmo motivo. 
- E voc ter a superviso de um adulto - disse o padre Dominic enquanto me fazia entrar. - Simplesmente no posso imaginar como esperava que o menino pudesse fazer 
um procedimento to complicado ... 
Ele viera falando a tarde inteira nesse tom. Na verdade falou at que os pais de Jack - para no mencionar Paul - voltaram  sute. O padre D., claro, no tinha 
conseguido me tirar imediatamente como queria, por causa do Jack. 
Em vez disso Jack e eu fomos obrigados a limpar a sujeira que tnhamos feito - no  brincadeira limpar sangue de galinha entre os ladrilhos do banheiro usando esponja, 
vou lhe contar - e ento tivemos de sentar e esperar o dr. e a sra. Slater voltarem da aula de tnis. Os pais de Jack ficaram meio surpresos ao encontrar ns trs 
no sof. Quero dizer, pense bem: uma bab, um garoto e um padre? Isso  que  se sentir doidona. 
Mas o que eu podia fazer? O padre D. no sairia sem mim. No confiava que eu no tentaria me exorcizar. 
Por isso ns trs ficamos ali sentados enquanto o padre D. fazia sermes sobre a bela arte da mediao. Falou por duas horas. No estou brincando. Duas horas. Vou 
lhe contar, no fim, Jack provavelmente estava se arrependendo de ter me falado o negcio de "eu vejo gente marta". Provavelmente estava pensando tipo: "Ah, , sabe 
a gente morta? Brincadeirinha, pessoal. Eu estava brincando ... " 
Mas no sei, porque talvez fosse bom o moleque ficar sabendo o que se deve e o que no se deve fazer. Deus sabia que eu no fora muito lcida com minha Introduo 
 Mediao. Quero dizer, se eu tivesse sido um pouco mais clara nos detalhes, talvez toda essa coisa com Jesse no ... 
Mas tanto faz. A gente s consegue se censurar at certo ponto. Tinha toda a conscincia de que a confuso era par minha culpa. Por isso estava to decidida a consertar. 
Ah. E a parte de eu estar apaixonada pelo cara? , isso tambm tinha um pouquinho a ver. 
De qualquer modo era isso que estvamos fazendo quando os pais de Jack entraram: ouvindo o padre D. arengar sobre responsabilidade e cortesia ao lidar com os defuntos. 
O padre Dominic parou quando o doutor e a sra. Slater, seguidos por Paul, entraram na sute. Eles, por sua vez, pararam de papear sobre os planos do jantar e ficaram 
ali parados, olhando. 
Foi Paul quem se recuperou primeiro. 
- Suze - disse ele, sorrindo. - Que surpresa! Achei que voc no estava se sentindo bem. 
- Melhorei - respondi ficando de p. - dr. e sra. Slater, este  ... bem ... o diretor da minha escola, o padre Dominic. Ele teve a gentileza de me dar uma carona 
para eu poder ...  ... visitar o Jack. 
- Como vo? - O padre Dominic se levantou rapidamente. Como falei, o padre D. no  carente no departamento aparncia. Tinha uma figura bem impressionante: todo 
o metro e noventa com topo nevado. No parecia o tipo de sujeito que voc acharia estranho encontrar em sua sute de hotel com seu filho de oito anos e a bab. O 
que quer dizer muita coisa, voc sabe. 
Quando o doutor e a sra. Slater ficaram sabendo que o padre D. era ligado  Misso Junipero Serra, ficaram todos amigveis e comearam a dizer como tinham feito 
o circuito turstico e como foi impressionante. Acho que no queriam que ele pensasse que eram do tipo de gente que ia a uma cidade com uma significativa fatia da 
histria norte-americana e passavam o tempo todo jogando golfe e tomando coquetis. 
Enquanto os pais e o padre D. confraternizavam, Paul chegou perto de mim e sussurrou: 
- O que voc vai fazer esta noite? 
Pensei em dizer a verdade: Ah, nada. S exorcizar minha alma para poder percorrer o purgatrio, procurando o fantasma do caubi morto que morava no meu quarto. 
Mas isso, claro, poderia parecer petulante, ou como uma daquelas desculpas que as garotas inventam. Voc sabe, tipo a velha dispensa do vou lavar meu cabelo. Por 
isso apenas falei: 
- Tenho um compromisso. 
- Que pena. Esperava que a gente pudesse ir ate Big Sur e olhar o pr-do-sol, depois comer alguma coisa. 
- Desculpe - falei sorrindo. - Parece timo, mas, como disse, tenho um compromisso. 
A maioria dos caras teria parado por a, mas Paul, por algum motivo, no parou. At estendeu a mo e casualmente passou o braro pelos meus ombros ... se  que se 
pode fazer isso casualmente. Mas, de algum modo, conseguiu. Talvez porque more em Seattle. 
- Suze - disse ele, baixando tanto a voz que ningum mais na sala podia ouvir, principalmente o irmozinho, que claramente estava esticando o pescoo num esforo 
para escutar. -  sexta-feira. Ns vamos embora depois de amanh. Talvez a gente nunca mais se veja. Anda. D uma chance, est bem? 
No tenho caras dando em cima de mim com tanta freqncia, pelo menos no gatos como Paul. Quero dizer, a maioria dos caras que gostaram de mim desde que me mudei 
para a Califrnia ... bem, tinham srios problemas de relacionamento, como o fato de que acabaram cumprindo longas penas por assassinato. 
De modo que isso era bem novo para mim. Apesar de contra a vontade, me impressionei. 
Mesmo assim, no sou idiota. Ainda que eu no estivesse apaixonada por outro, Paul Slater era de outra cidade.  fcil para os caras que vo embora dali a dois dias 
dar em cima das garotas. Quero dizer, nem vem! Eles no precisam se comprometer. 
- Nossa - respondi. - Isso  uma maravilha. Mas sabe de uma coisa? Eu tenho realmente outros planos. - Sai de baixo de seu brao e interrompi totalmente a detalhada 
descrio do dr. Slater sobre o golfe do dia. - Pode me dar uma carona para casa, padre D.? 
O padre Dominic disse que podia, claro, e fomos embora. 
Notei Paul me olhando de cima a baixo enquanto nos despedamos, mas achei que era porque estava com raiva por eu ter recusado o convite. 
No sabia que os motivos eram totalmente diferentes. 
Pelo menos na hora no sabia. Se bem que, claro, deveria saber. Deveria mesmo. 
De qualquer modo, o padre D. fez sermo por todo o caminho at em casa. Estava muito furioso, mais do que jamais tinha estado comigo, e j fiz coisas que o deixaram 
bem p da vida. Perguntei como ele deduziu que eu estava no hotel, e no no jornal ajudando Cee Cee a escrever a matria, como tinha dito, e ele respondeu que no 
foi difcil: bastou lembrar que Cee Cee s tirava nota dez, e certamente no precisaria da minha ajuda para escrever nada, e deu a volta no carro. Quando descobriu 
que eu tinha sado havia dez minutos, tentou pensar onde iria em circunstncias semelhantes, quando tinha a minha idade. 
- O hotel era a opo bvia - informou o padre Dominic enquanto parvamos diante de minha casa. Desta vez no havia ambulncias, fiquei aliviada em notar. S os 
pinheiros sombreados e o som baixo do radio que Andy ouvia nos fundos, trabalhando no deque. Era uma tarde sonolenta de vero. Nem um pouco do tipo em que voc pensaria 
ao ouvir a palavra exorcismo. 
- Voc no  exatamente imprevisvel, Suzannah. 
Posso ser previsvel, mas isso aparentemente deu resultado, j que, logo antes de eu sair do carro, o padre D. falou: - Vou voltar a meia-noite para lev-la  Misso. 
Olhei-o, surpresa. 
- Misso? 
- Se vamos fazer um exorcismo - disse tenso -, vamos fazer direito, numa casa do Senhor. Infelizmente o monsenhor, como voc sabe, no gostaria de que uma propriedade 
da Igreja fosse usada desse modo. Portanto, mesmo no gostando de recorrer a um subterfgio, vejo que voc no ser convencida a sair desse rumo, de modo que neste 
caso o subterfgio ser necessrio. Quero garantir que no haver chance de a irm Ernestine ou mais algum nos descobrir. Portanto, ter de ser  meia-noite. 
E portanto era meia-noite. 
No consigo realmente dizer o que fiz no meio tempo. 
Estava nervosa demais para fazer grande coisa. Jantamos comida para viagem. No sei o que era. Mal provei. ramos somente eu, mame e Andy, j que Soneca tinha um 
encontro com Caitlin e Dunga estava com sua ltima vagabunda. 
A nica coisa que sei com certeza  que Cee Cee ligou com a notcia de que a matria sobre a conturbada famlia Silva/Diego seria publicada no jornal de domingo 
por causa das curiosidades e coisa e tal. 
Segundo ela me informou, o legista tinha feito uma confirmao provisria do que eu havia contado: o esqueleto que acharam no quintal tinha entre 150 e 175 anos, 
e pertencia a algum do sexo masculino, com idade entre vinte e vinte e cinco anos. 
- A raa  difcil de determinar - continuou Cee Cee - devido ao dano no crnio causado pela p de Brad. Mas eles tm certeza da causa da morte. 
Grudei o fone no ouvido, consciente de que mame e Andy,  mesa de jantar, poderiam ouvir cada palavra. 
- E? - perguntei, tentando manter o tom tranqilo. Mas podia me sentir ficando com frio de novo, como acontecera naquela tarde, no cubculo da copiadora. 
- Asfixia - disse Cee Cee. - H um osso no pescoo, pelo qual d para saber. 
- Ento ele foi... 
- Estrangulado - confirmou Cee Cee, de modo casual. - Escute, o que voc vai fazer esta noite? Quer vir aqui? Adam tem de fazer uma coisa para a famlia dele. A 
gente podia alugar um filme ... 
- No. No, no posso. Obrigada, Cee Cee. Muito obrigada. 
Desliguei o telefone. 
Estrangulado. Jesse tinha morrido estrangulado. Por Felix Diego. Curioso, mas de algum modo sempre imaginei que ele tinha levado um tiro. Mas estrangulado fazia 
mais sentido: as pessoas ouviriam o tiro e iriam investigar. Ento no haveria duvida quanta ao que havia acontecido com Hector de Silva. 
Mas estrangulamento? Isso era bem silencioso. Felix poderia facilmente ter estrangulado Jesse enquanto ele dormia, depois levado o corpo para o quintal e enterrado, 
junto com seus pertences. Ningum saberia ... 
Acho que devo ter ficado parada olhando o telefone durante um tempo, porque minha me falou: - Suze? Voc est bem, querida? 
Dei um pulo. 
- Estou, me. Claro. Estou tima. 
Mas no estava. E certamente no estou agora. 
S tinha ido umas duas vezes  Misso durante a noite, e o lugar ainda era to assustador como antes ... sombras compridas, recessos escuros, rudos esquisitos enquanto 
nossos ps ecoavam pelo corredor entre os bancos. Havia uma esttua da Virgem Maria perto da porta, e Adam tinha me dito uma vez que, se voc passasse por ela enquanto 
pensava alguma coisa impura, e esttua chorava sangue. 
Bom, meus pensamentos enquanto entrava na baslica no eram exatamente impuros, mas ao passar pela Virgem Maria notei que ela parecia mais particularmente propensa 
a chorar sangue do que o normal. Ou talvez fosse apenas o escuro. 
De qualquer modo, eu estava me sentindo esquisitssima. 
Acima da cabea abria-se a enorme cpula que dava para ver da janela do meu quarto, luzindo vermelha ao sol e azul ao luar, e diante de mim se erguia o nicho onde 
ficava o altar banhado de branco. 
O padre Dom estivera ocupado, deu para ver quando entrei na igreja. Velas tinham sido postas num grande crculo diante da balaustrada do altar. Ainda murmurando 
baixinho sobre minha necessidade de superviso adulta, o padre Dominic se inclinou e comeou a acender os pavios. 
-  a o que o senhor ... quero dizer, ns, vamos fazer? Perguntei. 
O padre Dominic se empertigou e examinou o trabalho. 
- . - Ento, no entendendo minha expresso, acrescentou secamente: - No se engane com a ausncia de sangue de galinha, Suzannah. Garanto que a cerimnia catlica 
de exorcismo  altamente eficaz. 
- No - falei rapidamente. -  s que ... 
Olhei para o cho no meio do crculo de velas. Parecia muito duro - muito mais do que o piso do banheiro no hotel. L era ladrilho. Aqui era mrmore. Lembrando-me 
do que Jack tinha dito, falei: 
- E se eu cair? Posso bater a cabea de novo. 
- Felizmente voc estar deitada. 
- No posso ter um travesseiro ou algo assim? Quero dizer, puxa! Esse cho parece frio. - Olhei para a toalha do altar. - Que tal aquilo? Posso me deitar em cima? 
O padre Dominic ficou bastante chocado para um cara que ia exorcizar uma garota que no estava possuda nem morta. 
- Pelo amor de Deus, Suzannah. Seria sacrilgio. 
Em vez disso foi pegar alguns mantos do coro para mim. 
Fiz uma caminha no cho, entre as velas, e me deitei. Na verdade ficou bem confortvel. 
Uma pena meu corao estar batendo forte demais para eu ao menos conseguir cochilar. 
- Certo, Suzannah - disse o padre D. Ele no se mostrava satisfeito comigo havia algum tempo. Mas estava cedendo ao inevitvel. 
Mesmo assim parecia achar necessrio um ultimo sermo. 
- Estou disposto a ajud-la com esse seu plano ridculo, mas s porque sei que, se no fizer isso, voc tentara fazer sozinha ou, que Deus no permita, com a ajuda 
daquele menino. - O padre D. estava me olhando muito serio. - Mas nem por um minuto pense que aprovo. 
Abri a boca para argumentar, mas ele ergueu uma das mos. 
- No. Deixe-me terminar, por favor. O que Maria de Silva fez foi errado. Mas no consigo ver nada disso terminando bem. Segundo minha experincia, Suzannah, e espero 
que voc concorde que minha experincia  significativamente maior que a sua, assim que os espritos so exorcizados, permanecem exorcizados. 
Abri a boca de novo, e de novo o padre D. me calou: 
- O lugar aonde voc vai - prosseguiu ele - ser como uma rea de espera para os espritos que passaram do plano astral, mas ainda no chegaram ao destino definitivo. 
Se Jesse ainda estiver l e voc conseguir encontr-lo (e voc entende que eu considero esse um "se" muito grande, porque no creio que v conseguir), no fique 
surpresa se ele escolher continuar onde est. 
- Padre D. - comecei, apoiando-me nos cotovelos, mas ele balanou a cabea. 
- Pode ser a nica chance dele para ir em frente, Suzannah. 
- No. No  verdade. Veja bem, h um motivo para ele ter ficado na minha casa durante tanto tempo. Ele s precisa descobrir qual , e poder ir em frente por conta 
prpria e ... 
- Suzannah - interrompeu o padre Dominic. - Tenho certeza de que no  to simples ... 
- Ele tem o direito de decidir sozinho - insisti com os dentes trincados. 
- Concordo.  isso que estou tentando dizer, Suzannah. Se voc encontr-lo, deve deixar que ele decida. E no deve ... bem, no deve tentar usar qualquer tipo de 
... e ... 
S pisquei para ele. 
- Padre D., o que o senhor est falando? 
- Bem,  s que ... - O padre Dominic pareceu mais sem graa do que eu jamais tinha visto. Eu no fazia a mnima idia do que havia de errado com o sujeito. - Vejo 
que voc trocou de ... 
Olhei para mim mesma. Tinha trocado de roupa, substitu o vestido cor-de-rosa por um preto, com pequenos botes de rosa bordados. Combinei com uns sapatinhos Prada 
totalmente lindos. Tinha demorado um tempo enorme para escolher o conjunto. Quero dizer, o que a gente usa num exorcismo? No precisava nem um pouco do padre D. 
detonando minha vestimenta. 
- O que ? - perguntei na defensiva. - O que h de errado com ela?  fnebre demais?  fnebre demais, no ? Eu sabia que preto estava errado para a ocasio. 
- No h nada errado com ela - disse o padre Dominic. -  simplesmente que ... Suzannah, voc no deve tentar usar seus artifcios sexuais para influenciar a deciso 
de Jesse. 
Meu queixo caiu. Certo. Agora eu estava furiosa. 
- Padre Dominic! - sentei-me e gritei. Mas depois fiquei totalmente sem fala. No podia pensar em nada para dizer alem de: - Fala srio! 
- Suzannah - insistiu o padre Dominic severamente. - No finja que no sabe o que eu quis dizer. Sei que voc gosta de Jesse. S estou pedindo que no use seus - 
ele pigarreou - encantos femininos para manipular ... 
- Como se eu pudesse - resmunguei. 
- Sim. - o tom do padre era firme. - Pode. S estou pedindo que no faa. Pelo bem de vocs dois. No faa. 
- timo. No vou fazer. No estava planejando isso. 
- Fico feliz em ouvir. - o padre Dominic abriu um pequeno livro encadernado em couro e comeou a folhear. - Comecemos, ento? 
- Acho que sim. - Ainda resmungando, deitei-me. No podia acreditar que o padre D. tinha acabado de sugerir aquilo: que eu usaria meu sex appeal para atrair Jesse 
de volta. H! O padre D. estava deixando de ver duas coisas simples: uma que eu no sei se tenho sex appeal, e duas, que, se tenho, Jesse obviamente nunca notou. 
Mesmo assim o padre Dominic tinha se sentido obrigado a dizer algo a respeito, o que deve significar que notou alguma coisa. Devia ser o vestido. Nada mau por 95 
dlares e 95 centavos. 
Enquanto estava ali deitada, um riso lento se esgueirou por meu rosto. O padre D. tinha usado a palavra sexual. Falando de mim! 
Excelente. 
O padre D. comeou a ler seu livrinho. Enquanto lia, balanava a bola de metal de onde saia fumaa. A fumaa era do incenso que queimava dentro da bola de metal. 
Vou lhe contar: fedia. 
No dava para entender o que o padre D. estava dizendo, j que era em latim. Mas parecia legal. Fiquei ali deitada, no meu vestido pretinho bsico, imaginando se 
deveria ter posto uma cala comprida. Quero dizer, quem sabe o que eu encontraria l? E se tivesse de subir em alguma coisa? As pessoas veriam minha calcinha. 
 de pensar que eu estaria tendo pensamentos mais profundos, mas lamento muito informar que a coisa mais profunda que pensei enquanto o padre Dominic exorcizava 
minha alma era que, quando tudo isso acabasse, com Jesse em casa e Maria e Felix trancados de volta na cripta que era o lugar deles, eu ia me encharcar durante um 
tempo enorme naquela mini-piscina quente que Andy estava instalando, porque, vou lhe contar, eu estava um caco.
E ento uma coisa comeou a acontecer acima da minha cabea. Uma parte da cpula desapareceu e foi substituda por um monte de fumaa. Ento percebi que era a fumaa 
do incenso que o padre D. estava balanando. Ela se enrolava como um tornado acima da minha cabea. 
Em seguida, no centro do tornado, vi o cu noturno. 
Como se a cpula no topo da baslica no estivesse mais l. Dava para ver estrelas piscando frias. No reconheci nenhuma constelao, apesar de Jesse ter tentado 
me ensinar, antes. L no Brooklyn no era possvel ver as estrelas to bem por causa das luzes da cidade. De modo que, alm da Ursa Maior, que sempre d para ver, 
no sei o nome de nenhuma constelao. 
No importava. O que eu estava venda no era o cu. 
Pelo menos no o cu da Terra. Era outra coisa. Outro lugar. 
- Suzannah - disse o padre Dominic gentilmente. Levei um susto e olhei para ele. Percebi que tinha ficado meio adormecida, olhando aquele cu. 
- O que ? 
- Est na hora. 

   Captulo 15

"O padre Dominic est esquisito", pensei. "Por que ele est to esquisito?" 
Percebi quando me sentei. Isso porque apenas parte de mim se sentou. O resto ficou onde estava, deitado nas mantas do coro, de olhos fechados. 
Voc sabe, em Sabrina, a feiticeira, quando ela se divide em duas pessoas, de modo que uma pode ir a uma festa com Harvey e a outra pode ir a conveno das bruxas 
com sua tia? Foi o que me aconteceu. Agora eu era duas pessoas. 

S que apenas uma delas estava consciente. A outra metade s ficou ali deitada, de olhos fechados. E sabe de uma coisa? Aquele hematoma na testa era realmente nojento. 
No era de espantar que todo mundo que a visse recuasse horrorizado. 
- Suzannah - disse o padre Dominic. - Voc est bem? Afastei o olhar de meu eu inconsciente.
- tima. - Olhei para o meu eu espiritual, que parecia exatamente idntico  pessoa embaixo de mim, a no ser que luzia um pouco. Um excelente acessrio de moda, 
por sinal, se voc conseguir usar. Voc sabe, aquele brilho espectral no corpo inteiro pode fazer coisas maravilhosas  pele de uma garota.
Alm de outra coisa. Sabe o hematoma na testa? , no doa mais.
- Voc no tem muito tempo - disse o padre Dominic. - S meia hora.
Pisquei para ele. 
- Como  que eu vou saber que a meia hora acabou? No tenho relgio. - No uso relgio porque, de algum modo, eles sempre acabam sendo esmagados por algum esprito 
recalcitrante. Alm disso, quem quer saber que horas so? A resposta  quase sempre frustrante.
- Use o meu - disse o padre Dom. Em seguida pegou seu enorme relgio de homem, com pulseira de mo, e me deu.
Era o primeiro objeto que eu pegava em meu novo estado fantasmagrico. Parecia absurdamente pesado. Mesmo assim consegui prender no pulso, onde ficou balanando 
frouxo, como um bracelete. Ou uma algema de priso.
- Certo - falei, olhando para aquele buraco acima de mim.
- Vamos l.
Eu precisava subir, claro. No me pergunte por que havia pensado nisso. Quero dizer, tinha de estender a mo e segurar as bordas daquele buraco no tempo e no espao 
e me puxar para cima. E com um vestidinho justo, imagina s. 
Tudo bem. Estava na metade do caminho quando escutei uma voz familiar guinchando meu nome. 
O padre Dominic girou. Inclinei-me do buraco - atravs do qual s podia enxergar nvoa, uma nvoa cinzenta que umedecia meu rosto - e vi Jack, imagina s, correndo 
pela igreja em nossa direo, o rosto branco de medo e com alguma coisa se arrastando atrs.
O padre Dominic estendeu a mo e o agarrou logo antes de ele se jogar sobre minha forma inconsciente. Obviamente no viu minhas pernas balanando do enorme rasgo 
no teto da igreja.
- O que voc est fazendo aqui? - perguntou o padre Dominic, com o rosto quase to branco quanto o do garoto. - Faz idia de que horas so? Seus pais sabem que voc 
est aqui? Eles devem estar morrendo de preocupao...
- Eles... eles esto dormindo - ofegou Jack. - Por favor, Suze esqueceu... ela esqueceu a corda. - Jack estendeu o comprido objeto branco que se arrastava atrs 
dele enquanto corria entre os bancos. Era minha corda, da primeira tentativa de me exorcizar. - Como ela vai encontrar o caminho de volta sem a corda?
O padre Dominic pegou a corda com Jack, sem agradecer. 
- Foi muito errado vir aqui, Jack - falou desaprovando. - O que voc pensou? Eu lhe disse que ia ser muito perigoso.
- Mas... - Jack continuou olhando para minha metade inconsciente. - A corda. Ela esqueceu a corda.
- Aqui - gritei do meu buraco celestial. - Joga aqui. Jack me olhou, e a ansiedade abandonou seu rosto.
- Suze! - gritou deliciado. - Voc  um fantasma!
- Shh! - 0 padre Dominic pareceu sentir dor. - Olhe, rapazinho, voc deve falar baixo.
- Oi, Jack - respondi do meu buraco. - Obrigado por trazer a corda. Mas como chegou aqui?
- No nibus do hotel - disse Jack com orgulho. - Me escondi dentro. Ele vinha pegar um bocado de gente bbada. Quando parou perto da Misso, eu sa.
Eu no poderia ter sentido mais orgulho se ele dissesse que era meu filho.
- Bem pensado - falei.
- Est  a ltima coisa de que precisamos agora - gemeu o padre Dominic. - Aqui, Suzannah, pegue a corda e, pelo amor de Deus, v depressa.
Inclinei-me para baixo e peguei a ponta da corda, depois amarrei firme na cintura.
- Certo. Se eu no voltar em meia hora, comecem a puxar.
- Vinte e cinco minutos - corrigiu o padre Dominic. - Ns perdemos tempo, graas a interrupo deste jovem. Agora v, Suzannah. 
- Certo. Tudo bem. J volto. 
E ento puxei as pernas para dentro do buraco. Quando olhei para baixo, pude ver o padre Dominic e Jack ali parados, me espiando. E tambm podia me ver, dormindo 
como Branca de Neve, num crculo de velas com as chamas danando. Mas duvido de que Branca de Neve usasse Prada.
Levantei-me e olhei ao redor. Nadinha.
Srio. No havia nada ali. S aquele cu preto, atravs do qual algumas estrelas queimavam frias. E a nvoa. Densa, sempre em movimento, fria. "Eu deveria ter posto 
um suter", pensei com um tremor. A nvoa parecia tornar pesado o ar que eu sugava para os pulmes. E tambm parecia servir como abafador. No dava para ouvir nenhum 
som, nem mesmo meus passos.
Ah, bem. Vinte e cinco minutos no era muito tempo.
Enchi o peito com o ar mido e gritei: - Jesse!
Foi um gesto altamente eficaz. No que Jesse tenha aparecido. Ah, no. Mas um cara mais velho.
Vestido de gladiador, nada mais nada menos.
No estou brincando. Parecia o cara do carto American Express da minha me (que freqentemente eu pego emprestado - com permisso dela, claro). Voc sabe, com a 
vassoura se projetando do elmo, a minissaia de couro, a espada enorme. No dava para ver os ps por causa da nvoa, mas presumi que, se pudesse, ele estaria usando 
sandlias amarradas (que ficam pssimas em gente com joelhos gordos).
- Voc no  daqui - disse ele em voz profunda e objetiva. Veja bem. Eu sabia que o vestidinho preto era um erro.
Mas quem iria imaginar que o purgatrio tinha cdigo de vestimenta?
- Sei disso - falei, dando meu melhor sorriso.
Talvez o padre D. estivesse certo. Talvez eu tenha mesmo uma tendncia para usar minha sexualidade com o intuito de conseguir o que quero. Certamente eu estava dando 
uma de mulherzinha para o sujeito tipo Russell Crowe que estava diante de mim.
- O negcio - falei segurando a corda -  que estou procurando um amigo. Talvez voc o conhea. Jesse de Silva. Ele veio para c ontem  noite, acho. Tem uns vinte 
anos, um metro e oitenta e poucos, cabelo preto, olhos escuros...
Msculos abdominais de matar?
Russel Crowe no devia estar escutando direito, porque s falou de novo:
- Voc no  daqui.
Certo, o vestidinho preto tinha sido definitivamente um erro. Porque, como  que eu ia chutar esse cara fora do caminho sem rasgar a saia?
- Olha, moo - falei, indo at ele e tentando no notar que seus peitorais eram to pronunciados a ponto de tornar seus peitos maiores do que os meus. Muito maiores. 
- Eu j disse, estou procurando algum. Agora: ou voc me diz se o viu ou saia da minha frente, certo? Eu sou mediadora, entendeu? Tenho tanto direito de estar aqui 
quanto voc.
Claro que eu no sabia se isso era verdade, mas ora, eu sou mediadora a vida inteira, e no ganhei xongas por isso. Para mim, algum me devia, e muito.
O gladiador pareceu concordar. E falou num tom totalmente diferente:
- Mediadora? - E me olhou como se eu fosse um macaco que de repente tivesse comeado a recitar o juramento a bandeira.
Mesmo assim devo ter feito alguma coisa certa, porque ele disse lentamente:
- Sei de quem voc fala.
Ento pareceu tomar uma deciso. Ficando de lado, disse em voz autoritria:
- V agora. No abra nenhuma porta. Ele vir. Encarei-o. Uau.
- Voc est... est falando srio?
Pela primeira vez o sujeito demonstrou alguma personalidade.
- Pareo estar brincando?
- Ah... no.
- Porque eu sou o porteiro. No brinco. V agora. - E apontou. - Voc no tem muito tempo.
 distncia, na direo em que ele estava apontando, vi alguma coisa. No sei o que era, mas no era nvoa. Senti vontade de abraar meu amigo gladiador, mas me 
contive. Ele no parecia do tipo que aprova demonstraes de afeto.
- Obrigada. Muito obrigada.
- Depressa - respondeu o porteiro. - E lembre-se, independentemente de qualquer coisa, no v para a luz.
Eu tinha dado uma puxada na corda, para o padre D. afroux-la. Agora simplesmente fiquei ali parada, segurando-a, olhando o gladiador.
- No v para a luz? - ecoei. - Voc no est falando srio. Juro que ele ficou indignado.
- J lhe disse, eu no brinco. Por que acha que eu diria algo que no fosse a srio?
Queria dizer que o negcio de "no v para a luz" estava meio batido. Quero dizer, Poltergeist um, dois e trs tinham deixado essa fala bem explcita.
Mas quem sabia? Talvez o cara que escreveu aqueles filmes fosse mediador. Talvez ele e o porteiro fossem colegas, ou sei l o que.
- Certo - falei passando por ele. - Saquei. No ir para a luz.
- Nem abra nenhuma porta - lembrou o porteiro.
- Nenhuma porta - respondi apontando para ele e piscando. - Falou e disse.
Ento me virei e a nvoa sumiu.
Bem, no sumiu totalmente. Quero dizer, ela ainda estava ali, lambendo meus calcanhares. Mas a maior parte havia desaparecido, de modo que eu podia ver que estava 
num corredor repleto de portas. No havia teto, s aquelas estrelas piscando frias e o cu totalmente preto. Mesmo assim, o longo corredor de portas fechadas parecia 
se estender para sempre, diante de mim.
E eu no deveria abrir nenhuma daquelas portas. Nem ir para a luz.
Bem, a segunda parte era fcil. No vi nenhuma luz para onde ir. Mas por que eu no deveria abrir uma daquelas portas? Quero dizer, verdade. O que acontecia atrs 
delas? O que eu encontraria se abrisse uma, s uma fresta, e espiasse para dentro? Outro universo? O planeta Vulcano? Talvez um mundo onde Suze Simon era uma garota 
normal, e no uma mediadora? Talvez um mundo onde Suze Simon era rainha da festa de boas-vindas e a pessoa mais popular de toda a escola, e Jesse no era um fantasma 
e podia lev-la as festas, tinha seu prprio carro e no morava no quarto dela?
Ento parei, imaginando o que haveria atrs de todas aquelas portas. Isso porque, vindo pelo corredor, na minha direo - como se tivesse acabado de se materializar 
ali, a partir do nada -, estava Jesse.
Pareceu bastante surpreso ao me ver. No sei se era o fato de eu estar ali parada no que, imagino, era a sala de espera do cu, ou se era o belo pedao de corda 
amarrado na minha cintura que, tenho de admitir, no combinava nada com o restante da roupa.
O que quer que fosse, ele ficou bem chocado.
- Ah - falei, levantando a mo para garantir que a franja cobrisse o hematoma feio. - Oi. 
Jesse se imobilizou e s ficou me encarando. Era como se no pudesse acreditar no que via. No estava diferente da ltima vez em que o vi. Quero dizer, na ltima 
vez em que vi seu fantasma. A ltima vez em que eu o vi, claro, foi um vislumbre de seu cadver podre, e, claro, isso me fez por para fora o jantar.
Mas este Jesse era muito mais fcil de olhar.
Mesmo assim, se eu esperava algum tipo de encontro alegre - um abrao ou, que Deus no permita, um beijo-, ia me desapontar. Ele s ficou ali parado, me olhando 
como se houvesse brotado uma cabea a mais no meu pescoo desde que nos vimos pela ltima vez.
- Suzannah - ofegou ele. - O que est fazendo aqui? Voc est... voc no est...
Captei o sentido imediatamente e falei com um riso nervoso: 
- Morta? Eu? No, no, no. Eu s, ... vim aqui porque queria... ... voc sabe, ver se voc estava bem... 
Certo, ser que dava para ser mais pattica? Puxa, srio. 
Eu tinha visualizado esse momento mil vezes desde que havia decidido que ia procur-lo, e em todas as minhas fantasias nenhuma explicao era necessria. Jesse simplesmente 
me abraava e comeava a me beijar. Na boca. 
Mas isso... Isso era incmodo de monto. Gostaria de ter preparado um discurso. 
-  ... - falei. O que eu realmente queria era parar de dizer . - Veja bem, o negcio  que eu precisava me certificar de que voc estava aqui porque queria. Porque, 
se no quiser, bem, o padre Dom e eu achamos que talvez seria possvel voc voltar. Para... ... terminar o que, voc sabe, estava segurando voc l embaixo. Quero 
dizer, no meu mundo. No nosso mundo - me corrigi depressa, lembrando-me do alerta do padre Dominic. - Quero dizer, no nosso mundo. 
Jesse continuou s me encarando. 
- Suzannah. - A voz dele estava estranha. Deduzi o motivo um segundo depois, quando ele perguntou: - No foi voc que me mandou para c? 
Encarei-o boquiaberta. 
- O qu? O que voc est falando? 
Agora eu sabia o que havia de to estranho em sua voz. 
Estava cheia de mgoa. 
- Voc no me exorcizou? - perguntou ele. 
- Eu? - Minha voz disparou subindo umas dez oitavas. 
- Eu? Jesse, claro que no. Eu jamais faria isso. Quero dizer, voc sabe que eu nunca faria algo assim. Aquele garoto, o Jack,  que fez. Sua namorada Maria mandou 
que ele fizesse. Ela estava tentando se livrar de voc. Disse ao Jack que voc estava me incomodando, e ele no sabia de nada, por isso exorcizou voc, e ento Felix 
Diego me jogou do telhado da varanda, e, Jesse, eles acharam o seu corpo, quero dizer, os seus ossos, e eu vi e vomitei na lateral da casa, e o Spike est sentindo 
muita falta sua e eu fiquei pensando, sabe, que se voc quisesse voltar, poderia, porque  por isso que eu tenho esta corda, para a gente achar o caminho de volta. 
Eu estava falando sem parar. Tenho tendncia de fazer isso at mesmo quando no estou no purgatrio. Mas no pude evitar. A coisa toda meio se derramava de mim. 
Bem, no toda. Quero dizer, de jeito nenhum eu iria dizer por que queria que ele voltasse. No ia falar a palavra que comea com "a", nem nada. E tambm no era 
por causa do aviso do padre D. 
- Isto  - continuei -, se voc quiser voltar. D para ver por que voc gostaria de ficar aqui. Quero dizer, depois de 150 anos e coisa e tal, provavelmente  um 
alvio. Imagino que vo transportar voc logo, e voc ter uma vida nova, ou vai para o cu, ou sei l o que. Mas fiquei pensando, sabe, que no foi justo Maria 
ter feito o que fez com voc.
Duas vezes. E que se voc quiser voltar e deduzir o que estava fazendo l embaixo na Terra durante tanto tempo, bem, eu daria uma mo, se pudesse. 
Olhei o relgio do padre D. Era mais fcil do que olhar o rosto de Jesse e ver que ele ainda tinha aquela expresso inescrutvel, como se no pudesse acreditar no 
que via. E ouvia.
- A nica coisa - falei -  que s posso ficar fora do corpo por meia hora antes de me separar definitivamente, e ns s temos quinze minutos. De modo que voc precisa 
decidir depressa. O que vai ser? 
"Ser que isso foi suficientemente no-feminino para o padre Dom?", pensei. No estava nem um pouco forando a barra. Ningum poderia me acusar nem mesmo de sorrir. 
Eu era a prpria imagem da mediadora profissional. 
S no sabia por quanto tempo conseguiria manter o tom profissional. Especialmente quando Jesse estendeu uma das mos e a pousou no meu brao. 
- Suzannah - disse ele, e sua voz no estava nem um pouco cheia de mgoa, mas sim de uma coisa que, se eu no me enganei, parecia muito com raiva. - Voc est dizendo 
que morreu por mim? 
- ... - falei, imaginando se contaria com o uso dos meus ardis femininos caso ele  que me tocasse. - Bem, no tecnicamente. Ainda. Mas se demorarmos aqui por muito 
mais tempo... 
A mo no meu brao se apertou. - Vamos - disse ele. 
No sei se Jesse realmente entendeu a situao. 
- Jesse. Eu posso achar o caminho de volta, certo? Eu sou assim com o porteiro. - E levantei os dedos cruzados. - Se voc quer ir comigo porque quer voltar, tudo 
bem, mas se s quer me levar de volta ao buraco, acredite: posso chegar l sozinha. 
Jesse apenas falou: 
- Suzannah, cale a boca.
E ento, ainda com uma das mos no meu brao, segurou a corda e comeou a segui-la de volta na direo de onde eu tinha vindo.
Ah, pensei enquanto ele me empurrava. "Certo. Fantstico. Agora est com raiva de mim. Eu arrisco a vida - porque, vamos encarar os fatos, era isso que estava fazendo 
- e ele fica com raiva de mim por causa disso." Eu deveria ter pensado. Quer dizer, arriscar a vida por um cara  praticamente como usar a palavra que comea com 
"a". Pior at. Como  que eu ia sair dessa? 
- Jesse, no fique lisonjeado porque fiz isso por voc. Quero dizer, ter voc como colega de quarto tem sido um tremendo p no saco. Acha que eu gosto de ter de 
chegar da escola ou do trabalho e ter de explicar coisas como a baa dos Porcos? Acredite, a vida com voc no  um piquenique.
Ele no disse nada. S continuou me puxando. 
- Ou o negcio do Tad? - falei, puxando um assunto que eu sabia que era incmodo. - Quero dizer, voc acha que eu gosto de arrast-lo para os meus encontros? Ter 
voc fora da minha vida vai tornar as coisas muito mais simples, portanto, no pense, voc sabe, que fiz isso por voc. S fiz porque aquele seu gato estpido anda 
chorando feito maluco. E tambm porque qualquer coisa que eu possa fazer para enlouquecer sua namorada idiota, vou fazer.
- Nombre de Dios, Suzannah - murmurou Jesse. - Maria no  minha namorada. 
- Bem, certamente j foi. E que negcio  esse, afinal? Aquela garota  uma tremenda vagabunda, Jesse. No acredito que voc tenha concordado em se casar com ela. 
Quero dizer, o que voc estava pensando? No dava para ver como ela era por baixo de toda aquela renda? 
- Na poca as coisas eram diferentes, Suzannah - disse Jesse com os dentes trincados. 
- Ah, ? To diferentes que voc no podia dizer que a garota com quem voc ia se casar era uma grandessssima... 
- Eu mal a conhecia - respondeu Jesse fazendo-me parar e me encarando furioso. - Certo? 
- Bela tentativa. Vocs eram primos. Outra coisa que, se voc realmente quer saber, me deixa enojada...
- Sim, ramos primos - interrompeu Jesse, sacudindo meu brao. - Mas, como falei antes, na poca as coisas eram diferentes, Suzannah. Se tivssemos mais tempo eu 
lhe diria ...
- Ah, no, nem vem com essa. Ns ainda temos... - olhei o relgio do padre D. - ...doze minutos. Diga agora. 
- Suzannah... 
- Fale agora, Jesse, ou juro que no vou me mexer. 
Ele gemeu de frustrao e disse o que eu acho que devia ser uma palavra muito feia, s que no tive certeza, porque foi em espanhol. Na escola no ensinam palavres 
em espanhol. 
- timo - respondeu ele, largando meu brao. - Quer saber? Quer saber como era na poca? Era diferente, certo? A Califrnia era diferente. Completamente diferente. 
No havia esta mistura dos sexos. Garotos e garotas no brincavam juntos, no se sentavam lado a lado na sala de aula. Eu s ficava na mesma sala com Maria durante 
as refeies, ou algumas vezes em bailes. E ficvamos rodeados de pessoas. Duvido que eu tenha ao menos ouvido Maria falar mais do que algumas palavras... 
- Bem, evidentemente eram palavras bem impressionantes, porque voc concordou em se casar com ela. 
Jesse passou a mo pelo cabelo e exclamou outra vez em espanhol. 
- Claro que concordei em me casar com ela. Meu pai queria, o pai dela queria. Como eu poderia dizer no? No queria dizer no. No sabia o que ela era, pelo menos 
na poca. S mais tarde, quando recebi as cartas, percebi... 
- Que ela no sabe escrever? 
Ele me ignorou. 
- ... que ns dois no tnhamos nada em com um, e jamais teramos. Mas mesmo assim no teria desgraado minha famlia rompendo o compromisso com ela. No por isso. 
- Mas quando ouviu dizer que ela no era pura como a neve? - Cruzei os braos diante do peito e encarei furiosa aquele produto machista do sculo XIX. - Foi ento 
que voc decidiu que ela no servia para ser esposa? 
- Quando ouvi boatos sobre Maria e Felix Diego fiquei infeliz - disse ele, impaciente. - Eu conhecia Diego. Ele no era um bom homem. Era cruel e... Bem, sempre 
procurava meios de ganhar dinheiro. E Maria tinha muito dinheiro. D para adivinhar por que ele queria se casar com ela. Por isso, quando descobri, decidi que seria 
melhor terminar, sim ... 
- Mas Diego foi conhecer voc primeiro - falei com a voz embargada. 
- Suzannah. - Ele me encarou. - Eu tive um sculo e meio para me acostumar com a morte. No me importa mais quem me matou, ou por qu. O importante agora  garantir 
que voc no termine do mesmo modo. Agora vai se mexer ou terei de carreg-la? 
- Certo - respondi permitindo que ele me puxasse de novo. - Mas s quero deixar uma coisa clara. Eu no fiz tudo isso... voc sabe, ser exorcizada, vir aqui e coisa 
e tal, porque estou apaixonada por voc nem nada disso. 
- Eu no iria me sentir lisonjeado como voc diz - respondeu ele, srio. 
- Isso mesmo. - Imaginei se ainda estava sendo suficientemente no-feminina. Na verdade, estava comeando a me achar um pouco no- feminina demais. At mesmo hostil. 
- Porque no estou. Vim pelo gato. O gato sente muita falta de voc. 
- Voc no deveria ter vindo por nada - respondeu Jesse baixinho. Mesmo assim ouvi. No era como se houvesse mais um monte de rudos aqui em cima. Vi que tnhamos 
sado do corredor, que havia desaparecido no minuto em que demos as costas para ele, e estvamos de volta na nvoa, seguindo a corda que, felizmente, Jack havia 
se lembrado de trazer. - No acredito que o padre Dominic permitiu isso. 
- Ei, deixe o padre D. fora disso.  tudo nossa culpa, voc sabe. Nada disso teria acontecido se voc simplesmente fosse honesto e se aberto comigo desde o incio, 
sobre como morreu. Ento eu poderia pelo menos ter dito ao Andy para cavar em outro lugar. E estaria preparada para enfrentar Maria e seu marido imprestvel. No 
sei por que ficaram to abalados com a idia de as pessoas descobrirem que eles so dois assassinos, mas esto muito decididos a manter como um mistrio o que aconteceu 
com voc ...
- Isso  porque, para eles, no se passou tempo algum desde a morte. Eles estavam descansando at que se tornou evidente que meu corpo seria encontrado, o que inevitavelmente 
abriria especulaes sobre a causa de meu desaparecimento. Eles no entendem que se passou mais de um sculo. Esto tentando preservar seu lugar na comunidade, como 
os cidados importantes que j foram. 
- Nem diga! - falei, passando a mo no machucado. - Os dois acham que ainda  1850 e tm medo de os vizinhos descobrirem que eles apagaram voc. Bem, dentro de um 
ou dois dias a coisa vai estourar na cara deles. A verdade est sendo revelada, por cortesia do Pinho de Carmel... 
Jesse girou para me encarar. Estava mais furioso do que nunca. 
- Suzannah. O que voc est falando? 
- Contei a histria toda a Cee Cee - expliquei, incapaz de impedir que o tom de orgulho se esgueirasse na voz. - Ela est fazendo estgio no jornal. Disse que vo 
publicar a histria, a histria real do que aconteceu com voc, no domingo. 
Ao ver sua expresso ficando, no mnimo, mais sombria, acrescentei: 
- Jesse, eu tinha de fazer isso. Maria matou o cara da sociedade histrica, de quem ela roubou sua pintura para fazer o exorcismo. Tenho certeza de que matou o av 
dele tambm. Maria e o marido mataram todo mundo que j tentou contar a verdade sobre o que aconteceu com voc naquela noite. Mas no vo poder mais fazer isso. 
A histria vai chegar a trinta e cinco mil pessoas. Talvez mais, porque vo colocar no site do jornal. Maria no poder matar todo mundo que ler. 
Jesse balanou a cabea. 
- No, Suzannah. Ela vai se contentar em matar voc. 
- Jesse, ela no pode me matar. J tentou. Tenho uma novidade: eu sou realmente dura de matar. 
- Talvez no. 
Jesse estava segurando uma coisa, e eu olhei. Para minha surpresa, vi que era a corda que estivramos seguindo. 
S que, em vez de ver a ponta desaparecendo no buraco por onde eu tinha subido, ela estava esgarada na mo de Jesse. Como se tivesse sido cortada. 
Com uma faca. 

   Captulo 16

Olhei horrorizada para a ponta da corda. 
 Engraado. Sabe qual foi a primeira coisa que me passou pela cabea? 
- Mas o padre Dom disse que Maria e Felix eram bons catlicos - gritei - Ento o que esto fazendo l embaixo naquela igreja? 
Jesse teve um pouco mais de presena de esprito do que eu. Pegou meu pulso e o torceu para ver o mostrador do relgio do padre Dominic. 
- Quanto tempo a mais voc tem? - perguntou ele. - Quantos minutos? 
Engoli em seco. 
- Oito. Mas o motivo para o padre Dom ter abenoado minha casa foi para que eles no tentassem entrar, e ento olha s o que eles fizeram. Entraram numa igreja... 
Jesse olhou em volta.
- Vamos achar a sada - falou. - No se preocupe, Suzannah. Tem de estar por aqui. Vamos achar. 
Mas no amos. Eu sabia. No havia sentido sequer em olhar. Com a nvoa cobrindo o cho to densa, no havia chance de encontrarmos o buraco pelo qual eu tinha subido. 
No. Suzannah Simon, que fora to dura de matar, de fato j estava morta. 
Comecei a desamarrar a corda da cintura. Se ia encontrar meu criador, pelo menos queria estar com boa aparncia. 
- Deve estar por aqui - dizia Jesse enquanto balanava a mo na nvoa, tentando afast-la para ver por baixo. - Deve estar, Suzannah. 
Pensei no padre Dominic. E em Jack. Pobre Jack. Se aquela corda tinha sido cortada, s podia ser porque alguma coisa catastrfica aconteceu l embaixo naquela igreja. 
Maria de Silva, aquela catlica praticante que o padre D. tivera tanta convico de que jamais ousaria atacar um terreno consagrado, no se apavorava tanto com a 
possibilidade de ofender o Senhor quanto o padre Dominic havia presumido. Eu esperava que ele e Jack estivessem bem. O problema dela era comigo, e no com eles.
- Suzannah. - Jesse estava me espiando. - Suzannah, por que voc no procura? No pode desistir, Suzannah. Vamos encontrar. Sei que vamos encontrar. 
S olhei para ele. Nem o estava vendo, realmente. Estava pensando na minha me. Como  que o padre Dominic iria explicar? Quero dizer, se  que ele tambm j no 
estava morto. Mame iria suspeitar muito, muito mesmo, se meu corpo fosse encontrado na baslica. Quero dizer, eu nem freqentava a igreja aos domingos. Por que 
estaria l numa noite de sexta-feira?
- Suzannah! - Jesse me segurou pelos dois ombros. Agora me deu uma sacudida com fora suficiente para fazer meu cabelo voar. - Suzannah, est ouvindo? S temos mais 
cinco minutos. Precisamos achar uma sada. Chame-o.
Pisquei para ele, afastando confusa o cabelo dos olhos.
Isso pelo menos era uma coisa boa. Eu nunca teria de me preocupar em achar o tom perfeito para cobrir as grisalhos. Agora nunca ficaria grisalha. 
- Chamar quem? - perguntei atordoada. 
- O porteiro - respondeu Jesse com os dentes trincados. - Voc disse que ele era seu amigo. Talvez nos mostre o caminho.
Olhei nos olhos de Jesse. Vi neles uma coisa que nunca havia notado. Percebi, num jorro, o que era essa coisa.
Medo. Jesse estava com medo.
E de repente fiquei com medo tambm. Antes estivera chocada. Agora estava apavorada. Porque, se Jesse estava com medo, bem, isso significava que uma coisa muito, 
muito ruim ia acontecer. Porque Jesse no se apavora com facilidade. 
- Chame-o - insistiu ele.
Afastei meu olhar do dele e espiei ao redor. Em toda parte - toda parte para onde olhava - s via nevoa, cu noturno e mais nvoa. Nada do porteiro. Nenhum buraco 
para voltar a igreja da Misso Junipero Serra. Nenhum corredor cheio de portas. Nada.
E ento, de repente, havia uma coisa. Uma figura vindo na nossa direo. Fiquei cheia de alvio. O porteiro, finalmente. Ele me ajudaria. Eu sabia que sim...
S que, quando chegou mais perto, vi que no era o porteiro. O cara no tinha nada na cabea alm de cabelos. Cabelos castanhos encaracolados. Exatamente como...
- Paul? - falei incrdula.
No podia acreditar. Era o Paul. Paul Slater. Paul Slater estava vindo para ns. Mas como... 
- Suze - disse ele em tom casual enquanto se aproximava.
Suas mos estavam nos bolsos, com a camisa Brooks Brothers para fora da cala. Parecia que tinha acabado de chegar de um longo dia no campo de golfe.
Paul Slater. Paul Slater.
- O que voc est fazendo aqui? - perguntei. - Voc est... est morto?
- Eu ia lhe fazer a mesma pergunta. - Paul olhou para Jesse, que continuava segurando meus ombros. - Quem  o seu amigo? Presumo que seja amigo, no ? 
- Eu... - Olhei de Jesse para Paul e de volta. - Vim aqui peg-lo. Ele  meu amigo. Meu amigo Jesse. Jack o exorcizou por acidente e... 
- Ah - disse Paul, balanando para trs e para a frente nos calcanhares. - . Eu lhe disse que deveria ter deixado o Jack em paz. Ele nunca ser um de ns, voc 
sabe.
S o encarei. No podia deduzir o que estava acontecendo. Paul Slater, aqui? No fazia nenhum sentido. A no ser que estivesse morto.
- Um de... de qu?
- Um de ns - repetiu Paul. - Eu lhe disse, Suze. Todo esse absurdo de fazer o bem, de ser mediador. No acredito que voc tenha cado nessa. - Ele balanou a cabea, 
rindo um pouquinho. - Achei que era mais inteligente do que isso. Quero dizer, o velho, d para entender. Ele  de um mundo totalmente diferente, de outra gerao. 
E Jack, claro, ... bem, claramente inadequado para esse tipo de coisa. Mas voc, Suze. Eu esperaria mais de voc.
Jesse soltou meus ombros, mas ficou com uma das mos firme num dos meus pulsos... o pulso que estava com o relgio do padre Dominic.
- Imagino que este no seja o porteiro - disse ele.
- No - falei. - Este  o irmo de Jack, Paul. Paul? - Olhei-o. - Como chegou aqui? Voc est morto?
Paul revirou os olhos.
- No. Por favor. E voc no precisa passar par toda aquela baboseira para vir aqui, tambm. Como eu, voc pode vir e ir embora quando quiser, Suze. Simplesmente 
passou tanto tempo "ajudando" - ele fez as aspas no ar com os dedos - almas perdidas como esta - e balanou a cabea na direo de Jesse - que no teve chance de 
se concentrar em descobrir seu verdadeiro potencial.
Encarei-o.
- Voc disse... voc me disse que no acreditava em fantasmas.
Ele sorriu como uma criana com a mo presa no vidro de biscoitos.
- Deveria ter sido mais especfico. No acredito , deix-los pegar no meu p, como voc claramente deixa. - Seu olhar foi at Jesse, cheio de desprezo.
Eu continuava com problemas para processar o que estava vendo... e ouvindo. 
- Mas... mas no  isso que os mediadores devem fazer? - gaguejei. - Ajudar almas perdidas?
Paul conteve um tremor, como se a nvoa girando ao nosso redor subitamente tivesse ficado mais fria.
- De jeito nenhum. Bem, talvez o velho. E o garoto. Mas eu, no. E voc, certamente, no, Suzannah. E se tivesse se incomodado em me dar um tempo, em vez de ficar 
to envolvida em resgatar esse a - ele deu um riso de desprezo na direo de Jesse -, talvez eu pudesse lhe mostrar exatamente do que  capaz. Que  muito mais 
do que voc pode comear a imaginar.
Um olhar para Jesse me mostrou que era melhor eu cortar essa conversinha se no quisesse mais derramamento de sangue. Pude ver um msculo, que nunca tinha notado 
antes, saltando no maxilar de Jesse.
- Paul - falei. - Quero que saiba que realmente significa muito para mim o fato de que voc, aparentemente, tem todo o controle do mundo mstico. Mas neste momento, 
se eu no voltar a Terra, vou acordar morta. Para no mencionar que, se no estou enganada, seu irmozinho pode estar passando o maior perrengue l embaixo com um 
cara chamado Diego e uma garota de saia-balo.
Paul assentiu.
- . Graas a voc e sua recusa em reconhecer seu verdadeiro talento, a vida de Jack est em perigo, bem como a do padre, por sinal.
Jesse fez um movimento sbito na direo de Paul, que eu interrompi segurando sua mo.
- Ento que tal nos ajudar um pouquinho, hein, Paul, j que sabe tanto? - perguntei. No era brincadeira conter o Jesse. Ele parecia pronto para arrancar a cabea 
do cara. - Como podemos sair daqui?
Paul deu de ombros.
- Ah,  s isso que voc quer saber?  fcil. Basta ir para a luz.
- Ir para a... - parei, furiosa. - Paul!
Ele deu um risinho.
- Desculpe. S quis saber se voc tinha visto o filme. Mas no estava rindo uma frao de segundo depois, quando Jesse de repente se lanou contra ele.
Srio. Foi que nem um documentrio do mundo animal.
Num instante Paul estava ali parado, dando um risinho, e no outro o punho de Jesse estava afundando em seu rosto bronzeado e bonito.
Bem, eu tentei impedi-lo. Afinal de contas Paul provavelmente era minha nica sada dali. Mas no posso dizer que realmente me importei ao ouvir o som de cartilagem 
nasal se rompendo. 
Paul foi uma gracinha. Comeou a xingar e dizer coisas como: 
- Voc quebrou meu nariz! No acredito que voc quebrou meu nariz!
- Vou quebrar mais do que o nariz - declarou Jesse, agarrando Paul pelo colarinho e balanando o punho sujo de sangue na frente dos olhos dele - se no disser como 
sair daqui agora.
Jamais descobri como Paul poderia ter respondido a esta interessante ameaa. Porque escutei uma voz docemente familiar chamando meu nome. Girei, e ali, correndo 
para mim atravs da nvoa, estava Jack.
Em volta de sua cintura havia uma corda. 
- Suze - gritou ele. - Venha depressa! Aquela fantasma ruim, contra quem voc me avisou, cortou sua corda. E agora ela e aquele outro esto batendo no padre Dominic! 
- Ento ele parou de correr, viu Jesse ainda segurando Paul ensangentado e disse, curioso: - Paul? O que voc est fazendo aqui?
Um instante se passou. Na verdade foi o tempo de uma batida de corao, se eu tivesse corao, coisa que, claro, no tinha. Ningum se mexeu. Ningum respirou. Ningum 
piscou.
Ento Paul olhou para Jesse.
- Voc vai se arrepender disso - falou. - Entende? Vou fazer voc lamentar.
Jesse apenas riu, sem o mnimo trao de humor. - Esteja  vontade para tentar.
Ento empurrou Paul, como se ele fosse um leno de papel usado, adiantou-se, segurou meu pulso e me arrastou at Jack.
- Ento nos leve - disse ao menino.
E Jack, enfiando a mo na minha, fez isso sem olhar para o irmo. Nem mesmo uma vez. 
O que me revelou praticamente tudo, percebi. Menos o que realmente queria saber. 
Exatamente quem - ou, mais corretamente, o que - era Paul Slater.
Mas no tive tempo para ficar e descobrir. O relgio do padre Dominic me dava um minuto para voltar ao corpo ou ser posta na difcil situao de no ter um corpo... 
o que tornaria um verdadeiro problema comear o ltimo ano do segundo grau.
Felizmente o buraco no ficava longe de onde estivemos. 
Quando chegamos l e olhei para baixo, no pude ver o padre Dominic em lugar nenhum. Mas podia ouvir os sons de uma luta - vidro se partindo, objetos pesados batendo 
no cho, madeira sendo lascada.
E pude ver meu corpo estendido abaixo, como se eu estivesse dormindo, e dormindo to profundamente que no reagia ao som de toda aquela balburdia. Nem mesmo um tremor.
De algum modo a descida parecia muito mais longa do que tinha sido a subida. 
Virei-me e olhei para Jack.
- Voc deve ir primeiro. Vamos baix-lo pela corda. Mas ele e Jesse gritaram ao mesmo tempo:
- No!
E a prxima coisa que eu soube era que estava caindo. 
Verdade. Despenquei e despenquei, e apesar de no poder ver grande coisa enquanto caa, pude ver onde iria bater. E, vou lhe contar, no estava achando legal esmagar 
meu prprio...
Mas no. Exatamente como nos sonhos de queda, abri os olhos no momento do impacto e me vi piscando para o rosto de Jesse e Jack, que me espiavam da borda do buraco 
que o padre Dom havia criado com seu cntico.
Estava dentro de mim mesma outra vez. E inteira. Dava para ver, quando estendi as mos para verificar se as pernas continuavam no lugar. Continuavam. Tudo funcionava. 
At o hematoma na testa doa de novo. 
E quando, um segundo depois, uma esttua da Virgem Maria - a que, segundo Adam, chorava sangue - caiu sobre minha barriga, bem, isso tambm doeu de verdade.
- A est ela - gritou Maria de Silva. - Pegue-a!
Vou lhe contar, estou realmente ficando cansada de pessoas - principalmente pessoas mortas - tentando me matar. Paul est certo: eu sou boazinha. No fao nada alm 
de tentar ajudar as pessoas, e o que recebo em troca? Esttuas da Virgem Maria na barriga. No  justo. 
Para mostrar como achava tudo isso injusto, empurrei a esttua para o lado, fiquei de p e agarrei Maria pela parte de trs da saia. Aparentemente, lembrando-se 
do ltimo incidente comigo, ela decidiu fugir. Mas era tarde demais.
- Sabe, Maria - falei em tom ameno enquanto a puxava pelas fitas, como um pescador recolhendo uma truta realmente grande. - Garotas como voc me irritam mesmo. Quero 
dizer, no s porque mandam os caras fazerem seu servio sujo em vez de o fazerem sozinhas.  todo esse negcio de "sou muito melhor do que voc porque sou uma de 
Silva" que me incomoda de verdade. Porque isso aqui so os Estados Unidos. - Estendi a mo e peguei um punhado de seus cabelos pretos brilhantes e encaracolados. 
- E nos Estados Unidos todos somos criados iguais, quer o sobrenome seja de Silva ou Simon.
- ? - gritou Maria, brandindo a faca. Aparentemente a havia conseguido de volta. - Bem, quer saber o que me irrita em voc? Acha que s porque  uma mediadora  
melhor do que eu.
Tenho de dizer que isso me deixou louca.
- Isso no  verdade - falei, inclinando-me enquanto ela girava a lmina. - No acho que sou melhor do que voc porque sou mediadora, Maria. Acho que sou melhor 
do que voc porque no ando por a concordando em me casar com caras que no amo.
Num timo prendi a mo dela as costas de novo. A faca tombou no cho com rudo. 
- E mesmo que concordasse - continuei -, no mandaria assassin-los para poder me casar com outro. Porque - segurando seu cabelo firme com a outra mo, guiei-a at 
a balaustrada do altar - acredito que a chave para um relacionamento bem-sucedido  a comunicao. Se voc simplesmente tivesse se comunicado melhor com Jesse, nada 
disso estaria acontecendo agora. Quero dizer, este  o seu problema verdadeiro, Maria. A comunicao acontece nos dois sentidos. Algum tem de falar. E algum tem 
de ouvir.
Vendo o que eu ia fazer, Maria guinchou: - Diego!
Mas era tarde demais. Eu j havia batido seu rosto, com fora, contra o corrimo do altar.
- O negcio - expliquei enquanto afastava sua cabea do corrimo para examinar a extenso dos danos -  que voc no ouve, no ? Quero dizer, eu lhe disse para 
no mexer comigo. E - inclinei-me para a frente e sussurrei em seu ouvido: - acho que eu especifiquei para voc no mexer com meu namorado tambm. Mas voc ouviu? 
No... voc... no... ouviu.
Acompanhei cada uma dessas quatro palavras com um golpe na cara de Maria.  cruel, sei, mas vamos encarar os fatos: ela merecia totalmente. A vaca tinha tentado 
me matar no uma vez, mas duas.
No que eu esteja contando nem nada.
Esse  o negcio com as garotas que cresceram no sculo XIX: so furtivas. Isso eu admito. Tem muito bem resolvido todo o negcio de esfaquear pelas costas e atacar 
pessoas adormecidas.
Mas e quanto ao combate corpo a corpo? , nisso no so muito boas. Quebrei seu pescoo facilmente, pisando em cima. Com sapatos Prada!
Uma pena que o pescoo no fosse permanecer quebrado por muito tempo.
Mas enquanto eu estava com ela muito bem dominada, olhei em volta para ver se Jack tinha descido em segurana.
E a coisa no era boa. Ah, Jack estava bem. S que curvado sobre o padre Dominic, que no parecia nem um pouco bem. Estava cado embolado num dos lados do altar, 
com aparncia pssima. Pulei por cima da balaustrada e fui at ele. 
- Ah, Suze - gemeu Jack. - No consigo acordar ele! Acho que...
Mas, enquanto ele falava, o padre Dom, com os culos bifocais tortos no rosto, soltou um gemido.
- Padre D.? - Levantei sua cabea e pousei-a gentilmente no colo. - Padre D., sou eu, Suze. Consegue me ouvir?
O padre D. s gemeu mais um pouco. Mas suas plpebras tremularam, o que eu sabia que era bom sinal.
- Jack - falei - Corra at aquela caixa dourada atrs do crucifixo, est vendo? E pegue a garrafa de vinho que est l dentro.
Jack correu para fazer o que eu tinha pedido. Pus o rosto perto do ouvido do padre Dominic e sussurrei:
- O senhor vai ficar bem. Fique firme, padre D. Agente as pontas.
Um estalo muito alto me distraiu. Olhei para o resto da igreja com um sbito sentimento de frustrao. Diego. Ele estava em algum lugar por ali. Tinha me esquecido 
dele...
Mas Jesse, no.
No sei por que, mas eu havia simplesmente presumido que Jesse teria ficado naquela arrepiante terra de sombras. No. Tinha voltado para este mundo - o mundo real 
- aparentemente sem pensar muito nas coisas das quais poderia estar abrindo mo. 
Por outro lado, aqui embaixo ele podia dar um tremendo cacete no cara que o havia matado, de modo que talvez no estivesse abrindo mo de grande coisa. De fato, 
ele parecia bem disposto a devolver o favor - voc sabe, matando o sujeito que o havia matado -, s que, claro, no podia fazer isso, porque Diego j estava morto.
Mesmo assim eu nunca tinha visto ningum partir para cima de algum com um objetivo to claro. Fiquei convencida de que Jesse no iria se satisfazer meramente quebrando 
o pescoo de Felix Diego. No, acho que ele queria arrancar a coluna vertebral do sujeito.
E estava se saindo muito bem. Diego era maior do que Jesse, mas tambm era mais velho, e no tinha ps to rpidos. Alm disso acho que Jesse simplesmente queria 
mais. Quero dizer, ver seu oponente decapitado. Pelo menos se a energia com que ele estava brandindo um pedao de banco de igreja contra a cabea de Felix Diego 
servisse como alguma indicao.
- Aqui - disse Jack ofegante quando trouxe o vinho na garrafa de cristal.
- Born - falei. No era usque (no  isso que a gente deveria dar as pessoas inconscientes, para acord-las?), mas tinha lcool. - Padre D. - falei, erguendo sua 
cabea e encostando a garrafa em seus lbios. - Beba um pouco disso.
S que no deu certo. O vinho simplesmente escorreu pelo queixo e pingou no peito. 
Enquanto isso Maria tinha comeado a gemer. O pescoo quebrado j estava comeando a se encaixar de volta. 
Esse  o problema dos fantasmas. Eles voltam. E rpido demais.
Jack a olhou arregalado enquanto ela tentava se levantar. 
- Uma pena a gente no poder exorcizar ela - disse ele. Encarei-o.
- Por que no?
Jack levantou as sobrancelhas.
- No sei. No temos mais sangue de galinha.
- No precisamos de sangue de galinha. Temos isso. - Assenti para o crculo de velas. Milagrosamente, apesar de toda a luta, elas haviam permanecido de p.
- Mas no temos um retrato dela. No precisamos de um retrato dela? 
- No, porque no precisamos invoc-la - falei, colocando gentilmente a cabea do padre D. de volta no cho. - Ela est aqui mesmo. Venha me ajudar a arrast-la. 
Jack pegou os ps. Eu segurei o tronco. Ela gemeu e lutou o tempo todo, mas quando a colocamos sobre os mantos do coro Maria deve ter sentido - como eu senti - que 
aquilo era confortvel de monto, porque parou de lutar e s ficou ali deitada. O crculo aberto pelo padre Dom acima de sua cabea continuava l, com a fumaa - 
ou nvoa, como eu agora sabia - descendo das bordas em redemoinhos turvos. 
- Como vamos fazer o buraco sugar ela? - perguntou Jack. 
- No sei. - Olhei para Jesse e Diego. Ainda estavam envolvidos no que parecia um combate mortal. Se eu tivesse achado que Jesse no estava em vantagem, teria ido 
ajudar, mas aparentemente ele ia se dando bem. 
Alem disso, o cara o havia matado. Achei que era hora de cobrar a dvida, e para isso Jesse no precisava de minha ajuda. 
- O livro! - falei me animando. - O padre Dom leu um livro. Olhe em volta. Est vendo? 
Jack achou o pequeno volume encadernado em couro preto embaixo do primeiro banco. Mas quando folheou as pginas ficou arrasado. 
- Suze - disse ele. - Isso nem  em ingls. 
- Tudo bem - falei. Em seguida peguei o livro e abri na gina marcada pelo padre Dominic. - Aqui est. 
E comecei a ler. 
No vou fingir que sei latim. No sei. No tinha a menor idia do que estava lendo. 
Mas acho que a pronuncia no conta quando a gente esta invocando as foras das trevas, j que, enquanto eu falava, aqueles redemoinhos nevoentos comearam a ficar 
cada vez mais compridos, at que finalmente se derramaram no cho e comearam a se enrolar em volta dos membros de Maria. 
Ela nem pareceu se importar. Era como se estivesse gostando da sensao deles em volta dos pulsos e dos tornozelos. 
Bem, a garota parecia meio chegada a um sadomasoquismo, se  que voc me entende. 
Nem lutou quando, enquanto eu continuava lendo, os redemoinhos se apertaram e comearam a ergu-la devagar. 
- Ei - disse Jack em voz indignada. - Por que eles no fizeram isso com voc? Por que voc teve de subir at o buraco? 
Mas fiquei com medo de responder. Quem sabia o que poderia acontecer se interrompesse a leitura? 
Por isso continuei. E Maria foi subindo cada vez mais, at que ... 
Com um grito estrangulado, Diego se separou de Jesse e veio correndo para ns. 
- Sua vaca! - gritou ele para mim, olhando horrorizado o corpo de sua mulher pendurado no ar, acima de ns. Traga-a de volta! 
Ofegando, com a camisa rasgada no meio e um pequeno fiapo de sangue escorrendo pelo lado do rosto, de um corte na testa, Jesse veio por trs de Diego e falou: 
- Se quer tanto sua mulher, por que no vai at ela? 
E empurrou Felix Diego para o centro do crculo de velas. Um segundo depois, redemoinhos de fumaa partiram para se enrolar nele tambm. 
Diego no recebeu o exorcismo com tanta facilidade quanto a mulher. No parecia estar se divertindo nem um pouco. Chutava, gritava e disse um bocado de coisas em 
espanhol que eu no entendi, mas que sem duvida Jesse entendeu. 
Mesmo assim, a expresso de Jesse no mudou nenhuma vez. De vez em quando eu erguia o olhar do que estava lendo e verificava. Ele ficou observando os dois amantes 
- o que o havia matado e a que tinha ordenado sua morte - desaparecerem no mesmo buraco de onde havamos descido. 
At que, finalmente, quando pronunciei o ultimo "amm", eles desapareceram. 
Quando o ltimo eco dos gritos vingativos de Diego morreu, o silncio preencheu a igreja. Era um silncio to penetrante que chegava a ser um pouco esmagador. Eu 
mesma estava relutante em romp-lo. Mas achei que era preciso. 
- Jesse - falei em voz baixa. 
Mas no o suficiente. Meu sussurro, no silncio da igreja depois de toda aquela violncia, pareceu um grito. 
Jesse afastou o olhar do buraco por onde Maria e Diego tinham desaparecido e me olhou de modo interrogativo. 
Assenti para o buraco. 
- Se quer voltar - falei, ainda que cada palavra, eu tinha certeza, tivesse um gosto parecido com aqueles besouros que Dunga acidentalmente havia derramado na boca 
-, a hora  agora, antes que ele se feche outra vez. 
Jesse olhou para o buraco, depois para mim, em seguida de novo para o buraco. 
E de novo para mim. 
- No, obrigado, mi hermosa - disse em tom casual. - Acho que quero ficar e ver como tudo isso termina. 

   Captulo 17

O modo como tudo terminou naquele dia foi com Jack, Jesse e eu ajudando o padre Dominic, quando ele finalmente voltou a si, a ir at um telefone, ligar para a polcia 
e informar que havia encontrado dois ladres saqueando a igreja. 
Era mentira, sim. Mas de que outro modo iria explicar os danos que Maria e Diego tinham causado? Para no mencionar o galo no cocuruto? 
Ento, assim que tivemos certeza de que a polcia e uma ambulncia estavam a caminho, Jesse e eu deixamos o padre Dominic e esperamos com Jack o txi que havamos 
chamado, cuidando para no falar na nica coisa que tenho certeza de que todos estvamos pensando: Paul. 
No que eu no tentasse fazer Jack me contar o que havia com o irmo. Basicamente a conversa foi assim: 
Eu: - E a, Jack. Qual  a do seu irmo? 
Jack: (com uma careta) - No quero falar nisso. 
Eu: - D para entender. Mas ele parece ser capaz de se mover livre mente entre o reino dos vivos e o dos mortos, e acho isso alarmante. Acha possvel que ele seja 
o filho de Sat? 
Jesse: - Suzannah! 
Eu: - Quero dizer, no melhor sentido possvel. 
Jack: - No quero falar nisso. 
Eu: - O que  perfeitamente compreensvel. Mas voc j sabia que Paul era mediador tambm? Ou ficou to surpreso quanto ns? Porque no pareceu muito surpreso quando 
se encontrou com ele, voc sabe, l em cima. 
Jack: - Realmente no quero falar disso agora. 
Jesse: - Ele no quer falar disso, Suzannah. Deixe o garoto em paz. 
O que era fcil para o Jesse. Jesse no sabia o que eu sabia. Que Paul, Maria e Diego ... estavam de conluio. Eu tinha demorado um tempo para perceber, mas agora 
que tinha percebido, era capaz de chutar a mim mesma por no ter notado antes: Paul me mantivera ocupada no Friday's enquanto Maria e Jack faziam o exorcismo de 
Jesse. A observao de Paul: " mais fcil pegar moscas com mel do que com vinagre." Maria no tinha me dito exatamente a mesma coisa, apenas algumas horas antes? 
Os trs - Paul, Maria e Diego - haviam formado uma trindade profana, aparentemente ligados pelo dio contra uma pessoa: Jesse. 
Mas que motivo Paul, que s conheceu Jesse naquele momento no purgatrio, teria para odi-lo? Agora, claro, sua averso era compreensvel: Jesse havia lhe causado 
um tremendo ferimento, algo de que Paul jurou se vingar na prxima vez em que o visse. Tenho certeza de que Jesse no estava levando isso muito a srio, mas fiquei 
preocupada. Quero dizer, tinha passado por uma tremenda encrenca para tirar Jesse de uma situao difcil. No me sentia muito entusiasmada para v-lo mergulhar 
direto em outra. 
Mas no adiantava. Jack no queria falar. O garoto estava traumatizado. Bem, mais ou menos. Na verdade parecia estar se divertindo um bocado. S no queria falar 
sobre o irmo. 
O que me incomodou. Porque tinha um monte de perguntas. Por exemplo, se Paul era mediador - e devia ser; de que outro modo poderia estar andando l por cima? -, 
por que no tinha ajudado o irmo com o negcio de "eu vejo gente morta", por que no disse umas palavras de encorajamento e garantido que o pobre coitado no era 
maluco? 
Mas se eu esperava conseguir alguma resposta de Jack, fiquei tremendamente desapontada. 
Acho que, se tivesse um irmo como Paul, provavelmente tambm no iria querer falar sobre isso. 
Assim que Jack foi deixado em segurana no hotel, Jesse e eu comeamos a longa volta para casa (eu no tinha mais dinheiro para um txi do hotel para casa). 
Voc pode se perguntar o que conversamos naquela caminhada de cinco quilmetros. Muita coisa, sem dvida, poderia ter sido discutida. 
No entanto, para dizer a verdade, no lembro. No acho que tenhamos realmente falado de coisas importantes. 
O que havia para ser dito? 
Entrei em casa com o mesmo sucesso com que havia sado. Ningum acordou, a no ser o cachorro, e assim que viu que era eu, voltou a dormir. Ningum tinha percebido 
minha ausncia. 

Ningum nunca percebe. 
Spike era o nico, alm de mim, que tinha notado o sumio de Jesse, e sua alegria ao v-lo foi um embarao para todos os felinos. Dava para ouvir o gato idiota ronronando 
do outro lado do quarto ... 
Mas no ouvi por muito tempo. Porque o que aconteceu foi que entrei, puxei as cobertas, tirei os sapatos e subi na cama. Nem lavei a cara. Subi na cama, olhei uma 
ultima vez para Jesse, como se para garantir que ele realmente estava de volta, e dormi. 
E fiquei dormindo at o domingo. 
Mame se convenceu de que eu havia contrado mononucleose. Pelo menos at ver o hematoma na testa. Ento decidiu que eu estava sofrendo de aneurisma. Por mais que 
tentasse convenc-la de que nada disso era verdade - que eu s estava muito, muito cansada -, ela no acreditou, e tenho certeza de que me arrastaria ao hospital 
na manh de domingo para uma tomografia - e, eu tinha dormido por quase dois dias -, s que ela e Andy precisavam ir a colnia de frias, pegar o Mestre. 
O negocio  que acho que morrer - mesmo que por meia hora - pode ser muito exaustivo. 
Acordei morrendo de fome. Depois de mame e Andy terem sado - aps arrancar a promessa de que eu no sairia de casa o dia inteiro e esperaria humildemente por eles, 
para que pudessem reavaliar meu estado de sade -, comi dois pezinhos e uma tigela de cereal antes que Soneca e Dunga ao menos aparecessem a mesa, desgrenhados 
e amarfanhados. De minha parte, eu j havia tomado banho e trocado de roupa, e estava pronta para enfrentar o dia ... ou pelo menos o desemprego, j que no tinha 
certeza se o Pebble Beach Hotel and Golf Resort estenderia meu contrato por ter perdido dois dias de trabalho seguidos. 
Mas Soneca me tranquilizou. 
- No, tudo bem - falou enquanto enfiava Cherrios na boca. - Falei com Caitlin. Contei que voc estava passando, sabe, por uma coisa. Por causa do defunto no quintal, 
Ela disse que tudo bem. 
- Verdade? - Eu no estava escutando Soneca. Em vez disso olhava Dunga comer, sempre uma viso que provoca espanto. Desejei ter uma cmera para gravar o acontecimento 
para a posteridade. Ou pelo menos provar a prxima garota que declarasse que meu meio-irmo era um gato como ela estava errada. Fiquei olhando enquanto, sem erguer 
o olhar do jornal aberto a sua frente, Dunga enfiava a outra metade do pozinho na boca e, de novo sem mastigar, o ingeria como as cobras devoram ratos. 
Era a coisa mais nojenta que eu tinha visto na vida. Bem, fora os besouros na caixa de suco de laranja. 
- Ah. - Soneca se inclinou para trs na cadeira e pegou uma coisa no balco atrs dele. - Caitlin disse para dar isso a voc.  dos Slater. Eles foram embora ontem. 
Peguei o envelope que ele jogou. Era gordo. Havia algo duro dentro. Do lado de fora estava escrito SUZAN. 
- Eles s iam embora hoje - falei rasgando o envelope. 
- Bem. - Soneca deu de ombros. - Saram mais cedo. No sei por que. 
Li a primeira carta que estava no envelope. Era da sra. Slater. Dizia: 

"Cara Suzan, 

O que posso dizer? Voc fez maravilhas pelo nosso Jack. 
Ele parece um menino diferente. As coisas sempre foram mais difceis para o Jack do que para o Paul. Jack simplesmente no tem a inteligncia do Paul, acho. De qualquer 
modo, lamentamos muito no podermos nos despedir, mas tivemos de partir antes da hora programada. Por favor, aceite este pequeno sinal de nosso agradecimento, e 
saiba que Rick e eu estaremos lhe devendo para sempre. 

Nancy Slater" 

Dobrado neste bilhete havia um cheque de duzentos dlares. 
No estou brincando. E no era o pagamento da semana. 
Era a gorjeta. 
Pus o cheque e a carta ao lado da tigela de cereal e peguei o prximo bilhete no envelope. Era do Jack. 

"Querida Suze, 

Voc salvou minha vida. Sei que no acredita, mas salvou. Se no tivesse feito o que fez, eu ainda estaria com medo. Acho que nunca mais vou ter medo. Obrigado, 
e espero que sua cabea esteja melhor. Escreva se puder. 

Com amor, Jack 

P.S. Por favor, no me pergunte mais sobre o Paul. Sinto muito o que ele fez. Tenho certeza de que no foi de propsito. Ele no  to mau." 

"Ah, certo", pensei cinicamente. "No  to mau?" O cara era arrepiante! Podia andar livre mente na terra dos mortos, no entanto, quando o irmo vivia morrendo de 
pavor porque podia ver gente morta, nem levantou um dedo para explicar. O cara era muito mau. Sinceramente esperava nunca mais v-lo de novo. 
Havia um segundo ps-escrito no bilhete de Jack. 
"P.P.S. Achei que talvez voc quisesse ficar com isso. 
No sei o que fazer com ele." 
Inclinei o envelope e, para minha grande surpresa, caiu a miniatura de Jesse que eu tinha visto na mesa de Clive Clemmings, na sociedade histrica. Olhei para ela, 
pasma. 
Teria de devolver. Foi meu primeiro pensamento. Tinha de devolver. Quero dizer, no tinha? A gente no pode ticar com coisas assim. Seria como roubar. 
S que, de algum modo, no acho que Clive se importaria. 
Especialmente depois que Dunga levantou a cabea sobre o jornal e disse: 
- Ei, a gente saiu aqui. 
Soneca ergueu os olhos da seo de automveis onde, como sempre, estivera procurando um Camaro 67 preto com menos de 80.000 quilmetros. 
- Corta essa - disse ele em voz entediada. 
- No, srio - insistiu Dunga. - Olha. 
Ele virou o jomal, e ali estava uma foto da nossa casa. 
Ao lado havia uma foto de Clive Clemmings e uma reprooduo do retrato de Maria. 
Arranquei o jornal da mo de Dunga. 
- Ei - gritou ele. - Eu estava lendo isso! 
- Deixe algum que consegue pronunciar todas as palavras grandes tentar - respondi. 
E ento li em voz alta para os dois o artigo de Cee Cee. Ela havia escrito, basicamente, a mesma histria que eu tinha contado, comeando com a descoberta do corpo 
de Jesse - s que o chamou de Hector, e no Jesse, de Silva e chegando  teoria do av de Clive sobre o assassinato. Bateu em todos os pontos certos, enfatizando 
a traio de Maria e a perversidade geral de Diego. E, sem dizer explicitamente, conseguiu indicar que ningum da prole do casal tinha dado em grande coisa. 
 isso ai, Cee Cee. 
Cee Cee deu o crdito de todas as informaes ao falecido dr. Clive Clemmings, Ph.D., que, segundo ela, estava decifrando o mistrio quando morreu, h alguns dias. 
Tive a sensao de que Clive, onde quer que estivesse, ia ficar satisfeito. No somente porque ficou parecendo um heri par ter resolvido um assassinato de 150 anos, 
mas porque eles conseguiram achar uma foto sua em que ainda tinha a maior parte dos cabelos. 
- Ei - disse Dunga quando terminei a leitura. - Por que no falaram de mim? Fui eu que achei o esqueleto. 
- Ah,  - respondeu Soneca, enojado. - Seu papel foi mesmo crucial. Afinal de contas, se no fosse voc, o crnio do cara ainda podia estar intacto. 
Dunga se lanou contra o irmo mais velho. Enquanto os dois rolavam pelo cho, fazendo um barulho estrondoso que o pai jamais teria admitido se estivesse em casa, 
pus o jornal de lado e voltei ao envelope dos Slater. Ainda havia um pedao de papel dentro. 

"Suze", diziam as letras fortes e inclinadas. Aparentemente no era para ser ... por enquanto. 
Paul. No dava para acreditar. O bilhete era do Paul. 

"Sei que voc tem perguntas. Tambm sei que tem coragem. O que me pergunto  se tem a coragem para fazer a pergunta mais difcil para algum da nossa ... faco. 
Enquanto isso, lembre-se: se voc der um peixe a um homem, ele comera por um dia. Mas se ensin-lo a pescar ele comera todo o peixe que voc poderia ter apanhado 
para si mesma. 
E s uma coisinha para ter em mente, Suze.
 Paul" 

"Nossa! ", pensei. Que encantador. No  de espantar que nunca tenhamos combinado. 
A pergunta mais difcil? O que era isso? E de que faco ns ramos, exatamente? O que esse cara sabia que eu no sabia? Aparentemente, muita coisa. 
Mas uma coisa eu sabia. Independentemente do que Paul fosse - e no estava totalmente convencida de que ele fosse um mediador -, ele era um sacana. Quero dizer, 
Paul tinha deixado Jack na mo no apenas uma vez, mas duas, primeiro no se incomodando em dizer: "Ei, o se preocupe, garoto, para pessoas como voc e eu  normal 
ver gente morta em tudo que  canto", e na segunda vez deixando-o sozinho naquela igreja enquanto os dois psicopatas arrebentavam o lugar. 
Para no mencionar o que, eu estava convencida, ele tinha feito ao Jesse, um cara que ele nem conhecia. 
E por isso nunca iria perd-lo. 
E certamente no iria confiar nele. Nem em suas opinies sobre pesca. 
Mas, por mais enojada que estivesse, no joguei o bilhete fora. Decidi que ele teria de ser mostrado ao padre Dom que, segundo me garantiram por telefone, estava 
bem - s um pouco dolorido. 
Enquanto Soneca e Dunga rolavam - Dunga gritando "Sai de cima de mim, sua bicha" -, peguei meus ganhos e voltei para cima. Ora, era meu dia de folga. No iria pass-lo 
dentro de casa, apesar das ordens de mame. Decidi ligar para Cee Cee e ver o que ela estava a fim de fazer. Talvez a gente pudesse ir  praia. Eu merecia um pouquinho 
de descanso e gandaia. 
Quando cheguei ao quarto, vi que Jesse j estava de p. 
Em geral ele no faz visitas matinais. Por outro lado, normalmente eu no durmo durante trinta e seis horas direto, por isso acho que nenhum de ns estava seguindo 
rigidamente a programao. 
De qualquer modo, eu no esperava encontr-lo ali, por isso pulei mais de meio metro e escondi s costas a mo que segurava sua miniatura. 
Puxa, qual ! No quero que ele ache que eu gosto dele nem nada. 
- Voc acordou - disse ele do banco da janela, onde estava sentado com Spike e um exemplar de Steal This Book, de Abbie Hoffman, que eu tinha roubado da estante 
de minha me l embaixo. 
-  ... - falei, deslizando at a cama. Talvez, se fosse suficientemente rpida, poderia enfiar a pintura embaixo do travesseiro antes que ele notasse. - Acordei 
sim. 
- Como est se sentindo? 
- Eu? - perguntei como se houvesse mais algum no quarto com quem ele pudesse estar falando. 
Jesse pousou o livro e me olhou com outra daquelas expresses. Voc sabe, do tipo que eu nunca consigo decifrar. 
- Estou tima. 
- Bom. Precisamos conversar. 
De repente no me sentia mais relaxada. De fato, saltei de p. No sei por qu, mas meu corao comeou a bater muito depressa. 
Conversar. Sobre o que ele quer conversar? Minha mente ia a duzentos por hora. Acho que deveramos conversar sabre a que tinha acontecido. Quero dizer, foi bem apavorante 
e coisa e tal, quase morri, e, como Paul disse, tenho um monte de perguntas. 
Mas e se fosse sobre isso que Jesse queria falar? Quero dizer, sabre a parte em que quase morri? 
Eu no queria falar disso. Porque o fato  que toda essa parte, a parte em que quase morri, bem, quase morri tentando salv-lo. Srio. Esperava que ele no tivesse 
notado, mas pela sua cara dava para ver que tinha, totalmente. Quero dizer, notado. 
E agora queria falar sobre isso. Mas como  que eu poderia falar sabre isso? Sem deixar escapar. Quero dizer, a palavra que comea com "a". 
- Sabe de uma coisa? - falei bem depressa. - No quero conversar. Tudo bem? Realmente, realmente no quero conversar. Estou cheia de conversas.
Jesse tirou Spike do colo e o pousou no cho. Depois se levantou.
O que ele estava fazendo? O que ele estava fazendo? Respirei fundo e continuei falando sobre no falar.
- S estou ... olha - falei enquanto ele dava um passo na minha direo. - S vou ligar para Cee Cee e talvez a gente v  praia ou alga assim. Porque realmente
... preciso de uma folga.
Outro passo na minha direo. Agora ele estava bem na minha frente.
- Principalmente de conversas - falei de modo significativo, olhando para ele.  disso que eu preciso especialmente de uma folga. De conversas.
- timo - respondeu Jesse. Em seguida estendeu as mos e segurou meu rosto. - No precisamos conversar.
E foi ento que ele me beijou. Na boca.
* * *
